Nome de João Cândido é aprovado em comissão no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria

 

O almirante João Cândido (FOTO/ Reprodução / Prefeitura de São João de Meriti).

A Comissão de Educação (CE) aprovou nesta quinta-feira (28) projeto que inscreve o nome de João Cândido Felisberto no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria. O PLS 340/2018, do ex-senador Lindebergh Farias, teve parecer favorável do senador Paulo Paim (PT-RS) e segue agora para análise da Câmara dos Deputados, se não houver solicitação para análise em Plenário.

Nascido no Rio Grande do Sul em 1880, filho de ex-escravizados, João Cândido trabalhou por mais de 15 anos na Marinha de Guerra do Brasil, tendo sido instrutor de aprendizes de marinheiro. Ele foi o marinheiro que liderou a Revolta da Chibata, ocorrida em 1910 em navios atracados na Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, e entrou para a história como o Almirante Negro.

Em reunião anterior o senador Izalci Lucas (PSDB-DF) pediu vista “para melhor conhecimento da matéria”. Nesta quinta-feira o parlamentar votou favoravelmente ao projeto, mas leu para o colegiado nota de posição da Marinha, em que a instituição considera que o movimento ocorrido em novembro de 1910 não pode ser considerado como “ato de bravura” ou de “caráter humanitário”.

De acordo com a nota técnica, “a revolta dos marinheiros de 1910 foi, de fato, um acontecimento triste na história do país. Todos os envolvidos, dentre eles a Marinha, setores do governo, os revoltosos e outras instituições tiveram culpas e omissões. Mas, reconhecer erros não justifica avalizar outros e, por conseguinte, exaltar as ações dos revoltosos”.

Emocionado, Paim enfatizou que respeita a Marinha e que não a vê como um polo racista no Brasil.

—O nosso próprio homenageado, o Almirante Negro, que num movimento para a sociedade já é um herói, escreveu a sua história dentro da Marinha, mas a Marinha, no documento, reconhece que ela discordou também da chibata.

Paim destacou o apoio de diversas personalidades e instituições, entre elas a Defensoria Pública da União, a Coordenadoria de Assuntos Raciais, a Associação Brasileira de Pesquisadores/as Negros/as, a Coalizão Negra por Direitos, a Associação Brasileira de História, a Frente Nacional Antirracista. Ele lembrou ainda homenagens feitas a João Cândido, entre elas as realizadas pelo governo e pela Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, além da Fundação Palmares.

— Em 24 de julho de 2008, 39 nove anos depois da morte de João Cândido Felisberto, publicou-se, como a própria Marinha reconhece, no Diário Oficial da União, anistia total e irrestrita àqueles que lideraram a Revolta da Chibata. Em 7 de maio de 2010 — olhe bem —, a Transpetro, a pedido do Presidente da República, batizou com o nome de João Cândido o primeiro navio do Promef (Programa de Modernização e Expansão da Frota).

Segundo o senador, “João Cândido é, na verdade, um agente social, que lutou e deu sua vida em defesa da dignidade e da justiça, uma personagem da história brasileira”.

— À época dos acontecimentos, ele já era tratado como herói, tornando-se então figura lendária. É cantado em verso e prosa até os dias de hoje. Por muitos e muitos anos, o assunto não veio ao debate, mas as raízes, que são profundas e verdadeiras, jamais morrem. Elas não morrem, elas ficarão sempre vivas. Eu sempre digo que as causas são indomáveis e ninguém consegue vencer as causas onde elas são justas. Elas se eternizam, elas tornam-se povo. Isso também faz a história de um povo e de um país.

O senador Flávio Arns (Podemos-PR) ratificou seu apoio a Paim.

— Esse é um fato que aconteceu naquela época. Já me manifestei que o comportamento mais adequado da Marinha seria pedir perdão para a sociedade para os fatos ocorridos, da mesma forma como o Brasil deveria pedir perdão pela escravidão que ocorreu no nosso país. Isso não pode se repetir e temos de reparar aquilo que cometemos — afirmou.

Líder da bancada do PT no Senado, o senador Paulo Rocha (PT-PA) disse que foi procurado pelo comando da Marinha.

— Uma homenagem a João Cândido não significa uma posição de aversão à Marinha. Nós consideramos a Marinha uma das forças armadas mais próximas da situação de nosso povo. Eu quero demonstrar com isso o sentimento que nós temos em relação à Marinha, para poder não colocar essa questão que o companheiro Paulo Paim colocou na defesa e na homenagem a esse grande brasileiro chamado João Cândido (…) Porque ele não atuou só como marinheiro; ele foi um personagem muito importante na luta dos negros, dos povos daquela época.

Esperidião Amin (PP-SC) considerou o assunto muito sério e complexo.

— A nota técnica na Marinha deve constar por inteiro nos anais dessa sessão. Porque uma coisa é homenagear uma pessoa, outra coisa é interpretar um movimento — no caso, um movimento que não foi de um dia. (…) O personagem merece, sim, o meu voto favorável porque, de alguma forma, contribuiu para uma evolução.

Revolta

O principal motivo da revolta foi a insatisfação dos soldados da Marinha com os castigos físicos, os maus-tratos e as más condições de trabalho. Os castigos cruéis eram proibidos na Marinha desde 1889. Mesmo assim, eram impostos pelos oficiais aos soldados, negros em sua maioria. Várias tentativas de negociação fracassaram, entre elas a que contou com a participação do então presidente da República Nilo Peçanha.

O estopim para a revolta foram as 250 chibatadas destinadas ao marinheiro Marcelino Menezes, acusado de agredir um oficial. A punição incluiu a proibição de que ele recebesse atendimento médico.

Por quatro dias, quatro encouraçados apontaram seus canhões para a Baía da Guanabara. A tensão terminou com o compromisso do governo, em acordo aprovado pelo Senado e assinado pelo presidente Hermes da Fonseca, sucessor de Nilo Peçanha, de dar fim ao uso da chibata e anistiar os envolvidos na revolta.

A anistia prometida, contudo, não ocorreu. João Cândido foi expulso da Marinha e preso por dois anos na Ilha das Cobras. Mesmo inocentado das acusações, foi banido, sendo perseguido até mesmo ao buscar trabalho na Marinha Mercante.

Paim afirma que Cândido morreu em 1969 sem o devido reconhecimento de suas contribuições, sem patente e na miséria. Em 2008, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a Lei 11.756, que concedeu anistia póstuma a João Cândido Felisberto e aos demais participantes da Revolta da Chibata.

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Com informações do Geledés.

Dia da Consciência Negra pode se tornar feriado municipal em Altaneira

 

Altaneira, Ceará. (FOTO/ Reprodução).

Por Nicolau Neto, editor

O projeto de Lei da Câmara de Altaneira, de número 026/2021, pode tornar o 20 de novembro - dia da Consciência Negra - em feriado municipal. A iniciativa partiu do presidente da casa, o vereador Deza Soares (PT).

Tornar o dia em que se relembra toda uma história de resistência e de luta da população negra do país, é uma das 11 (onze) propostas do Plano Municipal de Combate ao Racismo e de Promoção da Equidade apresentado pelo professor e fundador deste Blog, Nicolau Neto, junto aos poderes executivo e legislativo no mês de maio do ano em curso.

Na justificativa do projeto, Deza frisou que entende o racismo como estrutural e que está cada vez mais latente nessa conjuntura política atual. Por isso, desejo se contrapor ao extermínio da população negra. É preciso enfatizar, ainda, que mudar e transformar cada espaço passa necessariamente pelo combate ao racismo e concomitantemente pela promoção da equidade e para tanto, é fundamental a construção de ações afirmativas concretas e viáveis.

O projeto em destaque se insere dentro dessa discussão e contribui para que o grupo que representa mais de 56% da população, possa se sentir contemplado, além de demonstrar que Altaneira, por meio deste parlamento, está acenando positivamente para reconhecer a importância da negritude na formação do país”, escreveu.

O projeto foi apresentado na última quarta-feira (27/10) e encaminhado à Comissão Permanente para análise e emissão de parecer. Se for ao plenário e aprovado, a lei 674 de 1º de fevereiro de 2017, que tornou a data supracitada ponto facultativo ficará sem efeito, passando a data a fazer parte do calendário municipal como feriado.

Clique aqui e conheça a Lei 674/2017.

Clique aqui e conheça o Plano de Combate ao Racismo e de Promoção da Equidade em Altaneira.

Bolsonaro extingue Bolsa Família no momento que o povo mais precisa

 

(FOTO/ Reprodução).

Depois de 18 anos, o programa de transferência de renda instituído no governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que já foi considerado modelo no mundo, paga seus últimos beneficiários nesta sexta-feira (29) antes de sair de cena. Isso porque o Bolsa Família será extinto pela Medida Provisória (MP) 1061, que cria o eleitoreiro Auxílio Brasil.
Oficialmente, o Bolsa Família só termina na próxima semana, quando a lei que o criou será revogada, mas ainda pode voltar – caso o Congresso deixe caducar ou altere a MP. No entanto, até lá, as mais de 14 milhões de famílias que recebem o Bolsa Família vivem na incerteza – inclusive se permanecerão sendo beneficiadas pelo programa de Bolsonaro, ou se receberão algum auxílio no próximo mês.

O governo promete começar a pagar o Auxílio Brasil em novembro, mas na quinta-feira (28), anunciou mudanças no valor. Dos R$ 400 já mudou para um reajuste de 20% no valor do Bolsa Família para só depois chegar aos R$ 400.

A extinção do Bolsa Família vem sendo criticada por parlamentares de Oposição. Isso porque, eles entendem que o governo federal deveria fortalecer o programa existente em vez de substitui-lo por um programa provisório. A previsão é de que o Auxílio Brasil vá até o final de 2022 apenas.

“As famílias estão sendo castigadas pela carestia. É inaceitável que Bolsonaro extinga o Bolsa Família, programa exitoso, no momento em que os brasileiros mais precisam. É um erro substituir uma política pública de 18 anos pelo Auxílio Brasil, sem consistência e planejamento”, afirma o líder do PCdoB, Renildo Calheiros (PE).

Os deputados Orlando Silva (PCdoB-SP) e Alice Portugal (PCdoB-BA) também criticaram o fim do Bolsa Família. “Após 18 anos que Lula criou uma política internacionalmente reconhecida, que livrou o Brasil da fome, hoje é o último dia do Bolsa Família. Bolsonaro, responsável por 20 milhões de brasileiros sobreviverem de restos, vai acabar com o programa por um capricho eleitoreiro”, repudiou Orlando Silva. 

Estudo de 2019 do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostrou que, em 2017, as transferências do programa Bolsa Família retiraram 3,4 milhões de pessoas da pobreza extrema e outras 3,2 milhões da pobreza. E, de 2001 a 2015, o programa respondeu por uma redução de 10% da desigualdade no país. O instituto também mostrou que cada real investido no programa gera R$ 1,8 no Produto Interno Bruto (PIB), criando um efeito benéfico ao crescimento do país.

O Bolsa Família também produziu efeitos positivos sobre a saúde e a educação, com queda de 58% na mortalidade infantil, aumento da frequência escolar e – graças à melhoria na alimentação – na altura das crianças. Isso porque uma das exigências para recebimento do benefício era manutenção das crianças nas escolas.

Um relatório publicado pelo Conselho de Monitoramento e Avaliação de Políticas Públicas do Ministério da Economia, já em 2020, apontou que “o programa conseguiu com sucesso reduzir a pobreza no Brasil de modo significativo”.
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As informações são do Portal Vermelho.

STF decide que injúria racial é imprescritível e pode ser equiparada ao crime de racismo

 

(FOTO/ Rosinei Coutinho/SCO/STF).

O Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu nesta quinta-feira (28), por 8 votos a 1, que o crime de injúria racial pode ser equiparado ao de racismo e ser considerado imprescritível, ou seja, passível de punição a qualquer tempo.

De acordo com o Código Penal, injúria racial é a ofensa à dignidade ou ao decoro em que se utiliza palavra depreciativa referente a raça e cor com a intenção de ofender a honra da vítima.

O crime de racismo, previsto em lei, é aplicado se a ofensa discriminatória é contra um grupo ou coletividade — por exemplo: impedir que negros tenham acesso a estabelecimento. O racismo é inafiançável e imprescritível, conforme o artigo 5º da Constituição.

O julgamento começou em novembro do ano passado com o voto do relator, ministro Edson Fachin. Ele afirmou que existe racismo no Brasil e que o crime é uma “chaga infame, que marca a interface entre o ontem e o amanhã”.

Na sessão seguinte, no dia 2 de dezembro, o ministro Nunes Marques divergiu e votou contra tornar a injúria racial imprescritível. Para o ministro, essa é uma competência do Legislativo.

O ministro Alexandre de Moraes, que havia pedido vista para analisar o caso, acompanhou o voto do relator nesta quinta-feira (28).

Amanhã, o Congresso pode estabelecer outros tipos penais que permitam o enquadramento das modalidades de racismo. O que a Constituição torna imprescritível é qualquer prática de condutas racistas, e essa prática da paciente foi uma conduta racista”, afirmou Moraes.

Em seguida, o ministro Luís Roberto Barroso também acompanhou o relator.

Estamos todos no Brasil passar por um processo de reeducação nessa matéria. E quando eu digo todos é para a gente ter a autopercepção de quando produzimos comportamentos indesejáveis”, declarou Barroso.

O ministro Ricardo Lewandowski argumentou que a vontade do legislador era determinar que o crime de injúria racial é imprescritível.

O ministro Luiz Fux, presidente da Corte, também acompanhou o relator. O ministro Gilmar Mendes não votou.

O caso

O plenário do STF analisa o caso específico de uma mulher de 79 anos, condenada a um ano de prisão em 2013 por agredir, com ofensas de cunho racial, a frentista de um posto de gasolina.

O caso entrou na pauta após o assassinato de um homem negro por seguranças brancos em um supermercado da rede Carrefour em Porto Alegre (RS).

A defesa disse que a mulher não pode ser mais punida pela conduta em razão da prescrição do crime por causa da idade. Pelo Código Penal, o prazo de prescrição cai pela metade quando o réu tem mais de 70 anos.

A Sexta Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) já decidiu que a injúria racial não prescreve, mas os advogados recorreram ao STF.

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Com informações do G1 e Geledés.

Pesquisa revela troca de cartas em tupi entre indígenas do século 17

 

Fotomontagem de Lívia Magalhães com imagens de Patrick Raynaud/APIB e Eduardo Navarro/Arquivo.

A história é escrita pelos vencedores. No caso brasileiro, primeiro foram os portugueses e, depois, os holandeses. Documentos que contam a história brasileira pela perspectiva dos que foram vencidos – os povos originários – são raros. O professor Eduardo Navarro, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, especialista em tupi antigo e em literatura do Brasil colonial, mostra uma dessas exceções. Navarro pesquisou seis cartas trocadas entre indígenas em 1645, os únicos textos conhecidos que os próprios indígenas escreveram em tupi nos tempos coloniais. Essas cartas estão guardadas nos arquivos da Real Biblioteca de Haia, na Holanda, e detalham uma guerra religiosa travada entre portugueses e holandeses, com a presença de indígenas em cada lado, conhecida como Insurreição Pernambucana (1645-1654).

O professor explica que essas seis cartas pertenciam ao arquivo da Companhia das Índias Ocidentais, uma empresa de comércio com capitais privados e também capitais do Estado holandês. Essa companhia organizou uma invasão do Nordeste brasileiro em 1625, que não foi bem-sucedida. Os integrantes da companhia voltaram para o país europeu com alguns indígenas a bordo, entre eles os caciques Pedro Poti e Antônio Paraopeba. Na Holanda, os caciques foram convertidos ao protestantismo calvinista. Cinco anos depois, houve outra tentativa de invadir a costa do Nordeste. E dessa vez deu certo, principalmente, em Pernambuco, onde os holandeses permaneceram por 24 anos, desde 1630 até 1654.

“E por que Portugal deixou a Holanda invadir o seu território?”, provoca Navarro. Ele relata que, em 1645, fazia cinco anos que Portugal tinha saído do domínio espanhol e, para firmar sua independência, era necessário obter apoio dos holandeses. Essa aliança foi consolidada pelo padre Antônio Vieira, que também era diplomata. Ele escreveu o plano Papel Forte, que consistia em entregar o Nordeste brasileiro em troca de apoio político. Já os senhores de engenho não queriam a presença dos holandeses, pois muitos estavam endividados com a Companhia das Índias Ocidentais. Queriam que os holandeses fossem embora, para não pagar suas dívidas. Nesse período, o conde Maurício de Nassau foi quem administrou Pernambuco e conseguiu apaziguar os conflitos religiosos e dos senhores de engenho. Ele criou um ambiente de tolerância religiosa, numa época em que em território português era obrigatório o catolicismo e as outras religiões eram consideradas heresia.

Carta de de Felipe Camarão a Antônio Paraopeba, de 4 de outubro de 1645. (FOTO/ Arquivo de Eduardo Navarro).

Quando Nassau voltou para a Europa, em 1644, começaram a acontecer conflitos religiosos. Jacob Rabbi, um alemão a serviço do governo holandês, provocou um massacre em Cunhaú, no Rio Grande do Norte. As portas da Igreja de Nossa Senhora das Candeias foram trancadas e dezenas de fiéis foram mortos. Esse foi o estopim para a Insurreição Pernambucana.

Navarro descreve que, do lado holandês, ficaram Pedro Poti e Antônio Paraopeba, indígenas protestantes, e, do lado português, Felipe Camarão, indígena católico, que pedia a seus parentes Poti e Paraopeba que voltassem para o lado português. “Esses pedidos estão nas cartas, todas de 1645: a primeira é de agosto e as últimas são de outubro. Foram preservadas seis cartas, mas imagino que deve haver mais”, destaca o professor. Ele conta que a primeira carta de que há registro é de Felipe Camarão, pedindo para que Pedro Poti deixasse os holandeses, sob a alegação de que eram hereges e “estão no fogo do diabo”. Camarão escrevia que os indígenas precisavam se unir, pois eram do mesmo sangue e não podiam se matar daquela maneira. A resposta do Poti é conhecida através de um resumo em holandês feito por um pastor holandês. “Poti respondeu que não havia motivo para apoiar os portugueses, já que eles só fizeram mal para seu povo: escravizaram e praticaram violência contra os potiguaras. Uma crítica bem contundente”, ressalta Navarro. Diferentes dos holandeses, os portugueses não preservaram as cartas dos indígenas, entre elas a resposta de Poti. “Por isso só é possível ver as cartas que os holandeses receberam”, lamenta o professor.

O conteúdo das cartas é constituído por textos sobre indígenas que desejam que seus parentes se unam, que abandonem as suas posições na guerra e parem de matar os seus parentes. Há comentários em que eles pedem que suas antigas tradições sejam revigoradas. Por meio das cartas, obtêm-se também informações mais específicas, como os nomes dos caciques que morreram na guerra e os lugares em que eles lutaram.

Pelo fato de as cartas serem escritas pelos próprios indígenas, pode-se observar como era a língua efetivamente falada e usada por eles, de acordo com Navarro. Assim, as cartas também são consideradas provas de que os missionários descreveram a língua corretamente. Como conta o professor, há estudiosos que dizem que os missionários jesuítas teriam adaptado a língua aos seus interesses. Entretanto, não foi isso o que aconteceu. “As cartas comprovam que missionários escreveram exatamente aquilo que os indígenas falavam.”

Antes de Navarro, houve algumas tentativas de traduções das cartas. Uma delas foi feita pelo engenheiro Teodoro Sampaio, que recebeu as cartas pelo historiador José Hygino Duarte Pereira, que foi quem as descobriu, em 1885. O engenheiro confessa, em seu artigo Cartas tupis dos Camarões (1908), que até conseguia reconhecer o assunto das cartas, mas não conseguia traduzi-las efetivamente. Eram “verdadeiros mistérios”. Ninguém mais tentou traduzi-las até a década de 1990, quando o professor da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) Aryon Rodrigues foi à Holanda buscar essas cartas. Não conseguiu traduzi-las e mostrou-as a Navarro. “Eu pedi para a biblioteca na Holanda e elas chegaram em microfilmes. E percebi que ninguém conseguia traduzi-las porque não havia dicionário em tupi antigo. Eu tive que elaborar um dicionário para depois traduzir as cartas”, explica Navarro. Após publicar Dicionário de Tupi Antigo: a Língua Indígena Clássica do Brasil (2013), Navarro começou a analisar as seis cartas de forma mais intensa.

“São os primeiros e os únicos documentos escritos pelos próprios indígenas até a Independência do Brasil. É muito raro ter algo escrito pelos indígenas que tenha sido preservado. Esse é o verdadeiro valor dessas cartas”, destaca Navarro. Com esses “documentos preciosos”, de acordo com Navarro, observa-se também os rumos da guerra. As cartas mostram o movimento dos exércitos, aspectos da cultura dos indígenas potiguaras e certa tristeza por terem perdido sua cultura tradicional.

“Esse trabalho me alegra muito”, comenta Navarro. Ele afirma que há duas razões para essa alegria. A primeira é que a pesquisa é uma contribuição para a cultura brasileira. A segunda é que as cartas auxiliam no ensino. O professor conta que desde 2001 ensina tupi para um grupo de indígenas potiguaras, na Paraíba, que tinham deixado de falar sua língua e hoje buscam uma afirmação da sua identidade e querem aprender a língua.

A pesquisa do professor Navarro será publicada no Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi, de Belém, no Pará.

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Com informações do Jornal da USP e do Portal Vermelho.

Arqueólogos descobrem que povos tupis habitaram o Cariri há 2,4 mil anos

 

Sete sítios arqueológicos foram encontrados e analisados na área do CAC. O sítio São Bento/Lagoa Encantada é apontado como o mais significativo em relação às informações identificadas. (FOTO/ Agnelo Queiroz/Divulgação).

A descoberta de artefatos em um sítio arqueológico na comunidade São Bento, na cidade do Crato, aponta a presença de grupos Tupi na região do Cariri. O material foi coletado em uma pesquisa realizada entre os anos de 2013 e 2021 e reforça teses levantadas por estudos arqueológicos na década de 1980.

Restos de fogueiras, ainda com quantidade significativa de carvão, foram enviados para datação em um laboratório da Flórida, nos Estados Unidos, e apontam para essa presença no Ceará há cerca de 2.400 anos.

A pesquisa foi realizada durante o processo de licenciamento ambiental e cultural das obras do Cinturão das Águas do Ceará (CAC), projeto da Secretaria de Recursos Hídricos do Estado (SRH).

Inicialmente, o estudo foi coordenado pela arqueóloga Rosiane Limaverde, falecida em 2017, e em seguida pelo arqueólogo Agnelo Queirós, que concluiu o trabalho e apresentou seus resultados em relatório para o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

Vasto Acervo Arqueológico

Dentre os sete sítios arqueológicos encontrados e pesquisados na área do CAC, o sítio São Bento/Lagoa Encantada se configurou como o mais significativo em relação às informações identificadas.

Foi caracterizado como um sítio Tupi por conter um vasto acervo arqueológico da cultura material desses povos, conhecidos, de forma geral, pela vasta e rica produção ceramista e lítica, além da agricultura e especificidades da dieta alimentar e outras atividades culturais e tecnológicas”, detalha.

Nas escavações, foi encontrada uma importante diversidade de fragmentos e vasilhas em cerâmica ricamente decoradas. Entre outros artefatos, também foram encontradas peças que compunham a estrutura de fusos, peças que evidenciam a prática da tecelagem.

Estes grupos viveram em período pré e pós-colonial e são subdivididos em acordo com outras gerações, mas com aspectos culturais compartilhados

Agnelo Queirós

Arqueólogo

Contudo, só a partir do processo de datação se pode saber quando estes grupos passaram pelo território do interior cearense. Para isso, foram coletadas estruturas de combustão em blocos e seixos rochosos.

Também podem ser enviados ossos ou outros materiais orgânicos”, destaca Agnelo. Neste caso, foi o carvão encontrado, no mesmo contexto da cerâmica, que passa por um processo de Radiocarbono (C14) no laboratório da Beta-Analytic, na Flórida, nos Estados Unidos, o mais próximo do país capaz de apontar esses resultados.

Os resultados apontaram para a datação de cerca de 2,4 mil anos atrás, a terceira datação mais antiga já realizada no território do Cariri cearense para sítios de contexto e cultura material semelhantes.

O carbono coletado para a datação é destruído durante o processo de análise, enquanto o restante das peças encontradas, como material cerâmico e lítico, estão na Fundação Casa Grande - Memorial do Homem Cariri, instituição de endosso e salvaguarda do acervo arqueológico.

Origem dos Tupi no Cariri

Conforme aponta a literatura arqueológica e antropológica, o tronco cultural linguístico Tupi tem sua origem na região amazônica, no Norte do País, mais especificamente no atual estado de Rondônia, em períodos pré-coloniais, e seguiram em dispersão e povoamento de outras áreas do atual território brasileiro através da Região Centro-Oeste, seguindo então pelo Sul, Sudeste e Nordeste.

Por muito tempo se acreditou que essa dispersão somente tinha acontecido pelo litoral. No entanto, desde a década de 1980, pesquisas apontam a presença de distintos grupos de origem Tupi, os chamados proto-tupi, ou diferentes tradições relacionadas ao tronco linguístico Tupi, em áreas de interior.

A grande dúvida é de como essa migração, essa expansão com essa cultura material, se expandiu por áreas litorâneas e de interior, sendo que, até então, a área mais dominada de ocupação que se tem certeza é a área litorânea

Agnelo Queirós

Arqueólogo

Além das questões científicas, na perspectiva de uma Arqueologia Social Inclusiva, essas novas informações, na visão de Agnelo, enriquecem o conhecimento da história pré e pós colonial no Cariri cearense e também fortalece seu território diante da proposta de tornar a Chapada do Araripe um patrimônio cultural da humanidade junto à Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

Por outro lado, o arqueólogo acredita que o achado também oferece um fortalecimento dos movimentos sociais, sobretudo ligados aos movimentos aos grupos e povos originários indígenas, que caminham para autoconhecimento identitário, luta por território e direitos culturais. “Nisso, destacamos a comunidade indígena Kariri, no Poço Dantas, em Crato”, completa.

A pesquisa e os resultados apresentados serão, em breve, publicados em artigo científico. O material resgatado durante a pesquisa se encontra sobre a salvaguarda da Fundação Casa Grande que, após a flexibilização das medidas restritivas no enfrentamento a Covid-19, estará aberto ao acesso e conhecimento de pesquisadores, movimentos sociais e da comunidade em geral.

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Com informações do Diário do Nordeste.

‘Roça é vida’: livro registra o modo de vida quilombola

 

Livro é o primeiro com protagonismo de pesquisadores e autores quilombolas e aquilombados do Vale do Ribeira (Crédito: Roberto Almeida/ ISA).

Queremos com este livro ressaltar nosso compromisso com gentes comum, essas gentes que vivem o coletivo e realizam seu trabalho de forma coletiva”. Dessa forma, é introduzido o livro ‘Roça é Vida’, obra infantojuvenil de valorização do modo de viver ancestral das comunidades quilombolas do Vale do Ribeira e que também registra o, constantemente ameaçado, Sistema Agrícola Tradicional Quilombola (SATQ).

Lançado em 2020, o livro foi idealizado, escrito e ilustrado por pesquisadores e educadores quilombolas e aquilombados da região do sudoeste do estado de São Paulo. É considerado o primeiro em que há esse protagonismo de pessoas das comunidades do Vale do Ribeira.

Segundo Laudessandro Marinho da Silva, educador social, morador do Quilombo Ivaporunduva e um dos autores do livro, o projeto é fruto de um trabalho coletivo. Ele foi proposto pelo GT da Roça, um grupo de trabalho formado por representantes de 19 associações quilombolas que tiveram o seu sistema de plantio, o SATQ, reconhecido como patrimônio imaterial brasileiro em 2018 pelo IPHAN (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional).

A obra infantojuvenil é uma ação de salvaguarda do SATQ para garantir que o modelo de vida e de trabalho na roça não seja esquecido e para que as pessoas saibam que esse não é um modelo predatório.

O modelo de roça aqui é a vida, que nos sustenta e que nos norteia. Não é um modelo de destruição da natureza e, sim, um modelo de preservação. Quando a gente pensou no livro 'Roça é Vida', não é só na vida humana, mas na vida geral. Estar na roça é o maior orgulho, por isso a gente coloca no livro esse nome”, explica Laudessandro.

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Clique aqui e confira integra do texto no Alma Preta.

"É um filme sobre aqueles que resistem no Brasil agora", diz Wagner Moura sobre Mariguella

 

(FOTO/ Mateus Ross/ Divulgação/ Socialista Morena).

“Esse homem amou o Brasil”, grita Elza Sento Sé, interpretada pela atriz Maria Marighella, em uma das cenas finais de Marighella – O Filme, baseado na biografia escrita pelo jornalista Mário Magalhães. Neta do líder revolucionário e hoje vereadora pelo PT de Salvador, a fala de Maria sintetiza as mais de duas horas de duração da obra e a vida do líder revolucionário baiano. Carlos Marighella amou o Brasil. Ontem à noite, na pré-estreia em Salvador, terra natal do comunista, o espírito de Marighella esteve presente na volta pra casa.

Após dois anos de perseguição e censura pelo governo Bolsonaro e sua autoritária secretaria especial de Cultura, o primeiro filme dirigido pelo ator, roteirista e diretor Wagner Moura estreou não por acaso na cidade do guerrilheiro assassinado pela ditadura em uma emboscada em São Paulo há 52 anos, em 4 de novembro de 1969. “Essa é a minha terra, mas essa é sobretudo a terra de Carlos Marighella”, disse um emocionado Wagner sobre o palco do Teatro Castro Alves, que, pela primeira vez desde o início da pandemia, recebia um público daquele tamanho (50% da capacidade, com máscara e vacinação).

“Esse filme não é só sobre aqueles que resistiram na ditadura militar, nos anos 60 e 70. Esse filme é sobre aqueles que estão resistindo agora no Brasil”, afirmou. “É inacreditável que um produto cultural receba tantos ataques violentos e sofra tanta resistência por parte do governo federal. Isso diz muito mais sobre o estado das coisas no Brasil hoje do que sobre o filme.”

O discurso de Wagner Moura teve endereço certo: o enfrentamento ao autoritarismo bolsonarista, que censura e persegue quem pensa diferente, como é o caso dele mesmo, que teve o lançamento do filme adiado reiteradas vezes por entraves burocráticos. Assistindo o filme, uma audiência que reagiu de forma catártica. Um homem na plateia gritou lembrando que, também num 25 de outubro, mas em 1975, a ditadura assassinou o jornalista Vladimir Herzog. Gritos ainda de “Fora Bolsonaro”, acompanhando os créditos, fizeram a apoteose final.
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Com informações do Socialista Morena. Leia a íntegra aqui.

Vestibulares vão ter menos estudantes de escolas públicas e negros

 

(FOTO/ Reprodução/ Nexo).

O Enem e dois dos maiores vestibulares do país, a Fuvest (que seleciona para a USP, a Universidade de São Paulo) e a Comvest (Unicamp), registraram queda nas inscrições de estudantes negros e de escolas públicas nos processos seletivos para o próximo ano. Os dados foram levantados pelo portal UOL.

Em todos os três processos houve uma queda generalizada no número de inscritos em comparação aos anos anteriores. A Unicamp teve, no total, uma redução de 18,5% nas inscrições, sendo que a de estudantes negros caiu 25% e a de egressos de escolas públicas em 27,3% em relação à edição anterior. A expectativa do diretor da Comvest, José Alves, é que estudantes destes grupos tentem o ingresso por meio da nota do Enem.

Já a Fuvest, que também registrou queda acentuada na candidatura de pretos, pardos e indígenas (33% em relação à edição 2021), relativizou os números e afirmou que ele é “semelhante ao visto em outros anos desde que esse sistema de cotas foi implementado”. Menos estudantes de escolas públicas também vão pleitear uma vaga na USP para o próximo ano (uma redução de 25%).

“Eles se desvincularam do processo de aprendizagem e é uma pena, porque essa inclusão incipiente que vinha ocorrendo no ensino superior, de alunos negros e de baixa renda, se interrompeu” Claudia Costin, diretora-geral do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais da Fundação Getulio Vargas, em entrevista ao UOL

A situação mais preocupante, no entanto, é a do Enem, o Exame Nacional do Ensino Médio. O Enem é a maior porta de entrada para universidades públicas e privadas de todo o país e foi também o que registrou a maior queda na adesão de estudantes negros (52%) e de escolas públicas (31%) em relação à edição anterior. O cenário poderia ser ainda mais grave se uma decisão do Supremo Tribunal Federal não tivesse garantido a isenção para os estudantes que faltaram ao exame de 2020 em função da pandemia.

A avaliação de especialistas é que a baixa adesão desses estudantes aos grandes vestibulares é reflexo dos impactos da pandemia no ensino público. “Quando ficamos com escolas públicas fechadas por tanto tempo, sabendo que não há conectividade e equipamentos necessários para uma boa parcela dos alunos da rede pública, temos um cenário como esse pela frente”, afirmou ao UOL Claudia Costin. Para ela, a queda de inscritos negros e de escolas públicas aponta para um ensino superior “mais excludente e elitista” nos próximos anos.

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Com informações do Nexo.


Escritora Cida Pedrosa participará da Roda de Poesia no Gesso

 

Cida Pedrosa. (FOTO/ Reprodução/ WhatsApp).

A Roda de Poesia no Gesso acontecerá no dia 31 de outubro, (domingo), às 18h, pelo canal do Youtube do Coletivo Camaradas e contará com a participação da escritora comunista Cida Pedrosa, Prêmio Jabuti no ano de 2020, nas categorias de Poesia e também de Livro do ano com a obra “Solo para Vialejo”. A Roda contará ainda com a participação das poetas Paloma Sá e Nezite Alencar.   

Cida Pedrosa, além de escritora, é vereadora do Partido Comunista do Brasil – PCdoB. Nasceu em Bodocó- PE, no ano de 1963, atuou como militante em movimento de escritores emancipados do seu estado, compôs o Coletivo Vozes Femininas que objetivava recitar e dar performance a poemas com temáticas de gênero. Possui sete (7) livros de poemas publicados como por exemplo: “As filhas de Lilith” (2009), que foi transformado em curta metragem, sob o título “Olhares sobre Lilith” e “Claranã” (2015), ambos os escritos selecionados pela Prêmio Oceanos de Literatura. Cida Pedrosa mantém, ainda, o canal “Frestas” no Youtube, em que apresenta poemas de   escritores brasileiros e tem um quadro no canal da Fundação Maurício Grabois, onde divide espaço com intelectuais como: Dani Balbi, Fábio Palácio, Manuela D'Ávila,  Elias Jabbour  e Olivia Santana. Cida Pedrosa é umas das escritoras que mantém proximidade com o Coletivo Camaradas.       

Paloma Sá é bibliotecária e mestra em Ciência da Informação. Nasceu em Juazeiro do Norte-CE   e hoje é um pássaro que vive ‘avuando’, como diria uma bela canção. Escreve há certo tempo, mas não se considera poeta.  Paloma Sá descreve o ato de escrever como sendo um meio de falar em voz alta o que a boca não é capaz de expressar. Com seus textos, já participou do “Poste Poesia”, projeto do Coletivo Camaradas, “Literatura de Quinta”, outro projeto de extensão vinculado à Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Atualmente está trabalhando no seu primeiro livro “Amarelada”, que será publicado ainda em 2021.

Nezite Alencar é natural de Quixariú, Campos Sales, contudo, atualmente reside na cidade do Crato. É cordelista e ocupante da cadeira 21° da Academia dos Cordelistas do Crato e possui mais de quarenta (40) folhetos publicados. É também Graduada em História pela Universidade Regional do Cariri (URCA), especialista em História do Brasil, Pesquisadora do Cangaço, membro da Sociedade Brasileira de Estudos do Cangaço (SBEC) e tem vasta experiência profissional no âmbito da educação, inclusive com dez anos de trabalho voluntário. Nezite Alencar, em 2012, foi selecionada para o Prêmio “Mais Cultura de Literatura de Cordel”, promovido pelo Ministério da Cultura (MinC) e, em 2018, foi homenageada no III Encontro da Poesia no Gesso, outra ação do Coletivo Camaradas.

Essa ação compõe as atividades do Projeto Território Criativo do Gesso, aprovado no edital de Prêmio Fomento Cultura e Arte do Estado do Ceará, da Secult-CE, através da Lei Aldir Blanc. A Roda de Poesia no Gesso tem parceria com a Pró-Reitoria de Cultura (PROCULT), da Universidade Federal do Cariri – UFCA.

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Texto encaminhado a redação do Blog por Flávia Hellen.

Flávia é graduanda em Administração Pública pela Universidade Federal do Cariri - UFCA, e integrante do Projeto "Roda de Poesia no Gesso" desenvolvido no bairro Gesso em Crato - CE.

Flup 10 anos: a palavra falada é celebrada no evento

 

Carolina Maria de Jesus e Lélia Gonzales foram as homenageadas da Flup 2020 – Foto: Reprodução.

Completando 10 anos em 2021, a Festa Literária das Periferias (FLUP), que será realizada entre os dias 30 de outubro e 8 de novembro, de forma virtual, celebra a palavra falada e os povos originários e indígenas em edição especial, que contará com a presença de grandes nomes, como Emicida e Djamila Ribeiro.

Segundo a organização do evento, em 2021 o Festival finca sua bandeira na temática indígena e apresenta o Slam Coalkan, o primeiro slam indígena mundial, reunindo poetas das três Américas. “O mundo jamais mudará enquanto não ouvirmos as vozes dos povos originários, particularmente sua longa e rica tradição oral”, afirma Julio Ludemir, curador e um dos criadores da Flup.

Ainda de acordo com Julio, não é à toa a Flup 10 anos está reunindo poetas indígenas da América do Norte e da América do Sul, justamente no ano em que se homenageia a palavra falada, reconhecendo-a e enaltecendo-a como a mais inclusiva das plataformas de formação de autores e leitores. “A Flup sempre foi o espaço da escuta radical, em que corpos negros, LGBTQIA+ e agora indígenas sempre falaram por intermédio de suas próprias vozes, sem a mediação que tanto tem inibido a fala dos lugares. Se a maior preocupação do mundo em relação ao Brasil é o modo como tratamos nossas florestas, temos que ouvir aqueles que de fato sabem cuidar delas”, afirma.

Julio lembra que, no encontro online entre Boaventura de Sousa Santos e Emicida debaterão a Diáspora Lusófona a partir do hip hop. “Eu acredito que não só a música rap, mas a cultura hip-hop como um todo, ela funciona como um grande telefone que conecta todas as ramificações da Diáspora africana a esse sentimento de que é necessário se construir um sentimento de solidariedade que nos conecte com uma raiz comum”, comenta Emicida.

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Com informações do Notícia Preta.

Caso de racismo na Zara, loja cearense, expõe ataques frequentes contra a população negra

 

Loja da Zara em Madrid, na Espanha. Foto: Cristina Arias/Getty Images/ Reprodução/ Cláudia). 

Após uma denúncia de racismo na loja de departamento Zara, em Fortaleza, um código secreto foi descoberto pela Polícia Civil do Ceará. A orientação do código era para que funcionários ficassem atentos às pessoas negras ou com roupas “simples” dentro do estabelecimento no Shopping Iguatemi.

A divulgação da perseguição aos clientes, infelizmente comum na rotina de pessoas negras, tornou-se ainda mais alarmante pelo modo sistematizado em que é executada.

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Com informações do Ceert e da Claudia.


No meio do caminho tem tanta coisa, inclusive poesia

 

Alexandre Lucas. (FOTO/ Reprodução).

Por Alexandre Lucas, Colunista

Existe uma poesia no meio do caminho, mas nem tudo que está no caminho conseguimos enxergar. A poesia pode ser um abridor de novos horizontes, mas é preciso descobrir, evidenciar e deixar a epiderme social livre dos dedos moralizantes e preconceituosos para não aniquilar a imaginação, a criatividade, o processo lapidoso da palavra e o protagonismo literário.

A decodificação da escrita é parte da decodificação do contexto histórico-social. Caminhar para enxergar a poesia no meio do caminho se faz a partir da apropriação dos códigos e dos contextos. Ler e escrever não é suficiente para enxergar a poesia.

Ler para além das palavras e escrever para além do previsível e do repertório reduzido é o grande desafio que se apresenta. Junta-se a isso a construção da autonomia e da autoestima como parte deste elo. É preciso esperançar em cada indivíduo e coletivamente a capacidade de acreditar na potência produtiva e transformadora dos seres humanos.

A autonomia e autoestima dos estudantes das escolas públicas são sistematicamente abaladas. A violência psicológica é um modus operandi que se processa nos espaços familiares e escolares constituindo descrença, insegurança e sentimento de incapacidade. Expressões do tipo “burro”, “preguiçoso”, “desinteressado”, “não quer nada” e suas variantes fazem parte do cotidiano de crianças, adolescentes e jovens do nosso país. Esse aspecto deve ser alterado se quisermos construir na classe trabalhadora um contingente ativo e amplo de leitoras e leitores, escritoras e escritores.                      

É preciso encontrar a poesia na apropriação da linguagem, no escavacar da história e na prática social dos indivíduos.  A poesia é resultado da produção dialética da humanidade, a partir do tempo e do espaço, das relações e contradições humanas.  A poesia está longe de ser dom, como alguns tentam impor, é antes que tudo resultado da vida.         

Ampliar o repertório de palavras para os filhos e as filhas da classe trabalhadora, é contribuir para o processo de ampliação da capacidade imaginativa, inventiva e argumentativa. Quanto maior for o quantitativo de palavras que se adquire, maior será a possibilidade de extensão de repertório e da visão social de mundo.  Cada palavra carrega um universo de ideias, ela nunca vem isolada e vai ganhando significados maiores a partir do momento que o repertório vai se estendendo.       

A escola tem um papel decisivo na democratização da linguagem. Incentivar à leitura é disponibilizar o conjunto da produção e das conexões historicamente criadas pela humanidade na qual a palavra também se insere.          

A poesia pode está em todo canto, entretanto, a escola pode ser um dos espaços para que ela possa ser enxergada de forma robusta, sistematizada, contextualizada e que componha uma trivialidade para muitos, se contrapondo, ao seu uso restrito e estratificado.

A palavra das camadas populares precisa ser legitimada. Desesconder a palavra imatura, destrinchar a escrita cheia de vida que ultrapassa a junção das letras, incrementar os códigos negadas historicamente, ter o popular, o senso comum, sempre como ponto de partida para apropriação do conhecimento sistematizado e erudito. Consagrar o popular unicamente, é negar o direito da classe trabalhadora de se apropriar dos conhecimentos necessários para o exercício do poder.

É preciso romper com uma lógica que esconde a poesia e a capacidade de leitura e escrita da classe trabalhadora. Ler, produzir, publicar, ainda continua sendo um direito restrito e todos os dias crianças, adolescentes e jovens deste país são instruídos a desacreditar que são capazes de escrever e construir a história. 

Escritora Paulina Chiziane vence Prêmio Luís de Camões de 2021

 

Escritora Paulina Chiziane. (FOTO/ Divulgação).

O Prêmio Luís de Camões, de 2021, também vai para uma autora africana. Assim como o Prêmio Nobel de Literatura foi dado ao escritor da Tanzânia, Abdulrazak Gurnah, dessa vez foi a escritora moçambicana Paulina Chiziane a vencer o 33º Prêmio Luís de Camões. Suas obras se destacam pelo protagonismo feminino e o seu livro mais conhecido é Niketche: uma história de poligamia.

De acordo com o Estadão, Paulina foi a escolhida por uma comissão julgadora composta de seis membros (sendo dois de Portugal, dois do Brasil e dois representantes do PALOPS – países africanos de língua oficial portuguesa), que se reuniram no final da manhã desta quarta para anunciar o resultado.

Os dois jurados brasileiros presentes na comissão foram Jorge Alves de Lima e Raul Cesar Gouveia Fernandes.

Além deles, este ano, fazem parte da comissão: Carlos Mendes de Souza, Ana Maria Martinho, pela parte portuguesa; escritor Tony Tcheka (Guiné-Bissau) e Teresa Manjate (Moçambique) pela parte dos países africanos de língua portuguesa.

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Com informações do Nototerapia.

Desigualdade deve levar pandemia de covid-19 a ‘se arrastar por 2022’

 

Continente africano, por exemplo, vacinou totalmente apenas 5% de sua população. Essa média fora da África é de 40%. (FOTO/ Brenda Alcântara / Oxfam Brasil).

A pandemia de covid-19 segue recheada de incertezas. Enquanto cientistas alertam para perigos de retomada a partir do fim de medidas protetivas, pairam riscos do surgimento de novas variantes. Especialmente com o vírus circulando de forma intensa e descontrolada em boa parte do mundo. Também impacta no cenário da pandemia a desigualdade vacinal extrema entre países ricos e pobres. Diante dos fatos, a Organização Mundial da Saúde (OMS) afirma que a crise vai “facilmente se arrastar profundamente em 2022”.

A OMS reforçou as críticas sobre a mercantilização das vacinas que deixa boa parte do mundo desassistida, enquanto mais de 70% das doses aplicadas foram em cidadãos dos 10 países mais ricos do mundo. Por exemplo, o continente africano vacinou totalmente apenas 5% de sua população. Essa média fora da África é de 40%. Mesmo o consórcio Covax Facility, criado pela OMS para entregar vacinas para os países mais pobres, não deve alcançar 30% de sua meta de 2 bilhões de doses. Até o momento, foram entregues menos de 371 milhões.

Nós realmente precisamos acelerar, ou sabe o que vai acontecer? Esta pandemia vai durar mais um ano do que precisa. Posso dizer que não estamos no caminho certo”, disse Bruce Aylward, alto diretor da OMS, em reportagem da BBC News. Ele reforçou que países com ampla disponibilidade de vacinas devem realizar uma “moratória” sobre a aplicação das terceiras doses. A ideia da organização é de vacinar, ao menos, 10% de todos os países antes que doses de reforço sejam aplicadas em pessoas sem comorbidades ou imunossuprimidas. Assim, o maior desafio para a superação da pandemia é a desigualdade.

Desigualdade chave

Em outro comunicado realizado hoje (21) o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom, apontou para a lentidão na vacinação dos profissionais da Saúde no mundo, além de ampla desigualdade. De acordo com levantamento da entidade, apenas dois em cada cinco trabalhadores estão completamente imunizados. O mesmo estudo indica que morreram de 80 mil a 180 mil profissionais desde o início do surto, em março de 2020. A grande margem de erro tem relação com a subnotificação de alguns países, como é o caso do Brasil, que não adotou uma política pública em nível federal de combate ao vírus. Ao contrário, o governo do presidente Jair Bolsonaro desdenhou das mortes e minimizou os vírus, além de ser acusado de diversos crimes na condução da crise.

A OMS insistiu que esse grupo deve ser prioritário em todo o mundo no processo de vacinação. Adhanom ponderou que também existe ampla desigualdade regional em relação às mortes de profissionais de saúde durante a pandemia. “É óbvio que essa média esconde enormes diferenças entre regiões e setores econômicos. Na África, menos de 1 em cada 10 profissionais da saúde foi completamente imunizado, enquanto na maioria dos países de renda alta, mais de 80% estão vacinados com o esquema completo”, disse.

Balanço

Com quase 5 milhões de mortos em todo o mundo, a covid-19 é a maior crise sanitária global desde a gripe espanhola, em 1918. No Brasil, foram registradas 604.228 mortes, de acordo com balanço do Conselho Nacional dos Secretários de Saúde (Conass), divulgado hoje. Além disso, é o país com mais vítimas do vírus em 2021 e segundo desde o início do surto, atrás dos Estados Unidos, com pouco mais de 700 mil mortes e população 50% maior.

Nas últimas 24 horas, foram 451 vítimas sem contar com dados do Ceará, não informados até o fechamento do balanço. Também foram notificadas 16.852 novas infecções, totalizando 21.697.341 desde o início do surto. A média de mortes e casos diários segue em tendência de estabilidade com leve crescimento desde a última semana. O índice, calculado em sete dias, está em 369 vítimas e 12.158 doentes. A métrica de mortes, que já foi a melhor desde abril de 2020, agora é superior, além do período inicial da pandemia, ao “vale” (movimento de queda exibido no gráfico) apresentado em novembro do ano passado.

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Com informações da RBA.