O desapego pela História é brutal


Caixa D'Água de Altaneira está prestes
a ser destruída. (FOTO/João Alves).

Texto: Nicolau Neto

Residências históricas, fachadas e outros patrimônios públicos são destruídos como se não tivessem nenhuma importância para coletividade ou nenhum vínculo afetivo individual ou para a coletividade. Assim é Altaneira, município do cariri oeste cearense, distante 509 Km da capital Fortaleza.


Pouquíssimos são os lugares de memórias que ainda estão de pé. A grande maioria sucumbiu ao tempo em virtude da falta de zelo, e de apego pela História daqueles e daquelas que, junto com a comunidade, são os principais responsáveis pela salvaguarda dos patrimônios públicos (imateriais e materiais) do município.

São 60 anos de emancipação política de um município que, por ser de pequeno porte, julga-se que seja mais fácil a preservação da memória e da história, pois comparados a outros de grande porte, a lista do que se tem para salvaguardar é pequena. Porém, ao longo dessas seis décadas as pouquíssimas referências históricas, inclusive o humano, se foram sem que fossem, de fato, valorizados/as. Não falo aqui de nomear prédio.

Um povo se memória é um povo desencorajado. Um povo sem memória é um povo sem história e, portanto, sem consciência histórica. E uma sociedade sem memória histórica não possui elementos definidores de sua identidade cultural. Mas, como tivemos a oportunidade de mencionar no “I Seminário Público Municipal Que patrimônio Queremos Preservar” no dia 27 de setembro do ano em curso, um dos principais fatores de dano ao patrimônio histórico e cultural é sua desqualificação como fonte de referência para a identidade local, na maioria das vezes derivada do desconhecimento de sua importância e consolidada pela invasão de culturas estranhas.

Na grande maioria das vezes a comunidade não entende essa importância que os lugares de memória possuem para a história. E gestores públicos também não. É preciso dizer que apropriar-se de seu patrimônio é identificar-se nele, é fortalecer o senso de pertencimento ao grupo do qual ele representa simbolicamente a identidade. Significa, outrossim, construir uma identidade a partir de traços de um passado comum. Preservar é, portanto, uma atualização constante da memória e dos valores que definiram aquele objeto ou expressão cultural como representativos e, portanto, patrimônio da coletividade. Isso precisa ser uma regra nas gestões públicas, não exceção.

Faz-se necessário, portanto, refletir sobre o argumento “só se ama o que se conhece”. Conhecendo passamos a identificar, no patrimônio, valores que nos permitam reconhecê-lo com um bem. Mas a ausência de protagonismo, de vanguarda cultural e educacional no município fez com que se definisse por si mesmo (sem consulta a profissionais da área) o que deve e o que é importante ser preservado. E nesse contexto, uma residência antiga localizada a Rua Deputado Furtado Leite deu lugar a “modernidade”; a fachada do Poder Legislativo Municipal foi totalmente destruída por uma fachada “moderna”. O mesmo prédio que foi sede do outro poder nos anos 80 século passado; dentre outras construções históricas que sucumbiram. Outras prestes a desparecerem sem deixar rastros como a casa de Dona Fausta, figura que representa parte da História do Município.

Agora estamos prestes a perder mais um portador de referência à identidade, à ação, e à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade altaneirense – a caixa d’água. Ela que é uma construção do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas - DNOCS na década de 1960 e foi responsável pelo abastecimento de Altaneira até os primeiros anos da década de 1970.

É preciso dizermos ainda que conservar elementos de memória de uma sociedade não é um atestado para prendê-la sem crítica ao passado e não permitir o seu desenvolvimento, mas sim preservar seus alicerces constituintes para que não fiquemos despossuídos de conhecimentos e identidades.

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