Púchkin e Machado, o ser negro, formas de ouvir o outro

 

Aleksandr Púchkin e Machado de Assis. (FOTO/ Wikimedia Commons).

Este estudo pretende, em leituras de Púchkin e aproximações de Machado, analisar, em perspectiva comparada, o lugar de visibilidade da herança afrodescendente em Aleksander Púchkin (1799-1837) na literatura russa e Machado de Assis (1839-1908) na literatura brasileira. Perceber, entre margem e centro, a voz plural e inovadora do autor russo, seus caminhos até o outro. Em Puchkin, a viagem. Fronteiras possíveis. O olhar para si que se deixa atravessar pela diferença. Em Machado, seu olhar para as máscaras sociais e para a escravidão. Nesses autores, marcas em sua literatura que formam a sua casa e o seu tempo, em diálogo com a modernidade. Na abertura para o outro, leituras onde o que estava no lugar do cânone também se modifica, escurecendo o imaginário nos novos contextos.

Primeiras linhas

Escurecer a folha. Uma escolha, um gesto. Penso na página feita de pedaços, vestígios. Machado em seu contexto afrodescendente. Nesse colar e recolar, no escurecimento da folha, percursos de encontro com Machado, em suas marcas de alteridade, e pensar o ser negro em Púchkin. Nesse olhar, ele e Machado se aproximam. E resolvo perguntar: de que modo estar fora do centro provoca e marca o espírito agudo de sua escrita? Esse espaçamento onde se é o mesmo e o outro. E resolvo olhá-los no papel – em vestígios – no mapa. Pela marca de uma idade antiga, um retrato com pistas das diásporas, dispersões, distâncias. Na reinvenção do cânone, no diálogo entre a literatura russa e a literatura brasileira.

Púchkin me faz procurar no mapa. O lago Chad. O local de origem de seu bisavô materno. Por causa de Púchkin nascem para mim novos pontos, fendas, relíquias. Fazer a pergunta sobre o risco, ou fenda, essa demora para que algo ali se instale. Sobre os silêncios, um olhar em direção a, um olhar em movimento que se abre como pergunta. Ser negro, dizer a negritude. Sim, ainda é preciso dizer. Ainda há surpresas. O leitor comum ainda se espanta e ouvimos a pergunta, Machado de Assis, agora eu sei, agora sabemos, mas… e Púchkin também?

Ode à liberdade. O céu africano

Púchkin, nascido em Moscou em 1799, é celebrado como o fundador da literatura russa moderna e as diferentes gerações de autores russos dialogam e se deixam atravessar pelo olhar inovador em sua obra. Por seus escritos sobre a liberdade e seu assim considerado “espírito subversivo”, foi exilado em Odessa e esteve também confinado na propriedade da família em Mikháilovskoie, até lhe ser permitido viajar novamente a Petersburgo. Lá ele conhece Natália Gontcharóva, com quem se casaria. Púchkin morre após o duelo com o barão D’Anthès, em 1837.

Amigos muito próximos de Púchkin foram revoltosos de zembristas e se inspiram em seus escritos, como no seu Ode à Liberdade, para se opor à opressão do regime tsarista e exigir reformas por parte de Alexandre I, que abandonara a implementação de uma política liberal. Com a morte do tsar, sufocados por seu sucessor, o repressivo Nicolau I, cinco amigos de Púchkin foram enforcados. Nos arquivos da época, lemos o depoimento prestado por P. Bestújev depois da revolta de 14 de dezembro de 1825: “As ideias liberais germinaram em meu cérebro depois da leitura de alguns poemas manuscritos, tais como Ode à Liberdade, O Populacho, Meu Apolo, e de certas cartas devido às quais nosso célebre poeta Púchkin fora im portunado”. Púchkin não participou do levante por estar no exílio. Mas agentes tentam implicá-lo na revolta. Será poupado por Nicolau I, mas este se autonomeará censor de suas obras.

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Por Susana Fuentes, da Ravistas.usp e reproduzido no Geledés.

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