Ler mulheres negras o ano inteiro, por Stephanie Borges


Mulheres negras são poderosas e perigosas —
Audre Lorde fotografada por Robert Alexander/Getty Images.

Se você também suspira quando chega a época do ano em que as pessoas se animam com um feriado regional, mas essas mesmas pessoas também fazem comentários do tipo “não existe o dia da consciência branca”, talvez compreenda meu estado de espírito ao cometer este texto. Por um lado, há quem tenha interesse e precise de indicações para começar a ler mais autoras negras, mas, como alguém que tem lido cada vez mais e escrito a respeito sempre que uma obra me comove, há tempos desejo que o Mês da Consciência Negra se torne um pretexto cada vez menos necessário.

Você se lembra de quando março era o mês em que mais se falava das escritoras mulheres nas redes sociais, jornais, revistas e depois do #LeiaMulheres temos lido autoras o ano todo? É claro que existem pessoas lendo autoras negras em sua rotina, no entanto, minha expectativa é que leiamos e falemos tanto sobre a qualidade do texto, as referências, a relevância das questões tratadas em sua escrita de modo que ‘negra’ se torne apenas um detalhe ao se tratar da literatura produzida por essas mulheres. Quero ver a igualdade de falarmos de literatura sem caixinhas como ‘feminina’, ‘lésbica’, ‘negra’ — que todas essas vozes sejam reconhecidas em sua importância e aspecto político sem serem limitadas a rótulos que possam ser usados em leituras reducionistas.

É delicado, porque existem questões como a representação fora dos estereótipos e o impacto do racismo na vida. Autoras negras têm a vivência, são mais atentas ou têm um interesse maior para as confluências entre o racismo, o machismo e as desigualdades sociais, no entanto, as literaturas de mulheres negras vão além destes temas, embora tenham olhares e linguagens afiadas para tratar de tais assuntos. Mulheres negras são muito mais do que histórias de violência, de superação ou a repetição de estereótipos sobre a empregada doméstica, a figura maternal, a mestiça sensual ou a mulher raivosa.

Nikki Giovanni.

De acordo com a poeta Nikki Giovanni “não há nada mais fantástico do que uma mulher negra […] ela virá para cá (os EUA), criará uma culinária e ela também criará uma canção e criará uma cultura”. A partir de uma diáspora forçada, mulheres trazidas da África para diversos pontos do continente americano se tornaram lideranças religiosas, articularam estratégias de sobrevivência e resistência, se tornaram guardiãs dos conhecimentos de seus povos e trabalharam no limite das proibições impostas pelos captores. Foram fundamentais para a criação da cultura no Brasil, nos EUA e em diversos países com estruturas escravocratas. O samba, a feijoada, o sincretismo religioso. Os spirituals, o blues, o jazz, as culinárias creole e cajun. As danças, as rezas, as curas. A literatura é apenas mais uma manifestação da capacidade de criação, da coragem e da engenhosidade das mulheres negras.

Na Flip 2017, Conceição Evaristo falou sobre como Carolina Maria de Jesus, autora do clássico Quarto de despejo, geralmente é lida em uma perspectiva documental, de um relato sobre a pobreza, quando seus diários tratam da angústia existencial, da escrita como algo que confere sentido à existência humana, da preocupação de uma mulher com sua liberdade e a solidão decorrente de sua escolha. Conhecer a literatura de escritoras negras pode ser um exercício de alteridade, de se abrir a visões de mundo desconhecidas, como também pode ser a revelação de uma riqueza ancestral, apagada por uma ideia de mestiçagem, que diminui o valor da produção cultural dos negros entre categorias como gosto e classe. Conhecer a produção de mulheres negras é se deparar com um rico trabalho de autoras questionando, produzindo e desafiando o status quo há gerações.

Para além de diversos temas, podemos observar a habilidade de transitar por vários gêneros literários. Conceição Evaristo escreve contos em Olhos d’água, romance em Ponciá Vicêncio e poesia em Poemas da recordação, além de sua produção acadêmica. Audre Lorde foi poeta, ensaísta e publicou diários sobre sua experiência com o câncer. bell hooks publicou diversos títulos sobre teoria feminista, crítica cultural e livros infantis. Roxane Gay escreveu um romance, um volume de contos, reuniu ensaios provocadores em Má Feminista e acaba de chegar ao Brasil seu relato autobiográfico Fome, sobre sua relação com seu corpo, e a experiência de ser obesa.

Alice Walker

Entre os romances são exploradas diversas fórmulas. Temos a narrativa histórica em Um defeito de cor de Ana Maria Gonçalves; já Alice Walker usa a estrutura epistolar com muita habilidade em A cor púrpura e Octavia Butler usou a ficção científica/especulativa para tratar das histórias fora das versões oficiais e das desigualdades que persistem em Kindred — Laços de Sangue. Há uma multiplicidade de vozes e estilos. A expressão “autoras negras” não pode ser um rótulo que uniformiza diversas possibilidades.

Na poesia, temos Miriam Alves falando do cotidiano e da ancestralidade, o banal e o sagrado na vida. Elisa Lucinda menciona os afetos, a relação com a natureza, a busca pelas semelhanças entre diferentes. Os poemas falados de Stela do Patrocínio registrados por funcionários da Colônia Juliano Moreira condensam a força da oralidade e uma visão de mundo cortante, a compreensão da pobreza, a condição de paciente no hospital psiquiátrico e um entendimento de seu valor como mulher e entre as demais criações de Deus.

O sucesso de Chimamanda Ngozi Adichie abriu caminho para a tradução e publicação de mais autoras como NoViolet Bulawayo, Scholastique Mukasonga, Djaimilia Pereira de Almeida e Yaa Gyasi. Narrativas de imigração, sobre guerras civis, o extermínio de povos e de seus saberes, assim como histórias de família que nos mostram como a África e o Brasil têm muito em comum. Escritoras de romances young adult como Nicola Yoon e Angie Thomas demonstram muita habilidade ao tratar do amadurecimento das adolescentes negras, da tomada de consciência do racismo no dia a dia, da construção da autoestima contra padrões de beleza e da perda e do luto como parte da formação.

São muitas as literaturas das mulheres negras, assim como variam suas experiências, suas disputas no campo literário e as histórias a serem contadas. Aventurar-se por essas estéticas e narrativas pode ser um passeio fora da zona de conforto, da ilusão da democracia racial que dizem existir em nosso país. É provável que exista o incômodo ao se dar conta de como a ficção pode revelar muito mais do que o noticiário, a revelação dos pontos de vista de personagens comumente abandonados no esquecimento. No entanto, para quem deseja se abrir para o diferente, para o diálogo, é apenas o começo. Um passo que pode ser tomado num mês de novembro, mas um percurso que pode durar uma vida.

Novembro é o Mês da Consciência Negra. Em 20 de novembro, o país celebra o Dia Nacional da Consciência Negra, data escolhida por marcar o dia da morte de Zumbi dos Palmares, um dos maiores símbolos de resistência e luta contra a escravidão. Nas pesquisas realizadas pela especialista em literatura Regina Dalcastagnè vemos que, nos lançamentos publicados entre os anos de 1990 a 2004, 93,9% dos autores são brancos e apenas 7,9% dos personagens são negros. É preciso abrir espaços na Literatura, é preciso ler mais mulheres e, principalmente, mais mulheres negras.
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Com informações do Portal Medium.

*Jornalista, tradutora e poeta.

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