Coluna da Karla Alves: Verdade e justiça caminham juntas

 

(FOTO/ Reprodução).

Por Karla Alves*

Essa constatação (na foto) explica o que significa MACHISMO ESTRUTURAL. Significa que o homem é formatado para praticar o machismo sem reconhecer, pois existem mecanismos (na lei, na família, na escola, nas mídias, religião...) para forçar a naturalização dessas práticas, impedindo que elas sejam reconhecidas por quem pratica e submentendo as vítimas de tais práticas à violenta a aceitação.

Estrupro Culposo é mais um mecanismo para inocentar a violência e torná-la "natural", alegando que o estuprador violou o corpo da vítima sem ter intenção de estuprar. Significa dizer que a responsabilidade pelo ato de violência se localiza no campo das intenções, na subjetividade, ou seja, no campo dos sentidos. Mas se esses sentidos não são reconhecidos nem admitidos, então não há como responsabilizar.

Como responsabilizar um predador que, por necessidade física, atacou sua presa? Não havia intenção, o ato foi motivado apenas por uma necessidade irracional. Logo, por esta lógica sobre os animais, não havia intenção por que o desejo motivado pela necessidade física não passou pela reflexão.

Existe, então, algumas diferenças entre o desejo (intenção) e a realização desse desejo. E uma dessas diferenças pode ser interpretada como uma ponte que pode ou não ser percorrida, podendo ou não se efetuar como ato, a depender da motivação para realização desse desejo e da reflexão sobre esta motivação. Essa ponte entre o desejo e o ato é o que poderíamos chamar de potência. No caso em questão, o que está sendo alegado é que o estuprador executou o ato mas não teve a intenção. Como se ele fosse um animal movido por uma necessidade física que se pretende admitir como "natural", cuja motivação não passou pela reflexão. O senso de justiça se fragmenta e se perde na ponte que liga o ato à intenção, movendo minha reflexão por algumas questões.

 

Karla Alves. (FOTO/ Reprodução/ Facebook).

Supondo (apenas uma suposição) que nós estamos aceitando o veredito como verdade, se o estuprador não tinha intenção, então o que o motivou a estuprar a vítima? Em outras palavras, o que potencializou a sua intenção "inexistente" (não consciente) a se tornar ato?

Talvez a resposta esteja sólida como um concreto sustentando a estrutura social que favoreceu o nascimento deste país.

Se os antropólogos do imaginário fizessem uma expedição nas ruínas dessa estrutura patriarcal, iriam revelar que em cada atitude machista reproduzida diariamente e ensinada desde a infância, se estabelece uma ponte que potencializa o estupro escondendo a intenção e silenciando o ato através da subliminar expropriação da integridade feminina.

Fui ensinada desde pequena a cruzar as pernas, a me sentar de modo que não provocasse a frágil virilidade masculina. Isso me fazia pensar que o homem era um bicho incontrolável que me atacaria se eu me movesse como algo vivo. Eu deveria, então, demonstrar que não tinha vida, já que além de mulher eu sou negra, a representação do objeto sem vida para ser explorado pela sexualização e pela força de trabalho. Essa era (é) a representatividade que importa para uma democracia representativa.

Ainda na primeira infância eu tive contato com o estupro sem ter a menor ideia do que essa palavra significava, por que eu nunca tinha se quer escutado essa palavra. Então o homem me mostrou seu pênis e perguntou se eu "aguentava". Eu não fazia ideia do que ele estava me perguntando. Aguentar o que? Como? Aquela pergunta não se articulava com nenhuma imagem que fosse familiar para minhas idéias. Mas aquele homem era neto da senhora respeitada no bairro que tinha televisão em casa e deixava bondosamente que meu irmão e eu assistíssemos o Chaves em sua casa, já que nós não tínhamos tv. Eu me sentia segura. E essa segurança foi abalada sem que eu tivesse a chance de perceber intenção.

Não cabe aqui perguntar se havia maldade. Porque a malícia é peça cultural louvada por uma religião que só cultua um Deus por causa do seu opositor. Se o diabo deixasse de existir, Deus perderia seu sentido e a igreja perderia seu tesouro. É por isso que as duas imagens são louvadas ao mesmo tempo. Uma que aparece à nossa consciência como o Bem e a outra submetida ao medo inconsciente. O medo é a potência alimentada que move o "devoto" a correr do diabo, o deus do mal, em direção ao deus que representa o bem. O medo é a ponte invisível que liga o bem e o mal. Sem o medo do castigo (inferno) não teria motivação para correr em direção à recompensa (paraíso). Sem o medo da miséria não haveria motivação para se adquirir dinheiro. Uma vez que os prazeres do paraíso é minimamente acessado, lógico que o medo da miséria (ou do mal, do inferno) é "esquecido", afastado da consciência que se concentra em aproveitar o que é bom. Nessa mesma lógica binária, maniqueísta, se a intenção está "esquecida", afastada da consciência por um cotidiano que afirma a todo instante que a violação da integridade feminina é algo "normal", pois o homem é reconhecido como homem através do seu sexo posto em prática, então a mulher que se comporte de acordo com o sujeito homem, cruzando as pernas e escondendo qualquer detalhe que provoque a manifestação dessa masculinidade que está sempre a postos para se tornar ato assim que houver uma "possibilidade", seja ela admitida ou não.

Se a intenção do estuprador está submersa no inconsciente coletivo que foi construído por uma moral pautada no machismo e, portanto, no direito do homem de exercitar sua masculinidade, então sua consciência será motivada a executar essa masculinidade de forma que a violação da integridade feminina seja interpretada como algo normal. Isso significa que o homem não é humano, é um animal movido por seu sexo, sem ter acesso a sua razão. E a mulher também é formatada pela mesma lógica de desumanidade, sendo obrigada a esconder qualquer manifestação espontânea de vida para se proteger do bicho homem.

E se esta mulher trouxer em si qualquer outra característica que reforce a idéia de objeto, como a cor de sua pele e outros traços fenotipicos, então ela que fique em total silêncio e invisibilidade se quiser continuar existindo. Porque a todo instante a potência violadora do bicho homem estará sendo alimentada por todos os meios possíveis para que ele exercite sua "função" de sujeito homem na sociedade sem perceber sua própria intenção, pois é peça (tijolo) fundamental na manutenção de uma estrutura que nos condiciona a todes.

Quem se beneficia dessa estrutura está patrocinando sua manutenção. E enquanto essas idéias permanecem alojadas no campo inacessível das "intenções" não admitidas, a estrutura se solidifica cada vez mais.

As mulheres de muitas gerações somaram seus esforços às mulheres desta geração para romper com esse silêncio saindo do lugar da invisibilidade imposta. E o que esse veredito privilegiado está fazendo é muito mais do que inocentando a barbárie, pois está nos dizendo  que as mulheres devem voltar ao silêncio e a invisibilidade nesta sociedade. O nome que se dá a isso é retrocesso. E quando eu digo que este é um veredito privilegiado é porque o mesmo tratamento jamais seria concedido a um homem preto numa sociedade estruturalmente racista. É por isso que um homem preto deve refletir muito mais sobre a violência que pratica como homem, pois sua masculinidade não será privilegiada por sua cor na hora do julgamento.

Então, HOMENS, admitam para si mesmos que vocês estão formatados para não reconheceram suas próprias intenções e para não admití-las covardemente, caso reconheçam. Por que essa é a herança da "genética social" que está resevada para vocês numa sociedade patriarcal e que nos ensina que vocês serão beneficiados por isso por acreditarem que estão exercendo sua liberdade, quando estão na verdade sendo submetidos à peças de controle de uma estrutura. Encontrar mulheres que silenciam (por vergonha da exposição, por medo, por inúmeros outros fatores fornecidos pela mesma lógica patriarcal) diante dessas práticas irá com toda certeza alimentar essa potência animalesca, deixando vocês homens, num lugar de conforto para continuarem praticando seus atos socialmente destituídos de intenção. Por isso querem nos submeter ao silêncio através do medo provocado pela violência. Isso tudo tem a vê com cada um de vocês e com cada uma de nós. Por isso escutem quando uma mulher lhe disser que está se sentindo violada. Escutem e considerem. Porque talvez seja a revelação dos primeiros degraus da violência que você está cometendo sem perceber por que teve seus sentidos formatados para não perceber.

Vejo e o mecanismo me diz para não acreditar no que está diante de mim; me diz para não refletir sobre o que vejo. Ou seja, é o sentido da visão sendo cotidianamente ferido para que cegos, possamos ser melhor conduzides pela estrada da exploração.

Nenhuma mulher deve se diminuir, silenciar ou se anular para caber em modelos de relações sociais ditados pelo racismo, pelo machismo ou por qualquer que seja a forma de opressão.

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Karla Alves é Historiadora pela Universidade Regional do Cariri (URCA), integrante do Grupo de Mulheres Negras do Cariri Pretas Simoa e colunista do Blog Negro Nicolau.

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