Modos de produção x Força de Trabalho, por Josyanne Gomes


A antropóloga altaneirense Josyanne Gomes é colunista do
 Blog Negro Nicolau. (FOTO/Reprodução/Facebook).

Quem nunca ouviu falar os dizeres populares: “O trabalho dignifica o homem”, “Deus ajuda quem cedo madruga”, “Não existe crise”, “Faça sua própria oportunidade” ou a versão mais atualizada dos Coachs e livros de autoajuda de plantão, de que “Enquanto você dorme seu concorrente está trabalhando, estudando, fazendo cursos e se aperfeiçoando para sair na sua frente”? Pois é, mesmo que você não saiba todas essas frases fazem parte de uma teoria que nas ciências humanas e sociais chamamos de Marxismo. Parece viagem e talvez seja mesmo, mas ao final você verá que tudo se encaixa e faz sentido, quando nos esforçamos um pouquinho para pensar fora bolha.


Está confuso ou confusa? Espera um pouco. Marxismo é uma palavra que congrega todo o pensamento e obra do teórico Alemão Karl Marx, nascido no século XIX. Marx foi Filósofo, Economista, Sociólogo, Historiador, Revolucionário e muito mais, embora costumemos definir seu lado profissional em detrimento do lado pessoal, Marx também foi pai e levava uma vida relativamente mesclada por altos e baixos, como é comum da existência humana. Ou seja, Marx era gente como a gente.

Talvez, meus caros leitores, vocês estejam se perguntando, mas por que falar em Karl Marx se o título não faz alusão a ele? E eu sinto muito em lhes informar, mas é aí aonde vocês se enganam. Modos de produção e Força de Trabalho têm tudo a ver com o Marxismo, até porque esses termos são pensados a partir da obra e produção teórica do nosso amigo Karl Marx. Se não fosse pela sua obra O Capital, nós não nos daríamos conta de que somos classe popular, proletariado, nem muito menos de que existe uma burguesia que detém toda a riqueza em suas mãos, e domina nossa força de trabalho e enriquece cada vez mais à custa do nosso suor.

Então, só para a gente ter uma ideia da dimensão do favor que Karl Marx nos fez, ao falar sobre todas essas coisas do mundo do trabalho, que hoje podem parecer óbvias e nítidas, mas que lá no século XIX certamente causaram a maior revolução e foram inovadoras. Nós, sem sombra de dúvidas devemos a esse autor uma espécie de consciência que temos hoje sobre quem somos, e em relação aos nossos papeis sociais. Isso mesmo, o modo como nos posicionamos no mundo informa nossa classe social, gostos, valores, geração, localização, visões de mundo, grupos de referências, e fala sobre nós sem precisar que a gente grite aos quatro cantos tudo isso.

Todas essas características, digamos assim, nos apresentam enquanto sujeitos e dizem sobre como nós nos pensamos enquanto profissionais, e, sobretudo através da maneira sobre a qual desempenhamos nossas funções e atividades trabalhistas, sinalizam para o modo como estabelecemos e mantemos nossas interações e relações de trabalho. E assim, nos constituem como seres sociais, econômicos, históricos, culturais e pensantes que somos da nossa sociedade e de nós mesmos. Por sua vez, acionar todas essas palavras chaves, só é possível porque muito antes da nossa existência, muito antes da existência dos nossos pais, avós, e até mesmo bisavós já existiam pessoas preocupadas em pensar todos esses processos de identificação social e organização da sociedade.

Com isto, quero dizer que hoje quando falamos que é difícil arranjar um emprego, porque tem muita concorrência, e/ou o mercado exige cada vez mais qualificação ou paga cada vez menos por um determinado serviço – estamos falando, ainda que inconscientemente, do marxismo. De forma superficial e bem resumida, podemos dizer que a teoria marxista é o caminho pelo qual nos pensamos a nós mesmos e a nossa historicidade e materialidade.

Por exemplo, lá no século XVIII, com a revolução industrial na Inglaterra, os donos dos modos de produção, ou seja, os proprietários das fábricas, das indústrias proviam para os seus trabalhadores as máquinas para o desenvolvimento do trabalho fabril e industrial. Desse modo, era de praxe que o trabalhador entrasse com o único recurso que lhe cabia empregar – a sua força de trabalho. Com o passar dos séculos, vieram às transformações sociais, as mudanças na cultura, e consequentemente modificações na forma como o trabalho era desempenhado e executado.

Nos dias de hoje é comum notar que além da força de trabalho o empregado forneça também os meios ou os modos produção. Os profissionais da área de medicina, muitas vezes precisam ter seu próprio aparelho de aferir a pressão, estetoscópio, aparelho para verificar a diabetes e por aí vai. Dentistas precisam carregar nem que seja uma bolsa com um alicate, gases, pomadas anestésicas ou mesmo o próprio flúor. Professores geralmente andam com pinceis, apagador, revistas, imagens impressas (porque data show costuma ser caro), e muitas vezes estojo com lápis, canetas, fitas, durex, e toda essa parafernália que estudantes precisam adquirir e usar.

Enfim, esses exemplos, meramente ilustrativos são mais uma maneira de convidar para gente pensar sobre um fenômeno chamado Uberização do Trabalho. O nome deriva do aplicativo Uber, que funciona através de uma plataforma online, instalada em aparelhos celulares e oferta serviços de mobilidade em carros, a preços relativamente acessíveis. O serviço é muito procurado por quem precisa se deslocar com agilidade e conforto, num preço camarada (sic), porém, o empregador e empregado dessa relação de trabalho acaba sendo o próprio trabalhador. Vejamos, se antes os empregadores entravam com os modos de produção, como vimos acima, hoje é diferente. No caso do motorista de Uber, ele fornece o carro, o celular para instalação e execução do aplicativo e sua força de trabalho – que seria o que em tese ele tem a oferecer para o patrão.

O que vemos atualmente é uma transformação na teoria marxista, não podemos caracterizar como uma inversão, nem tampouco resumir a uma mudança das relações de trabalho anunciadas e amplamente debatidas e teorizadas por Karl Marx. Pois o que emerge no cotidiano, são os modos de produção que em algum sentido se confundem com força de trabalho, senão teoricamente, ao menos, é o que temos enxergado na prática, ressaltando que é preciso um estudo sério e profundo sobre o tema e não apenas uma opinião. Longe de oferecer alguma pista para pensarmos esse processo de mudança em ascensão, esse texto é antes de qualquer coisa, um convite para lermos Karl Marx e refletirmos a partir de sua obra e teoria sobre as modificações que estamos vivendo hoje. Como uma boa Cientista Social e Antropóloga que almejo me tornar, deixo aqui o questionamento acerca desse pequeno artigo e espero instigar a curiosidade para a realização de pesquisas futuras e diálogos que possam nos conduzir ao amadurecimento desse debate.   

Abraços e até a próxima semana, com um mais texto que provoque e informe.  
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Josyanne Gomes é graduada em Ciências Sociais pela Universidade Regional do Cariri (URCA), mestre em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), professora e colunista do Blog Negro Nicolau.

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