Em videoconferência, professores e universitários dialogam sobre questões raça e gênero


(FOTO/ Reprodução).

Texto: Nicolau Neto

Em virtude da pandemia do novo coronavirus (a Covid-19) que já ceivou quase 4 mil pessoas no Ceará e mais de 37 mil no país, professores, universitários, representantes do movimento negro e demais ativistas sociais estiveram reunidos virtualmente por mais de três horas para dialogarem acerca das “Questões de Raça e Gênero em Tempos de Pandemia”.

O diálogo no formato de videoconferência que ocorreu por maio da plataforma Google Meet, da Google, foi pensado e mediado pelo professor, blogueiro, colunista do site “Intelectual Orgânico” e ativista dos direitos civis e humanos das populações negras, Nicolau Neto.

Na abertura do encontro, Nicolau destacou a necessidade e a urgência em se pautar temáticas tão doloridas e caras para o povo negro, principalmente diante de um cenário de acelerada perca de direitos conquistados a duras penas e onde a única política em evidência por parte do governo federal é o genocídio e de um discurso que tenta a todo o momento deslegitimar as conquistas e a luta do povo negro.

Ainda segundo Nicolau, a ideia do encontro era que cada convidadx não se prendesse aos temas sugeridos, mas que pudessem a partir deles apontar soluções de enfrentamento ao cenário desolador e desafiador.

Maria Raiane, estudante de Ciências Sociais pela Universidade Regional do Cariri (URCA), foi a primeira a falar e trouxe para a discussão o extermínio da juventude negra. Segundo ela, não se pode tocar nessa temática sem que se frise a necessidade da desmilitarização e disse que para além da pandemia do coronavirus, o Brasil já convive há tempos com a pandemia do racismo. Raiane mencionou ainda que há discursos de “vidas negras importam”, mas isso acaba não importando para todos.

Posteriormente vieram Júlia Simão e Alan Cordeiro, ambos estudantes de Ciências Sociais pela URCA que destacaram as dificuldades de acesso e permanência de negros e negras no ensino superior. Para Júlia, é fundamental que essa discussão seja feita a partir do branco, pois é nessa armadura que se pode entender melhor como ocorre o processo de invisibilidade e a falta de representatividade de negroxs nos espaços de poder. Alan, por sua vez, destacou que o racismo mata de múltiplas forma e que é urgente esta constantemente discutindo esse ambiente construído pela branquitude que apaga o povo negro da história e que isso passa fundamentalmente por uma educação antirracista dentro das universidades.

Tiago Alexandre, mestrando em Sociologia na Universidade Estadual do Ceará (Uece), trouxe para o centro da conversa a construção de um debate antifascista e por quem ele é feito. Para ele, existe um déficit de dados, principalmente em que pese ao extermínio da população negra. Tiago frisou que é preciso pensar e repensar a constituição com pano de fundo racista, eugênica e que ainda não uma ruptura. Sua fala foi completada pelo universitário Antônio Carlos.

Com uma contextualização sobre políticas públicas educacionais, Matheus Santos, estudante de Jornalismo na Univeridade Federal do Cariri (UFCA) como pano de fundo pata discutir a famigerada “ideologia de gênero”, ele mencionou sobre Plano Nacional e Educação, a Conferência Nacional de Educação (Conae) e a Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Segundo Matheus, todas essas políticas educacionais acabaram por não garantir a participação de fato da população e que acabou sofrendo pressão de grupos religiosos conservadores, o que acabou resultando em vários projetos no país com o objetivo de proibir a discussão de gênero, de raça, de sexualidades, dentre outras em sala de aula sob o discurso falso de “ideologia de gênero”.

Márcio dos Santos, design, abordou sobre o mercado de trabalho e como está representatividade do povo negro nesse ambiente. Para ele, as políticas econômicas são segregadoras e racistas e que o fato de ele ser um dos poucos negros a está nessa função e de igual modo a participar de eventos onde há supremacia branca comprova o caráter racista do país.

A Kézia Adjane, estudante de Medicina Veterinária no Instituto Federal da Paraíba (IFPB), Campus Sousa, coube discutir sobre as leis 10.639/03 e 11.645/08. Kézia destacou que elas versam sobre o obrigatoriedade de escolas pública e particulares discutirem no currículo durante todo o ano letivo assuntos pertinentes a história e cultura africana e afro-brasileira e história e cultura indígena, mas que mesmo assim essas leis ainda não permitiu que negrxs e indígenas se vejam de forma efetiva nos currículos. Destacou o papel do professor Nicolau em sua vida estudantil com essas questões. Por fim, lembro que no seu curso não há nenhum estudante negro e nenhum professor ou professora.

Ana Karolyne, estudante de Jornalismo pela UFCA, frisou de forma contextualizada a importância das mídias nas informações referentes ao coronavirus, mas que ainda é formada majoritariamente por pessoas brancas.

A professora Josyanne Alencar, mestre em Antropologia Social pela UFRN falou sobre sua dissertação de mestrado que teve como temática "Acordos e colisões: família, sexualidade e lesbianidade”. Segundo ela, o texto destaca as experiências e situações vivenciadas por mulheres que se autodenominam como lésbicas, no estado do Rio Grande do Norte e teve o objetivo de compreender como a (homo) sexualidade feminina, passa por um jogo entre ocultar e revelar suas identidades lésbicas de acordo com a dinâmica que estão envolvidas.

Ainda contribuiu nas discussões a professora Eliete Souza. De acordo com ela, há uma questão muito forte e que precisa ser posta na mesa, como por exemplo, o fato de muita gente naturalizar as barbaridade que ocorre com as pessoas negras.

Coube a Valeria Caralho  e Verônica Neves, do Grupo de Valorização Negra do Cariri (Grunec), encerrar o encontro. Elas afirmaram que o encontro as deixavam encantadas e que demonstrava o poder de articulação da juventude. Verônica disse que não quer falar de desenvolvimento, mas de envolvimento. “Precisamos no envolver e necessário racializar tudo”. Na mesma linha, Valéria foi taxativa “precisamos de amoracao. De mais amor e de mais ação”, disse.

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