Escritora Fátima Teles: A esperança é negra


Escritora Fátima Teles. (FOTO/ Reproduçao/ Facebook).

O Piauí é o Estado mais quente da região nordeste e por isso mesmo o mais seco.

A História de Esperança Garcia se passou em meados dos anos coloniais do Brasil.
A região de Oeiras, que também foi a primeira capital do Piauí, era conhecida por suas fazendas e seus senhores, donos das terras e dos destinos da população.

A menina Esperança nasceu em 1751, na fazenda algodões, que pertencia aos jesuítas até serem expulsos pelo Marquês de Pombal. A fazenda vivia sob a inspeção de Nazaré, atualmente Nazaré do Piauí região de Oeiras.

Ela saiu para a residência de Nazaré aos nove anos pelo capitão Antônio Vieira de Couto para trabalhar de cozinheira.  Aos dezesseis anos estava casada e com um filho, o primogênito. A violência a que os escravos e escravas estavam submetidos e submetidas na época colonial era absurdamente cruel. O tratamento de forma desumana, os maus tratos, espancamentos e torturas, além de abusos sexuais quando não matava provocava adoecimentos graves por toda uma existência.

Aos dezenove anos Esperança Garcia não suportando mais as violências sofridas, redigiu uma carta para o Governador do Piauí na época, o senhor Gonçalo Lourenço Botelho de Castro, denunciando as torturas e expondo o seu sentimento de indignação diante a escravidão em que ela está inserida, seu filho (uma criança) e outras mulheres. A carta se destaca pela sua importância histórica, mas acima de tudo pela sua coragem em confidenciar seu sofrimento ao governador esperando dele uma providência. No Brasil Colônia o estudo e o conhecimento não era oportunizado às mulheres e ainda mais negras escravizadas. Esperança Garcia foi destemida e uma exceção entre as mulheres de seu tempo, pois a mesma sabia escrever e ler. Os documentos que se tem sobre Esperança Garcia são poucos, mas acredita-se que ela se alfabetizou com os jesuítas.

Na data de seis de setembro de mil setecentos e setenta a carta foi enviada ao governador.

Este ano de 2020 a carta completa 250 anos de existência.

Segue em anexo as duas versões da carta:

A ORIGINAL

"Eu sou hua escrava de V. Sa. administração de Capam. Antº Vieira de Couto, cazada. Desde que o Capam. lá foi adeministrar, q. me tirou da fazenda dos algodois, aonde vevia com meu marido, para ser cozinheira de sua caza, onde nella passo mto mal. A primeira hé q. ha grandes trovoadas de pancadas em hum filho nem sendo uhã criança q. lhe fez estrair sangue pella boca, em mim não poço esplicar q. sou hu colcham de pancadas, tanto q. cahy huã vez do sobrado abaccho peiada, por mezericordia de Ds. esCapei. A segunda estou eu e mais minhas parceiras por confeçar a tres annos. E huã criança minha e duas mais por batizar. Pello q. Peço a V.S. pello amor de Ds. e do seu Valimto. ponha aos olhos em mim ordinando digo mandar a Procurador que mande p. a fazda. aonde elle me tirou pa eu viver com meu marido e batizar minha filha q. De V.Sa. sua escrava Esperança Garcia


A ATUAL

"Eu sou uma escrava de V.S.a administração de Capitão AntonioVieira de Couto, casada. Desde que o Capitão lá foi administrar, que me tirou da Fazenda dos Algodões, aonde vivia com meu marido, para ser cozinheira de sua casa, onde nela passo tão mal. A primeira é que há grandes trovoadas de pancadas em um filho nem,sendo uma criança que lhe fez extrair sangue pela boca; em mim não poço explicar que sou um colchão de pancadas, tanto que caí uma vez do sobrado abaixo, peada, por misericórdia de Deus escapei. A segunda estou eu e mais minhas parceiras por confessar a três anos. E uma criança minha e duas mais por batizar. Pelo que peço a V.S. pelo amor de Deus e do seu valimento, ponha aos olhos em mim, ordenando ao Procurador que mande para a fazenda aonde ele me tirou para eu viver com meu marido e batizar minha filha.De V.Sa. sua escrava, Esperança Garcia"


Há uma afirmação que a carta original está em Portugal, mas o pesquisador e Historiador Luiz Mott descobriu uma cópia no arquivo público do Piauí.

Sabe-se que ela se refugiou na fazenda algodões logo após a denúncia realizada e foi mencionada numa relação de trabalhadores depois de oito anos, em 1778.
Esperança Garcia ficou conhecida no Estado como um símbolo de luta , resistência e acima de tudo esperança.

O Deputado Olavo Rabelo de Carvalho Filho é o autor da Lei nº 5.046 de 07 de janeiro de 1999 que instituiu o dia 06 DESETEMBRO como o DIA ESTADUAL DA CONSCIÊNCIA NEGRA NO PIAUÍ em homenagem a data da carta enviada por Esperança Garcia ao Governador.

Esperança Garcia é considerada a primeira Advogada negra do Piauí e também do Brasil, uma vez que à época da carta não havia nenhuma mulher advogada na Colônia. o Título de advogada lhe é outorgado diante a escrita da carta, o seu teor. Segundo os advogados a carta é semelhante a uma petição.

Esperança Garcia. (FOTO/ Reprodução).

O reconhecimento simbólico de Esperança Garcia como primeira advogada piauiense ocorreu em 24 de agosto de 2018, na Ordem dos Advogados do Brasil.”


Segue em anexo o projeto de Lei para colocar o nome de Esperança Garcia no Panteão da Pátria junto a outros nomes de mulheres que contribuíram para a luta contra a escravização.

“O Projeto de Lei nº 3.772, de 2019, da ilustre Deputada Margarete Coelho, pretende inscrever no Livro de Heróis e Heroínas da Pátria, localizado no Panteão da Pátria, em Brasília-DF, o nome de Esperança Garcia, que fora escrava no Piauí Colonial, durante o século XVIII e que lutou contra a sua condição de escravizada junto às autoridades governamentais.”


A relatora foi a Deputada Federal Benedita da Silva e o projeto foi aprovado na Comissão de Cultura.

“A Comissão de Cultura, em reunião ordinária realizada hoje, aprovou unanimemente o Projeto de Lei nº 3.772/2019, nos termos do Parecer da Relatora, Deputada Benedita da Silva.

Estiveram presentes os Senhores Deputados:Benedita da Silva -Presidente, Áurea Carolina -Vice-Presidente, Airton Faleiro, Chico D'Angelo, Felício Laterça, Igor Kannário, Luciano Ducci, Luiz Lima, Luizianne Lins, Marcelo Calero, Rubens Otoni, Tiririca, Vavá Martins, Daniel Silveira, Darci de Matos, David Miranda, Diego Garcia, Felipe Carreras e Paulo Teixeira.

Sala da Comissão, em 30 de outubro de 2019.”


Em Teresina, Capital do Piauí há um memorial em sua homenagem.

“O Memorial Esperança Garcia fica localizado na avenida Miguel Rosa e é aberto de segunda à sexta, com entrada gratuita.”


Deixo aqui um poema de minha autoria para homenagear Esperança Garcia


Fontes utilizadas:

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Fátima Teles é poeta, escritora com cerca de 5 obras, professora formadora com atuação na Secretaria Municipal de Educação de Brejo Santo, membra da Academia de Letras do Brasil/Seccção Ceará, do Instituto Cultural do Cariri (ICC), do Instituto Cultural do Vale Caririense ICVC e da Academia Internacional da União Cultural e colunista do Blog.

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