“Não pode haver democracia sem igualdade racial”, diz historiadora

 

"Não pode haver democracia sem igualdade racial", diz historiadora.

Em 2010, a historiadora e pesquisadora Wlamyra Albuquerque venceu o Prêmio Jabuti na categoria didático e paradidático com o livro Uma história da cultura afro-brasileira, escrito em parceria com Walter Fraga Filho.

Especialista em pós-abolição e luta pela cidadania, a professora do Departamento de História da Universidade Federal da Bahia, com pós-doutorado em Harvard, é uma das vozes presentes no recém-lançado documentário Sobre sonhos e liberdade, coprodução luso-brasileira filmada no Recôncavo baiano. Wlamyra,  que também é autora de O jogo da dissimulação – abolição e cidadania no Brasil, dentre outros, prepara um e-book sobre as estratégias de preservação dos privilégios das elites brancas a partir da instalação da República em 1889, em coautoria  com a historiadora Gabriela Sampaio, e fala nesta entrevista, no Dia Internacional em Lembrança pelas Vítimas da Escravidão e do Tráfego Transatlântico de Escravos nos Navios Negreiros, sobre abolição,  Museu da Escravidão, estátuas de traficantes de escravos e a dura luta pela cidadania.

O documentário Sobre sonhos e liberdade, lançado no mês passado, traz a discussão sobre a assinatura da Lei Áurea. A Princesa Isabel esvaziou a luta abolicionista?

Não é exatamente que a lei esvaziou a luta abolicionista.  Na verdade, a lei foi o resultado da luta protagonizada por vários abolicionistas negros. As memórias que foram construídas sobre o fim da escravidão, enfatizando muito mais a assinatura da Lei Áurea e o papel da Princesa Isabel e de alguns abolicionistas parlamentares, é que esvaziaram na memória nacional o papel dos abolicionistas negros. As crianças nas escolas lembram muito mais da Princesa Isabel, do Joaquim Nabuco, do Ruy Barbosa do que daqueles abolicionistas, mesmo José do Patrocínio, mesmo Luiz Gama, que foram os mais famosos, e também outros que foram caindo no esquecimento mas que foram centrais para o desmonte do escravismo no Brasil. A questão é a disputa acerca da memória das vitórias e conquistas obtidas pela população negra no Brasil.

O breve período de ascensão social de pessoas da periferia na década passada trouxe uma esperança, mas também uma reação forte às políticas de inclusão social. A tensão subiu, mas a desigualdade social permanece virtualmente a mesma. O que fazer de agora em diante para incluir essa massa no consumo e ao mesmo tempo criar cidadãos, não apenas consumidores, que foi uma crítica feita aos governos do PT por parte da Academia?

Parece-me que a questão da cidadania continua sendo central para pensar na República no Brasil. Qual modelo de sociedade republicana nós queremos – que não é uma sociedade dada a predominância do liberalismo como forma de organização do capitalismo no Brasil, e que deve se resolver pelo consumo – mas sim pela cidadania. E quando   falamos de cidadania estamos falando de acesso a bens e serviços, de qualidade de vida, de oportunidades, da possibilidade de exercício de direitos. O modo como as polícias operam nas periferias, predominantemente negras, os modos como os serviços de saúde tratam, por exemplo, as gestantes, o próprio tratamento e prevenção a epidemias que, por exemplo, é feito de forma diferente em bairros periféricos e em bairros centrais, tudo isso diz respeito ao exercício da cidadania.  O que nos move a continuar lutando por uma sociedade republicana é que essa sociedade consiga dar conta de níveis de desigualdade. É por isso que se diz hoje que a igualdade racial é imprescindível para a sociedade democrática. Não é possível haver democracia sem igualdade racial. Se não temos ainda igualdade racial, estamos muito longe de qualquer modelo de democracia aceitável na sociedade contemporânea.

Uma vereadora e um deputado estadual propõem a criação do Museu da Escravidão. Como a senhora avalia essa ideia? Em um lugar como Salvador, onde poucos visitam museus,  essa estratégia pode dar resultado em termos de consolidação do pensamento abolicionista?

A ideia do Museu da Escravidão é uma proposta de coragem. Para que a gente tenha coragem de olhar para o nosso passado. Coragem de entender as formas como a gente tem construído as desigualdades no Brasil. A ideia do Museu da Escravidão é que a gente consiga olhar para esse tempo passado para resolver problemas atuais. Não é um museu para celebrar um período de opressão, mas um lugar de memória onde a gente possa se confrontar com esse passado e ultrapassá-lo, vencê-lo de uma vez por todas. A ideia é fantástica, e eu acho que a ausência de um museu sobre a escravidão na Bahia é muito significativa. É o modo como procuramos silenciar sobre o que nos dói. E não resolver o que nos dói. A ideia é muito bem-vinda porque garante a oportunidade a essa população negra, branca, local, visitante, de pensar sobre esse passado e pensar o que ainda precisamos fazer para superá-lo. É um exercício de cidadania também, de cidadania política. Um movimento político fundamental para a gente rever nossa memória.

O mundo inteiro foi impactado pelo assassinato brutal de George Floyd por policiais brancos. Mesmo em países com pouca presença negra e histórico racista falou-se em Vidas Negras Importam. Mas a prática policial não muda. Um estudo mostrou esta semana que no Reino Unido negros, asiáticos e outras minorias étnicas têm três vezes mais chances de ser abordados com violência pela polícia (que lá usa armas não letais). No Brasil, a discriminação policial leva à morte mesmo. O que é preciso começar a fazer agora para que no futuro um jovem negro na rua não seja tratado como uma ameaça?

Isso tem a ver com o modo como o racismo foi eficiente e continua operando por dentro da estrutura do Estado. A violência policial é onde a gente vê mais claramente o peso do racismo institucional, o peso do racismo que estrutura as instituições no Brasil. O racismo é estrutural, como diz o advogado e filósofo Sílvio Almeida, porque ele se infiltra, ele se entranha na argamassa que construiu a sociedade republicana no Brasil.  E isso só pode ser desmontado, primeiro, no momento em que a gente admite que ele existe, e depois quando a gente enfrenta o problema.  E enfrentar significa dizer a construção de um projeto político em que a igualdade racial esteja no meio. Não é algo paralelo, não é algo adjacente, algo que está em torno, não é uma questão identitária. A ideia de colocar a luta antirracista como uma questão identitária é uma tentativa de esvaziar o papel político que a luta antirracista tem na organização de uma sociedade democrática. Se queremos uma sociedade democrática, o Estado precisa assumir uma postura antirracista como forma de organização de suas instituições.  E a primeira instituição que precisa estar no centro do debate é exatamente a polícia.

Uma equipe da Uefs lançou recentemente o site Salvador Escravista, apontando as referências históricas na capital aos escravizadores. O que acha dessa iniciativa? Como vê a discussão sobre monumentos ligados ao tráfico e posse de escravos? A derrubada desses monumentos seria contraditória em relação ao projeto de um museu?

O site é uma iniciativa importante e fundamental de pesquisadores formados em universidades públicas que discutem o tráfico de escravos, as estruturas do racismo e de que modo essas estruturas estão vinculadas ao passado escravo. E também como a estrutura do racismo está ligada aos limites da cidadania. É uma iniciativa de fazer com que as pessoas comecem a olhar para a cidade em que elas moram e perceber como essa cidade o tempo todo constrói memórias que desqualificam a luta negra, que reiteram a pseudossuperioridade branca. Então, a ideia é questionar os monumentos, questionar o traçado urbano, as estruturas da cidade. Por exemplo, precisamos pensar por que temos um sistema de transporte tão ruim. Quem usa, a quem se destina o sistema de transporte? Por que as escolas públicas de educação básica estão sempre abaixo dos níveis esperados? A quem são destinados os equipamentos de escolas públicas no nosso estado? Construir um site chamado Salvador Escravista é uma atitude política, acadêmica, engajada, antirracista, para fazer com que a gente possa ter um conhecimento melhor, embasado em metodologia científica, para entender o nosso cotidiano, a hora que a gente sai de casa, vira a esquina, vê uma estátua e segue adiante, vê o outdoor, como tudo isso acaba construindo a desigualdade social. A desigualdade é mantida também nos equipamentos que organizam a cidade onde a gente mora. Então, questionar as estátuas, derrubar as estátuas, fazer com que vão por terra as imagens de figuras públicas que enriqueceram a partir do crime que foi o tráfico de escravos é fundamental para pensar o quanto ainda estamos reféns dessa memória.

Recentemente, tivemos o embate nas redes sociais entre Djamila Ribeiro e Letícia Parks em torno do lugar de fala.  Paralelamente, Lilia Schwarz foi duramente criticada por ter feito uma análise em torno de um trabalho de Beyoncé.  Como a senhora viu esses episódios? O uso do conceito de lugar de fala em determinados contextos não promove a divisão de quem está tentando construir uma agenda antirracista?

Esse é um dos debates mais difíceis que têm acontecido dentro do movimento antirracista. O conceito de lugar de fala e o papel de intelectuais brancos no debate sobre questões raciais negras. O conceito de lugar de fala é central para trabalhar a ideia da subjetividade na produção de discurso histórico. O lugar de fala, para nós, historiadores, está muito ligado à noção de onde se produz determinada narrativa histórica. Quem enuncia, quem elabora um discurso histórico. Quem conta uma história está sempre falando de algum lugar. Nenhuma história é contada de um campo neutro. O conceito de lugar de fala é muito útil no sentido de mostrar que não existe essa neutralidade na produção de conhecimento. Entretanto, o conceito de lugar de fala jamais deve ser usado para desqualificar qualquer outra interpretação ou compreensão sobre o que está sendo debatido. Não é um instrumento de silenciamento do outro.

A senhora está trabalhando em uma nova pesquisa? Tem novo livro à vista?

Sim. Continuo pesquisando esse tema, a produção de desigualdades na sociedade brasileira. Estou concluindo um livro, junto com minha colega Gabriela Sampaio,  um e-book, que tem o título provisório de República Degenerada – Racismo, ciência, carnavais e religiosidade na Bahia, no final do século 19, começo do 20. E nesse livro a gente mostra como as elites que assumiram o controle do Estado, em 1889, na Proclamação da República, se empenharam em preservar o suposto lugar de superioridade branca.

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Por Gilson Jorge, no A Tarde.

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