Quem quer ser representante do povo precisa fazer um discurso de enfrentamento ao racismo

 

Professor Nicolau Neto. (FOTO/ Lucélia Muniz).

Por Nicolau Neto, editor-chefe

As pessoas mais atentas aos textos publicados no Blog Negro Nicolau logo constatarão que as duas últimas veiculações fazem referências a dados que desvelam o quanto o Brasil – último pais último país do mundo acabar legalmente com a escravidão – é um país racista.

As duas postagens foram publicadas nesta quinta-feira, 27. A primeira trata de uma ação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que decidiu que a partir das eleições de 2022 os recursos do Fundo Eleitoral e do Fundo Partidário utilizados nas campanhas devem ser repartidos de forma proporcional ao número de candidatos e candidatas negras de uma legenda. A postura do TSE caminha no sentido de enfrentamento ao racismo. Não resolve o problema, mas contribui para o combate. A segunda é um dado do Atlas da Violência 2020 divulgado ontem, 27. Por ele, constatou-se que a taxa de homicídio de negros aumentou 11,5% em dez anos, enquanto que a de não negros caiu 12,9%.

No Brasil a pouca representatividade de negros e negras na política - um dos principais espaços de decisão - salta aos olhos. Há, por outro lado, uma predominância de brancos, mesmo o país sendo o mais negro fora do continente africano. Segundo o último levantamento da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua do IBGE, 56,10% das pessoas se declaram negras. Maioria na população, mas minoria nos espaços de poder. Para se ter uma ideia, apenas 24 dos 513 deputados/as são negros/as; apenas 3 dos 81 senadores/as são negros/as; apenas 1.604 dos 5.570 dos/as prefeitos/as são negros/as; apenas 24.282 dos 57.838 vereadores/as são negros; nenhum dos/as governadores/as dos estados e do DF são negros e para piorar a situação, o presidente eleito não demonstra nenhum apreço pela causa negra. Isso não te incomoda?                    

Negros/as só são maioria das delegacias; nos números de desempregados ou em empregos que ganham menos; no número de pessoas que não conseguem concluir seus estudos; nos homicídios.... Isso não te incomoda?

O silêncio é uma forma poderosa de racismo.

É necessário pontuar que há uma disputa diária por narrativa e um enfrentamento de discursos propagado por uma elite política e econômica branca que tentam a todo custo deslegitimar todas as conquistas da comunidade negra deste país e ao mesmo tempo descaracterizar ações dos movimentos negros, de professores, professoras e demais pessoas engajadas na luta por uma sociedade com equidade racial e de gênero. Cito como exemplos recentes o presidente da república, Jair Bolsonaro e o presidente da Fundação Cultural Palmares, Sérgio Camargo. Este último, inclusive, classificou o movimento negro de “escória”.

Infelizmente as vidas negras continuam a importar a um grupo restrito; a luta contra o racismo ainda não conseguiu envolver todos. A esmagadora maioria das pessoas que não são negras continuam a naturalizar o genocídio negro; continuam a banalizar os dados estatísticos que enfatizamos acima e que demonstram que as desigualdades raciais no Brasil se expressam de forma violenta e muitas vezes pela falta de políticas públicas de segurança, educacional e de saúde.

E olha que não preciso ir tão longe para apontar a falta de envolvimento e de empatia das pessoas que não se consideram negras nessas discussões. Cito Altaneira e outros municípios vizinhos onde isso fica evidente. As discussões sobre racismo, por exemplo, ficam restritas a quatro pessoas, no máximo.

Esse ano a gente vai às urnas para escolher vereadores/as e prefeito/a. Aproveito a oportunidade para fazer uma alerta para aqueles e aquelas que desejam concorrer a cargos políticos eletivos. Não dá para querer ser representante do povo e não fazer um discurso de enfrentamento ao racismo; não dá para querer ser representante do povo e não apresentar um plano de combate ao racismo. Fica a dica.

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