Josyanne Gomes: “Novo normal”? Duas opções: qual a saída?


Josyanne Gomes. (FOTO/ Arquivo pessoal).


Novo normal”, essa expressão estava aparecendo com frequência nas redes sociais e, por ficar muito tempo conectada eu acabei me deparando com ela mais do que eu imaginava. Parece até que a expressão havia viralizado mesmo, como se convém chamar atualmente no mundo digital. 

A primeira vez que a li em alguma postagem, acredito que tenha sido na rede social Instagram, não dei muita atenção, afinal parecia ser só mais uma interpretação acerca do momento que vivenciamos. Depois, passei a ver e ler essa expressão em hashtag (#) por várias postagens que eu acompanho via internet. Até que o boom aconteceu e virou moda nas redes usar este termo.

A partir de então eu parei e pensei, (se o normal em si já não é uma coisa boa, imagina só essa coisa de “novo normal”) achei bizarro que de fato as pessoas estivessem dando tanta bola para esse assunto, e estivessem mesmo acreditando na possibilidade de materialização dessa sentença.

Eu fiquei imaginando algo do tipo, como a proposta econômica Liberal que em si não é algo bom para a maioria, então como se as coisas não pudessem piorar, criaram-se a ideia do NeoLiberalismo, como algo que insiste numa nova roupagem, mas sem mudar a essência. Para mim, o Novo Normal passa por essa perspectiva, algo como uma espécie de enquadramento sugerida nas entrelinhas, ou, talvez exposta mesmo nas campanhas virtuais.

De todo modo, algo que é novo não pode ser bem explicado, por se ter a ideia de surpresa, o desconhecido para todos nós, como bem nos diz Maria Aparecida Rhein Schirato, Doutora e Mestra em Educação pela Universidade de São Paulo, docente do Insper desde 2008, com experiência em Consultoria e Gestão de Conflitos, Modelos de Gestão, Desenvolvimento de Liderança e Treinamentos Comportamentais. 

Na entrevista que deixarei disponível ao final deste texto, Maria Aparecida nos fala sobre esse Novo Normal como uma forma de adaptação a realidade, ou seja, sinaliza para novos tipos de comportamento que se tornarão comuns daqui para frente, como o uso de máscaras, a distância física necessária, o uso das tecnologias como recurso habitual e etc.

É interessante a leitura desta autora, pois ela nos informa sobre como vamos pensar em segurança a partir de agora, como vamos nos relacionar e pensar o novo, não como algo que assusta ou desestabiliza, mas como uma possibilidade de (re) existência. Não podemos afirmar se este Novo Normal será bom ou ruim pata todos, se será realmente seguro, todavia pensando como algo normal será convencional seguirmos, o que não significa dizer que todos o farão na mesma proporção e grau de adaptação.

O que não significa dizer também, que por ser normal se ajuste as necessidades e realidades de todos. Como bem sabemos existe a desigualdade social, não só no nosso país, mas no mundo inteiro, existem contextos sociais distintos com dinâmicas culturais diferentes e assim por diante.

E é justamente nesse ponto que desejo chamar atenção, a partir dessa ideia de um Novo Normal, as redes sociais tem propagado que faz parte desse ciclo de “isolamento social” usar o tempo para criação de projetos, sejam eles pessoais ou profissionais. Se propaga por um lado, a ideia de aproveitar todo o tempo possível para investir em algo que gere lucro, rentabilidade financeira, ou por outro lado, um corpo ideal, aquele dos sonhos das propagandas de consumo.

Mas eu lanço aqui algumas perguntas – e quem não pode cumprir de fato o isolamento social, por que precisa sair para trabalhar? E aqueles que não conseguem realizar as atividades escolares remotas por que não tem condições tecnológicas acessíveis e favoráveis? Ou ainda, como pensar naqueles que sequer tem alimentação em casa?

Os projetos e planos maravilhosos desse tempo Novo Normal, não se amarra as múltiplas realidades existentes, pensando nisso, trago outro questionamento aqui para nós todos: como lidamos com as cobranças impostas pelo sistema capitalista? Ou melhor, como fazemos para nos adaptar a um Novo Normal, sendo que antes nem todos estávamos adaptados no que se denomina por Normal?

Nos cobram um corpo perfeito, um currículo impecável, produções teóricas e acadêmicas constantes e sólidas, nos cobram casa própria, carro do ano, filhos bem educados e bem cuidados, alimentação saudável, mente equilibrada, casa arrumada, harmonia e como somos humanos, nos cobram sobretudo, adaptar-se!   

Enquanto isso, como lidamos com as mortes em massa? Os números cada vez mais crescentes de infectados pela pandemia? Os discursos de que Deus tudo sabe e de que a política nada a tem a ver com tudo isso? Quantas pandemias enfrentamos? Racismo? Machismo? Homofobia? Capacitismo? Feminicídio? Gordofobia? Xenofobismo? Desigualdade Social? O que mais? Ops, já estava me esquecendo, precisamos mesmo é lidar com o Normal, ou melhor, Novo Normal.    

Referência: Insper.

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Josyanne Gomes é graduada em Ciências Sociais pela Universidade Regional do Cariri (URCA), mestre em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), professora e colunista do Blog Negro Nicolau.

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