Leonardo Sakamoto: “Dois vídeos, dois entregadores negros chamados Matheus, o mesmo racismo”

(FOTO/ Reprodução).

Dois vídeos que viralizaram, nesta sexta (7), chocaram pelas cenas de racismo. Um deles mostra a agressão contra um entregador chamado Matheus, que foi amparado por seu amigo também chamado Matheus, em um shopping no Rio de Janeiro. E o outro traz ataques racistas sofridos pelo entregador Matheus por parte de um homem de nome Mateus em um condomínio em Valinhos (SP). As vítimas têm em comum os nomes, o trabalho, a cor de pele. Os três Matheus são a cara de um Brasil, enquanto o Mateus é a voz de outro.

O entregador Matheus (Fernandes) foi trocar o relógio que havia comprado para o pai na loja Renner, do Shopping Ilha Plaza, Zona Norte do Rio. Arrancado do local por dois homens, ele foi acusado de roubar a mercadoria, imobilizado na escada de emergência e agredido. Uma pistola foi apontada para ele e só não ocorreu algo pior porque um amigo acompanhou a cena e chamou outras pessoas. Tudo foi gravado. Matheus estava orgulhoso que tinha comprado o presente com seu próprio dinheiro.

O entregador Matheus (Nascimento) presta serviço para um restaurante no shopping e testemunhou o que os dois homens fizeram com o seu amigo Matheus. Graças a ele, a agressão não foi maior. Como nenhuma boa ação fica impune no Brasil, agora, está com medo de perder o emprego. Disse que o shopping afirmou que não quer mais vê-lo por lá.

O entregador Matheus (Pires) atrasou uma encomenda da iFood para uma residência em um condomínio em Valinhos (SP). Lá chegando, o cliente o chamou de "lixo" e "semianalfabeto", disse que ele tinha inveja do condomínio e das famílias que lá moravam. E apontando para a própria pele branca, afirmou que o entregador negro também tinha inveja daquilo. Mesmo diante de agentes da guarda civil, continuou sendo humilhado pelo homem. Segundo ele, recebeu uma cusparada. Um vizinho gravou a cena para apoiar o entregador, que pedia respeito de forma educada.

O contabilista Mateus Abreu Almeida Prado Couto, morador que humilhou Matheus Pires, foi levado à delegacia, onde manteve as ofensas. Seu pai, um bem sucedido empresário, afirmou à Polícia Civil que o filho é esquizofrênico e pediu compreensão. Segundo Matheus, não é a primeira vez que ele causa problemas a quem vem lhe entregar comida e vizinhos reclamam de seu comportamento com outros prestadores de serviço. Até agora, o único incômodo, além da delegacia, foi ter tido cancelada sua conta na iFood.

Os três Matheus representam um Brasil. Poderiam ser a mesma pessoa e, ao mesmo tempo, qualquer um de outros milhões que se lascam diariamente para trabalhar honestamente, desviando-se da violência e da arbitrariedade, sendo solidário e nadando contra a corrente do racismo e do sistema que o protege. Sistema alimentado por nós.

Já Mateus vocalizou outro Brasil, mesmo que talvez não tenha plena consciência disso. Um Brasil que se acha no direito de acusar um Matheus de roubo e puni-lo por sua cor de pele, um Brasil que acredita que pode ameaçar um Matheus por ele ter denunciado uma agressão, um Brasil que acha justo mostrar para trabalhadores negros e pobres o seu devido lugar. Em intragáveis mensagens de aplicativos, esse Brasil sentiu-se representado pelas palavras de Mateus.

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Leia a integra do texto do Leonardo Sakamoto em seu blog

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