As ilhas da sala.    

 

Alexandre Lucas. (FOTO  | Acervo pessoal).


Por Alexandre Lucas, Colunista 

As fitas de cetim dançam lentamente, até parecem corpos se seduzindo, um blues de pé de ouvido entoa o enredo. O trabalho segue entre batidas de teclados e silêncios agitados. Os olhos vasculham cada canto da sala, tentando encontrar recheio para a escrita, tudo pode fazer parte do texto.

A sala parece ser um território, em que cada lugar é uma ilha desconhecida. As fitas continuam lentamente dançando. As luzes acesas apenas clareiam os rostos, as ideias estão embaçadas. O espaço é partilhado com os gatos que passeiam pelas calçadas, os sentimentos se pintam de mudos. Os desejos   ficam no fundo de um baú profundo.

Nós seguimos calados, o sol parece desapontado, desde cedo seu brilho e calor estão distantes. Enquanto isso tento escrever uma história que me caiba por completo, mas todas as histórias são incompletas. Os livros estão cheios de partes de um todo que não se completam, as fitas continuam dançando.      

As folhas voam, nada disso, são empurradas pelo vento. Aproveito para colocar palavras nas folhas em branco, tentando tecer mais um conjunto de frases. Os livros estão nas estantes preenchidos de gente, mas nunca achei que os livros tinham palavras.

Indefinida a narrativa, enquanto passavam as coisas e os pensamentos, as frases foram se fragmentando, como as histórias, que se recontam do olho para boca no terreiro da vida, das incontáveis vidas. A sala parece cheia, o silêncio permanece, enquanto, fico olhando as fitas dançando como se estivessem se seduzindo.

 

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