A política do pão e circo resiste ao tempo

 

Coliseu de Roma, espaço usado para entreter a população e construído na época do imperador Vespaciano. (FOTO/ Wikipédia).

Por José Nicolau, editor

 

O maior espetáculo do pobre da atualidade é comer.

(Carolina Maria de Jesus)

 

Você conhece a expressão “Política do Pão e Circo”? Se sim, sabe como poderemos identifica-la (sem cometermos anacronismo) na atualidade?

Panem et circenses” do latim que significa Política do Pão e Circo é uma expressão que tem origem histórica na Roma Antiga, em um momento específico da História e consistia no fato de distrair e silenciar a população para que ela não se revoltasse contra sua péssimas condições de vida. Essa distração se dava por meio de ações promovidas pelos líderes romanos, como o imperador Otávio Augusto e aperfeiçoada por Júlio César.

Entre essas medidas para apaziguar a população estavam os grandes espetáculos que para o seu desenvolvimento era necessário à construção de arenas. Aqui, escravizados eram usados para entreter a população (uma sugestão para ampliar seu conhecimento sobre isso é o filme Gladiador). Homens que perderam a liberdade se enfrentavam aos olhos atentos do público que, naquele instante, acabava esquecendo-se de suas condições precárias, da falta ações concretas dos governantes para resolver as desigualdades. Essa mesma população que naquele exato momento ficava com o poder de decidir se um dos gladiadores morria ou vivia.

Para completar a distração, os servos eram obrigados a jogar nas arquibancadas alguns pães. Dessa forma e de acordo com poeta romano Juvenal (100 d.C) que em sua Sátira X destacou que os líderes romanos mantinha a população fiel à ordem estabelecida e conquistava seu apoio. Findado isso, os problemas não haviam saído do lugar, pois nada havia sido feito para acabar com eles. Muito embora tenha se criticado a falta de informação e de interesse do povo romano em debater os assuntos da cidade, é necessário destacar que a estrutura política e o regime não lhes permitiam se aventurar no debate político.

Desta feita, a população empobrecida de Roma não tinha tempo para se revoltar. Não morria de fome e ao mesmo tempo se sentiam em paz ao lado de outros espetáculos como brigas de humanos contra animais, artistas de teatro, corridas de cavalos, acobracias e bandas. Esse era o objetivo. Manter os empobrecidos entretidos para evitar descontentamentos, revoluções sociais.

A política do pão e circo resiste ao tempo

Parecia até que estávamos escrevendo sobre nosso cotidiano. Essa tática da Roma Antiga permanece viva. Por isso e sem risco de entrarmos em anacronismo[1] é necessário destacar que houve uma renovação nas formas de alienação do povo e uma delas é a naturalização da pobreza. Há uma tentativa desenfreada de passar para a população que a fome, a miséria e todas as outras formas de desigualdades são naturais e, que portanto, não podem ser resolvidas.

Se entendermos que “pão e circo” enquanto fenômeno político é a distribuição à população de algo que ela deseja e necessita, logo essa prática resistiu ao tempo e ao lado dela outros conceitos, como o clientelismo nos ajudam a explicar que a todo o momento há ações que visam entreter o povo e mascarar a realidade. 

O entretenimento sem ações paralelas que ajudem a resolver as desigualdades é só uma tentativa de silenciamento do povo e de esconder a realidade.

A grande diferença hoje e já há estudos nesse sentido, é que grande parte da população sabe disso. Sabe que as desigualdades não são naturais, mas “inventadas por aqueles que comem” para parafrasear a escritora negra Carolina Maria de Jesus na obra “Quarto de Despejo – Diário de uma Favelada”. E mesmo assim aceita participar do jogo, pois acredita que esta é (infelizmente) a única maneira de sanar, mesmo que temporariamente, suas necessidades.

Referências

DIAS, Anderson. Política do Pão e Circo. Disponível em http://www.parafrasear.net/2007/11/poltica-do-po-e-circo.html. Acesso em: 22 mai.2022.

JESUS, Carolina Maria de. Quarto de Despejo – diário de uma Favelada. 10. ed. São Paulo : Ática, 2014. Disponível em https://drive.google.com/drive/my-drive. Acesso em 22 mai.2022.

NEVES, Juliete. Uma das sete maravilhas do mundo. Disponível em https://www.educamaisbrasil.com.br/enem/artes/coliseu. Acesso em:  22 mai. 2022.

SOUSA, Rainier. Anacoronismo. Disponível em https://brasilescola.uol.com.br/historia/anacronismo.htm. Acesso em 22 mai.2022.


[1] "O anacronismo ou anticronismo consiste basicamente em utilizar os conceitos e idéias de uma época para analisar os fatos de outro tempo. Em outras palavras, o anacronismo é uma forma equivocada onde tentamos avaliar um determinado tempo histórico à luz de valores que não pertencem a esse mesmo tempo histórico. Por mais que isso pareça um erro banal ou facilmente perceptível, devemos estar atentos sobre como o anacronismo interfere no nosso estudo da História." Veja mais em: https://brasilescola.uol.com.br/historia/anacronismo.htm.

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