15 de junho de 2022

A Escola da Afrodescendência no Ceara.

 

Professor Henrique Cunha Junior na biblioteca do Sesc São Carlos. (FOTO/ Danny Abensur).

Por Henrique Cunha Junior*

Estamos saindo dos dias de muito trabalho e de muita alegria que foi da defesa de duas teses de doutoramento orientadas por mim, com a temática do espaço urbano, da identidade e da historia dos afrodescendentes no pós - abolição. Tese de Kassia Mota e Juliana Yade. Temos rupturas epistemológicas, teóricas e conceituais. Utilizamos conceitos próprios, bibliografia pouco usual nos trabalhos realizados no Brasil sobre população negra. Esta é a nossa marca forte  de uma densa bibliografia de africanos e afrodescendentes. Afinal de contas temos mais de 30 teses de doutoramentos feitas por nós no Ceara com este tema e mais de 50 mestrados.  São 20 anos de trabalho na universidade, mais de 30 na realidade fora daqui,  no campo das relações sociais s da população negra, criando termos e renovando principalmente o vocabulário , para propiciar um real novo discurso. Em 1994 em um seminário no USP a minha palestra foi sobre a necessidade constante de renovação dos termos e dos conceitos para termos uma nova ciência e uma nova consciência acadêmica sobre os fatos da sociedade. Podemos inovar e criar já recriando o nosso próprio arquivo pessoal. 

A proposta metodológica era que o espaço, contem um território, nele estão às histórias, as culturas, as relações sociais e econômicas nele se inscrevem e escrevem a vida das pessoas e das comunidades. Nestes lugares desenvolve a vida que vivemos e que nos interessa como tema de pesquisa. A existência de lugares, localidades, bairros, partes das cidades e cidades de maioria afrodescendentes guarda os fatos relevantes para compreensão das relações sociais desta população negra e das pessoas. Um fato importante da nossa forma de pesquisa é que o pesquisador é sujeito da própria pesquisa, assim com o pesquisado também é sujeito, não temos o clássico objeto de pesquisa a ser recontado e dissecado. Temos um todo a ser compreendido em maior profundidade, sendo que os pesquisadores vêm destas realidades, as conhece e apena aprofundam as sua visões e teorizam sobre este aprofundamento. Tratam as realidades vividas e conhecidas nos seus trabalhos. Quem é que vive e sofre a subalternização imposta pelo racismo anti negro e não o conhece? As salas de aulas dos programas de pós-graduação e as posturas teóricas da maioria dos professores que temos nestes programas são orquestrados pelos racismos anti  negros institucionais ( eles ficam revoltados quando afirmo isto e me chamam de complexado , ou de visão deformada, sempre pensam para eu repensar a minha postura e me ditam um bibligrafia, perguntando se eu ja os li). São realidades que vivemos e não escapamos delas mesmo que elas sejam negadas e renegadas pelos nossos amigos ( sim os amigos) e pares acadêmicos. Loucura nesta louca realidade dura em que vivemos. Onde nossos amigos e pares são em partes os nossos obstáculos e oposições para afirmações das nossas propostas novas de interpretações da realidade. Aqui no Ceara avançamos um pouco, muito pouco, o espaço é muito apertado e desencorajador. Se fizemos outras coisas seriamos mais bem sucedidos teríamos mais dinheiro de pesquisa e mais facilidades, mas não o fazemos, fazemos o que queremos, que vemos necessidade e isto se opõe a sociedade acadêmica, aos interesses contrários e mesmo de parte dos negros na universidade. Compreenda é um sistema as partes destoante precisam serem eliminada e nada melhor que o seja , para coerência do sistema,  pela falha e interesses dos próprios dissidentes. Inclusos os das relações interpessoais e afetivas. 

Sim a ruptura conceitual parte do reconhecimento da Africanidade brasileira e da nossa afrodescendência. Sabemos das nossas origens, do nosso passado e do presente e cristalizamos isto na historias oficiais com fruto da nossa pesquisa acadêmica. Criamos um campo de embates, pois conhecimento universitário é poder. Estamos fazendo esta disputa de poder. Mesmo que não quiséssemos ela existe, mesmo que não a enfrentamos elas nos prejudicam. As políticas públicas se nutrem destes conhecimentos, ou dos desconhecimentos. Quem não tem pesquisa acadêmica própria não tem política pública, esta é a realidade que o real não se expressa se não sobre o dado acadêmico. Temos uma produção que faz fronteira e certa oposição ao eurocentrismos, este centralizador das perspectivas acadêmicas brasileiras. Eurocentrismos dominantes e eloquentes na produção de conhecimento no Brasil. A universalidade do conhecimento é um discurso dominante. A grande maioria quer ter um lugar universal, mesmo que colonizado e dependente, sub serviente. É hegemônico o ocidente na nossa realidade e consciência, desloca-lo é uma tarefa difícil. O pendulo entre africanos e europeus, entre sociedades africanas e asiáticas e ocidentais, no campo do conhecimento, no Brasil, ainda não oscila, permanece inerte.  Nós apenas ensaiamos um pequeno deslocamento e isto nos faz inovador e realizador, isto me deixa contente, mas ciente das consequências. 

Nas defesas estava nas bancas o Professor kabengele Munanga, meu grande irmão e amigo de muitas lutas e vitórias acadêmicas.Vitórias pois sobrevivemos com algum sucesso, outros morreram ou desistiram. Algumas derrotas, em fim, de saborearmos e amargamos as nossas construções. Dele saiu a consideração que nós criamos através desses trabalhos uma “Escola da Afrodescendência no Ceara”, e nela mora a nossa originalidade epistemológica e teórica. Sim, este é um sentimento que dormi com ele na cabeça de ontem para hoje. Estamos formulando uma escola de pensamento, neste trabalho com a professora Sandra Petit, Joselina da Silva, dentro do programa de pós-graduação  e com  outros fortes colaboradores no Ceara como as professoras Rosa Barros e Cicera Nunes. Como outras e outros grandes colaboradores externos de muito tempo e muitas aventuras no terreno da universidade. Nada de útil, como de necessário, sobre tudo inovador se faz sozinho, sem um campo de trabalhos conjuntos. Esta deveria ter sido a grande aquisição desta escola da afrodescendência no Ceara. Este foi o único grande aprendizado do meu trabalho na França, tudo depende do conjunto. 


Bom,  temos um tempo de algumas certezas e muitas incertezas. Os ambientes são movediços. Existe um campo das relações pessoas no Brasil que infelizmente supera o das competências e dos feitos necessários. Este campo dos interesses de pessoas e de grupos, sem força conceitual, teórica, mas em torno de fatos tem prejudicado o nosso desenvolvimento como conjunto de oposição as sociedades racistas e aos feitos e desfeitos acadêmicos destes. Por isto é que não sei do futuro do que estamos realizando. Mesmo partes do próprio movimento negro tem dificuldade em assimilar e avaliar a propriedade dos feitos e procura então explorar os defeitos que nem estão na teoria e nem nos conceitos, mas na pessoa, que é muito imperfeita, eu. Também no que representa o que estamos fazendo às vezes fere os egos e as vaidades. Mesmo assim continuamos, gostaríamos que houvesse maior reflexão e maior discernimento nas decisões, mas esta difícil. Hoje comemoramos, amanha continuamos trabalhando, mesmo eu estando cansado e quase parando.

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Henrique Cunha Junior. é professor da Universidade Federal do Ceará (UFC). Possui mestrado em Dea de Historia - Université de Nancy- França (1981) e Doutorado Em Engenharia Elétrica pelo Instituto Politécnico de Lorraine (1983) e orienta doutoramentos e mestrados em Educação com temas relacionados a história e cultura africana, espaço urbano, bairros negros.

13 de junho de 2022

Pesquisa diz que ações para indígenas nas universidades são insuficientes

 

Imagem mostra uma sala de aula e indígenas estudando. (FOTO |UEM).


Uma análise elaborada pelo Grupo de Estudos Multidisciplianares da Ação Afirmativa (Gemaa) apontou que as ações voltadas para as comunidades tradicionais indígenas nas universidades públicas do Brasil ainda estão longe de ser ideais e inclusivas. Metade das 106 universidades públicas do país contavam com ações afirmativas formuladas especificamente para a população indígena em 2019, segundo levantamento feito em parceria com o Iesp/Uerj (Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro).

Segundo o estudo, 53 instituições de ensino distribuídas em 18 estados tinham políticas afirmativas específicas para essa população. Desse total, 23 universidades federais tinham arranjos que extrapolavam o previsto pela Lei 12.711/2012, a Lei de Cotas, e outras 30 universidades estaduais haviam criado leis específicas para indígenas.

O levantamento enfatiza que as ações afirmativas pensadas especificamente para a população indígena são necessárias porque a educação de base desses povos é diferente do modelo de ensino tradicional.

Processos seletivos específicos

Os dados do levantamento revelam que as políticas de ação afirmativa para a população indígena estão presentes em todas universidades federais em 2019, mas isso apenas por conta da existência da Lei 12.711, de 2012. Outro dado alarmante é o fato de que 44 universidades federais (de um total de 67) destinam cotas para indígenas apenas com base nessa lei, o que demonstra, por outro lado, que elas não fomentam medidas específicas para beneficiar esta população.

Quando isso acontece, ignoram um dos principais objetos de preocupação de pesquisadores e defensores das causas indígenas: a necessidade de haver processos seletivos direcionados, posto que, em muitos casos, a educação de base dos índígenas ocorre num formato diferente do ensino tradicional cobrado no Exame Nacional do Ensino Médio [Enem], por exemplo”.

O fato de a política racial das universidades federais transferir eventuais vagas não preenchidas pelos indígenas aos negros, modelo também seguido por algumas estaduais, somente contribui para aumentar as incertezas acerca da efetividade das ações afirmativas para esse grupo da população, segundo o Gemaa.

No total, 26 universidades públicas possuem processos elaborados para contemplar os indígenas, mas apenas 3 delas levam em consideração a realidade dessa parcela da população em suas provas de seleção.

Esses números são ainda muito baixos para fazer frente ao universalismo do Enem, método de seleção tão criticado pelos especialistas que se debruçam sobre o acesso dos indígenas à universidade”, diz a análise.

Por outro lado, 9 universidades estaduais não têm qualquer política de ação afirmativa voltada à população indígena. Assim, se há críticas quanto à efetividade da Lei 12.711 para a inclusão de indígenas, a situação poderia ser ainda pior sem a legislação.

Isso é especialmente verdadeiro no atual contexto político do país, em que os representantes do governo aumentaram os cortes de investimentos no ensino superior – e, além disso, encaram o conhecimento científico e valores como a promoção da diversidade como inimigos nacionais”, destaca o estudo.

Início das ações

Com foco em dados coletados até 2019, a pesquisa mostra que as primeiras políticas de ação afirmativa voltadas especificamente para indígenas em cursos regulares de graduação foram implementadas nas universidades estaduais do Paraná em 2001, por efeito da Lei Estadual nº 13.134, de 18 de abril.

A lei reservava apenas 3 vagas por instituição e foi concebida sem consultas aos(às) representantes das universidades ou aos(as) próprios(as) indígenas. Ademais, se valia de definições preconceituosas como a de índio “relativamente incapaz”, utilizada como justificativa ao longo do debate parlamentar que levou a sua aprovação”, ressalta a análise.

No caso do Paraná, a Lei Estadual, que amparou tal política, entrou em vigência antes de a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e a Universidade do Estado da Bahia (Uneb) implementarem cotas para negros(as) em 2003. Porém, essas duas universidades não criaram políticas específicas para indígenas no desenho original de suas políticas.

Contudo, enquanto a experiência paranaense permaneceu relativamente desconhecida, as cotas para negros(as) se tornaram tópico de debates acalorados no cenário nacional por anos. Isso teve o efeito não planejado de abrir espaço para a concepção de programas de ação afirmativa para indígenas (e para outros grupos raciais como os quilombolas) nas universidades públicas”, destaca o informe.

Resultados

Em 2019, havia 53 universidades públicas com ações afirmativas desenhadas exclusivamente para indígenas. A existência desse tipo de política, segundo o estudo do Gemaa, demonstra um certo receio por parte dos representantes das universidades, e dos estudiosos e militantes da causa, a começar pelos próprios indígenas.

Esses grupos tendem a questionar os métodos frequentemente utilizados para selecionar indígenas dentro do recorte Pretos, Pardos, Indígenas (PPI), o qual rege a política federal desde 2012, e que, em configurações similares, também encontra espaço em muitas universidades estaduais”, explica.

O temor desses grupos, de acordo com a análise, é que tal recorte não esteja contemplando efetivamente os povos indígenas, pois, de acordo com o estudo, a pauta das ações afirmativas não pode ser a mesma para todos os excluídos.

Não existe uma única e mesma exclusão, as razões históricas são distintas, os sistemas de preconceitos idem”, finaliza o levantamento.

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Com informações da Alma Preta.

12 de junho de 2022

Secult Ceará realiza Seminário Chapada do Araripe Patrimônio da Humanidade

(FOTO | Hélio Filho).

A Secult Ceará realizou Seminário “Chapada do Araripe Patrimônio da Humanidade”, nesta terça (7), no Crato. Na ocasião, o secretário da Cultura do Estado do Ceará, Fabiano Piúba, apresentou a Carta “Chapada do Araripe - Somos Patrimônio da Humanidade”, destinada ao Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). A carta tem o objetivo de repactuar, junto a gestores públicos e instituições envolvidas, a iniciativa da Campanha da Chapada do Araripe como Patrimônio da Humanidade.

Em sua fala de abertura, representando a governadora Izolda Cela, Fabiano Piúba ressaltou que no início de 2023 a Chapada do Araripe irá integrar a lista indicativa do Iphan, que seleciona os bens que concorrem à chancela de Patrimônio da Humanidade junto à Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).

Durante a abertura do seminário estiveram também presentes o secretário do Meio Ambiente do Ceará, Artur Bruno, por meio de vídeo; o reitor da Universidade Federal do Cariri, Ricardo Ness; o vice-reitor da Universidade Regional do Cariri, Carlos Kleber; o vice-prefeito do Crato, André Barreto; o prefeito de Santana do Cariri, Samuel Werton; o prefeito de Potengi, Edson Veriato; o prefeito de Salitre, Dorgival Pereira Filho; o sociólogo e ex-ministro da Cultura, Juca Ferreira; o gerente de Cultura do Sesc-CE, Alemberg Quindins; a educadora e integrante do Grupo de Valorização Negra do Cariri, Valéria Carvalho; e a presidenta do Instituto Dragão do Mar, Rachel Gadelha.

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Com informações da Secult CE.

11 de junho de 2022

Abayomi: o reluzir dos encontros preciosos

(FOTO | Reprodução | YouTube).

Num poderoso clã de guerreiras ashantis, situado no coração da África Ocidental, sete irmãs são confrontadas com um desafio que parecia irrealizável. Se não fossem capazes de juntas cumprir a missão, todo o povoado onde viviam poderia ser afetado. Esta é uma história com ensinamentos atemporais sobre sabedoria ancestral e o poder da filosofia Ubuntu: "eu sou porque nós somos".

"Abayomi: o reluzir dos encontros preciosos" é um conto afrodiaspórico que busca honrar a ancestralidade feminina, com inspiração em Ìyàmi, a Grande Mãe, representação coletiva de todas as ancestrais femininas que compõem uma força do cosmos. A partir de uma linguagem envolvente para pessoas de todas as idades, o conto revela a circularidade na conexão entre o antes, o agora e o porvir. Nas palavras das autoras: "somos singulares e somos todas! Juntas somos matripotência transformadora, gestando um mundo pluriversal".

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Com informações do Site Amazon.

Clique aqui e confira o vídeo no YouTube.

Estatuto da Igualdade Racial de Pernambuco avança e pode ser votado em breve

 

Legislação também busca combater o racismo contra religiões de matriz africana. / Márcio Vasconcellos.

Dados demográficos de 2009, levantados pelo IBGE, apontavam que mais de 60% da população do estado de Pernambuco é de pessoas negras (pretas e pardas). Mas não é raro percebermos as manifestações do racismo estrutural e seus reflexos na sociedade. Para avançar no enfrentamento ao racismo e na construção de condições igualitárias de oportunidades, deputados estaduais estão propondo um Estatuto da Igualdade Racial, com um sistema de financiamento e integração com políticas municipais.

Na última semana, a Comissão de Constituição, Legislação e Justiça (CCLJ) aprovou o documento. Esta semana o projeto passou pelas comissões de Administração Pública e de Finanças e Orçamento. Mas por tratar de muitos temas que perpassam a construção de condições de igualdade racial, o projeto ainda precisa passar por outras comissões, como Saúde e Assistência Social. Só após passar pelas comissões o projeto será votado no plenário. A expectativa é que isso ocorra em breve.

O primeiro projeto que versa sobre o tema é o PL 642/2019, de autoria da deputada Teresa Leitão (PT). Outros dois projetos que tratam de assuntos semelhantes são os PL 1150 e o PL 1151, ambos datados de 2020, com autoria de Isaltino Nascimento (PSB). Os três projetos estão tramitando e sendo avaliados conjuntamente, num texto substitutivo de autoria de Antônio Moraes (PP).

As diretrizes abrangem políticas públicas que vão desde saúde, educação, cultura, passando por segurança pública, direito à vida, até acesso a trabalho, renda e à terra, além de indicativos para mulheres e juventudes. "Temos que garantir igualdade de oportunidades à população negra e combater a discriminação racial", diz Isaltino Nascimento. "E queremos a participação dos movimentos sociais na formulação dessas políticas", sugere Teresa Leitão.

A proposta legislativa propõe políticas reparatórias, inclusivas e otimizadoras, nas esferas pública e privada, com foco nos "descendentes das vítimas da escravidão, do racismo e das demais práticas institucionais e sociais históricas que contribuíram para as profundas desigualdades raciais e as persistentes práticas de discriminação racial na sociedade pernambucana". As medidas incluem os povos de terreiro e religiões de matriz africana.

O enfermeiro Thiago Batista, coordenador do Centro Cultural Quilombos do Pindorama e do programa No Meu Bairro tem Axé, reforça a necessidade de políticas públicas que contribuam para "mudar a correlação de forças, para destruir a estrutura que oprime e maltrata o nosso povo há 520 anos".  "Não podemos mais aceitar que o Estado se exima de assumir compromisso com a luta antirracista e contra a intolerância religiosa", cobra ele.

Sobre o Estatuto da Igualdade Racial, o jovem considera que, para que a lei saia do papel e seja efetivada na vida da população negra e terreiro, é fundamental "que se tenha como eixo central a educação popular, 'griô', a comunicação e construção coletiva", pontua Batista. Ele também sugere a criação de um "conselho" composto pelos diversos setores da população negra, passando por coletivos, movimentos populares e outras organizações políticas e religiosas. Esse deverá ser um espaço em que todos tenham "voz e vez no planejamento, execução e fiscalização" das políticas públicas sobre as quais o Estatuto vai incidir.

Integração e financiamento

O projeto propõe ainda criar dois sistemas estaduais. O primeiro é o de Promoção da Igualdade Racial (Sisepir), a ser composto por uma secretaria do Governo do Estado, pelo Conselho Estadual da Igualdade Racial e também de municípios, fazendo o diálogo também com o sistema nacional (Sinapir) existente desde 2010.

O segundo é o Sistema de Financiamento de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, para receber recursos repassados pela União, além de doações individuais, institucionais ou estatais de entidades nacionais e internacionais.

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Com informações do BdF Pernambuco.

10 de junho de 2022

III Fórum Estadual dos Grêmios Estudantis fortalece atuação protagonista dos alunos

 

Prof. John Wile ao lado de gremistas da Escola de Educação Profissional Wellington Belém de Figueiredo em Fortaleza. (FOTO | Reprodução | Instagram).

O III Fórum Estadual dos Grêmios Estudantis foi encerrado, nesta quinta-feira (9), após a realização de vasta programação com a participação de lideranças estudantis de todo o Ceará. Com o tema “Juventudes e participação democrática – inspirando, engajando e agindo no cotidiano escolar”, o encontro teve palestras, mesas temáticas e apresentações culturais ao longo de dois dias, no Centro de Eventos do Ceará, em Fortaleza. O Fórum teve o objetivo de fortalecer a atuação protagonista dos alunos, por meio do diálogo e da participação nas decisões, de forma que possam contribuir ativamente com a gestão das unidades de ensino.

Liedson Alves, de 17 anos, é presidente do Grêmio da Escola Estadual de Educação Profissional (EEEP) Ícaro de Sousa Moreira, em Fortaleza, onde cursa a 1ª série do Ensino Médio técnico em Eventos. Na visão do jovem, a experiência no cargo tem sido inspiradora e desafiadora, com o conhecimento de habilidades como flexibilidade e escuta ativa dos colegas.

Eu queria ser protagonista dessa história. Não apenas ver, mas fazer acontecer. A escola sempre pode melhorar e considero muito importante poder dar a minha opinião, escutando também os outros estudantes, para conseguirmos juntos formar uma voz. A temática do evento é bastante precisa. Temos que saber o que é democracia e como exercê-la. Temos que saber o que queremos, para elevar o nível do nosso país”, ressalta Liedson.

Gestão participativa

Camile Lima, de 17 anos, cursa a 1ª série na Escola de Ensino Médio (EEM) Manuel Sátiro, em Jaguaruana. A jovem participa pela primeira vez de um Grêmio Estudantil e está tendo a oportunidade de exercer a função de tesoureira do grupo. Conforme a aluna, um dos aprendizados da experiência tem sido fazer com que os recursos sejam destinados para as áreas consideradas mais necessárias na escola.

Eu vi que, participando do Grêmio, poderia ajudar a melhorar a escola e contribuir com muitas ideias. Estou achando muito bom fazer parte dessa equipe, que tem bastante diálogo e procura resolver tudo o mais rápido possível. Todo dia a gente aprende coisa nova. Passamos dois anos em pandemia e ficamos muito distantes uns dos outros, então, esse evento é uma forma de começarmos a nos conectar novamente”, avalia Camile.

A secretária executiva do Ensino Médio e Profissional, Jucineide Fernandes, frisa que a mobilização em torno do protagonismo estudantil ocorre no dia a dia nas escolas, e não apenas durante o Fórum. “É muito importante que vocês sejam mobilizadores, no espaço escolar, dos valores importantes para a sociedade, como o respeito à diversidade, a solidariedade e o senso de coletividade. O pós-forum é o que vai fazer a grande diferença”, aponta a gestora.

Programação

O segundo dia do evento foi marcado pelas palestras “Como o engajamento jovem pode transformar sua escola?”, apresentada pela co-fundadora do Pacto Nacional das Juventudes pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), Lorena Stephanie; e “Desafios e possibilidades para os jovens no Brasil”, ministrada pelo ex-secretário nacional de Juventude, ex-presidente da Conjuve e gestor de implementação do Instituto Unibanco, Gabriel Medina.

O primeiro dia do Fórum teve palestras e mesas temáticas, que trouxeram ao debate questões como acessibilidade, inclusão e respeito às diferenças; relações étnico-raciais; gestão participativa; meio ambiente e sustentabilidade; cidadania digital e educomunicação; cultura maker e economia criativa; saúde mental e acolhimento.

Histórico

A primeira edição Fórum, em 2018, teve como temática “Grêmios Estudantis: (Re)Conhecendo espaços de atu(A)ção na comunidade escolar”. O encontro ocorreu no Centro de Eventos do Ceará e contou com a participação de representantes estudantis de todas as unidades escolares da rede pública estadual, tendo mais de 700 estudantes discutindo as possibilidades de fortalecimento da atuação dos Grêmios.

A segunda edição, em 2021, foi realizada de maneira virtual, devido à pandemia da covid-19 e trouxe o tema “Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) para a Educação Protagonista”. A programação do Fórum contou com webinários no Youtube e colóquios temáticos regionalizados.

Ceará Educa Mais

A realização do Fórum Estadual dos Grêmios Estudantis dialoga diretamente com as diretrizes do Programa Ceará Educa Mais. O programa, que reúne em lei os pilares da educação cearense, tem o objetivo de elevar o desempenho acadêmico dos estudantes da rede pública estadual de ensino, buscando a aquisição dos níveis de proficiência adequados a cada série/ano e também o desenvolvimento das competências socioemocionais necessárias à formação integral dos alunos. O programa está fundamentado em oito eixos: Aperfeiçoamento pedagógico; Desenvolvimento e Qualificação dos Professores; Avanço na Aprendizagem; Tempo Integral; Cuidado e Inclusão; Preparação para o Enem; Educação Conectada; e Qualificação Acadêmica e Profissional dos Estudantes.

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Com informações da Seduc CE.

9 de junho de 2022

Blog Negro Nicolau promoverá série de lives



Por Nicolau Neto, editor

O Blog Negro Nicolau implantará a partir do mês de julho mais um projeto. Depois da série "Personalidades Negras que Mudaram o Mundo", "#Altaneira60anos" e "Colunistas", agora são por meio das lives que as análises de temas importantes serão feitas.

Os encontros ocorrerão por meio do Instagram no perfil deste editor @_nicolauneto_. As conversas visam, sobretudo, contribuir para o protagonismo da juventude caririense. As três primeiras participações já estão definidas. Trata-se do Designer de Produto, José Márcio, residente em Nova Olinda e das estudantes do ensino médio, terceiro e segundo ano, respectivamente, do município de Potengi: Karolline Gonçalves e Luiza Severo.

No diálogo com Márcio, o tema será “Economia marginal e os lugares de empreendedorismo nas periferias e margens”; com Karolline o assunto versará sobre "O papel da escola na formação para a cidadania" e "As desigualdades de gênero e o papel do movimento feminista" terá como participante a Luiza Severo. Os diálogos iniciarão sempre as 19h30.

As datas também estão definidas e serão respectivamente: 08 de julho, 1º e 08 de agosto.

Movimentos sociais: Eleger os nossos e derrotar Bolsonaro

 

(FOTO |Reprodução | poder 360).


Por Alexandre Lucas, Colunista

A representação parlamentar, ainda, continua sendo estranha a diversidade e pluralidade do nosso povo. As eleições de 2018, atestam um perfil que vem se reproduzindo historicamente nas câmaras municipais, assembleias legislativas, Câmara Federal e Senado , que é de exclusão das vozes oriundas de uma perspectiva emancipatória para a classe trabalhadora. A Câmara Federal reflete essa realidade, dos 513 deputados eleitos, em 2018, 107 deputados são empresários, 78 advogados, 34 médicos, 16 pastores, 30 professores, 24 administradores, 21 engenheiros, 19 agropecuaristas, 11 economistas,  9  bacharel em direito, 8 delegados de polícia, 7 militares, 6 estudantes, 6 bancários, dentre outras profissões. 75% dos eleitos são brancos, 20,27% se declaram pardos, apenas 4,09% são pretos, 0,88% amarelos  e 0,19% indígena. 436 são homens e 77 são mulheres. Desses, 240 dos eleitos têm acima de 50 anos.

Essa caracterização sintetiza, reflete as relações de poder e aponta a classe dominante que decide os rumos do país, que é predominantemente representada por homens brancos e por um conservadorismo geracional.

Se considerarmos a bancada ligada à esquerda e o campo democrático composta pelo PT, PSB, PDT, PSOL, PV, REDE e PCdoB somaram em 2018, apenas 138 parlamentares.  O que demonstra a necessidade de ganhar musculatura política e alinhamento com os movimentos sociais.

Entretanto, as condições objetivas apresentam um cenário eleitoral decidido pelo poderio econômico, ou seja, uma base eleitoral que é resultado da compra indireta e direta de votos. Um exemplo clássico e legal da compra de votos na contemporaneidade é a chamada  contratação de “ativistas”. Quanto maior é a capacidade de contratação  desses “ativistas” maior a probabilidade de votos.

Neste panorama é evidente que não são as “boas ideias” que trazem bons resultados, mas o poder econômico que provoca a manutenção e o revezamento das elites do dinheiro.  Para se contrapor a essa conjuntura é preciso ganhar  capilaridade e base social, identidade e articulação política ampla.

Precisamos falar para além dos nossos pares e caminhar lado-a-lado nas frentes de lutas. Faz-se necessário romper com o isolamento e com a guetização. A batalha eleitoral deve ser percebida como parte da luta política da classe trabalhadora, não é um fim, mas uma extensão do processo de acumulação de forças para o processo de transformação social.       

É no cotidiano da luta política, na dimensão e compreensão do local e global que nossa força pode tomar outros contornos. Em momento algum podemos desprezar a necessidade das condições materiais para constituir as nossas frentes de confronto, tanto nos movimentos sociais como na disputa eleitoral.

É preciso conciliar norte político para emancipação da classe trabalhadora e tática que possibilite ocupação dos espaços políticos de poder como instrumentos estratégicos para a democratização da sociedade e construção de uma nova ordem política, econômica e social.

A disputa eleitoral deste ano se dará numa atmosfera polarizada entre a esquerda e a direita.  A chamada terceira via é um pavio curto que pode favorecer tanto a direita como a esquerda.

O que está em jogo neste momento para a classe trabalhadora é a derrota de Bolsonaro e do bolsonarismo. Além de destituir esse governo, temos um desafio maior que é ampliar a presença da esquerda e do campo democrático nas assembleias legislativas, governos estaduais, câmara e senado federal. Essa é uma matemática espinhosa e de difícil resolução.

Dois fatores apresentam um cenário desvantajoso para a esquerda e que devem estar no centro das análises políticas,  um que vem se configurando nos resultados eleitorais da história do Brasil que é o poderio econômico e o outro que é novo, a capilaridade popular da direita capitaneada pelos movimentos neopentecostais do país. Elemento definidor e impulsionador da vitória de Bolsonaro e do bolsonarismo nas eleições de 2018.

O tempo é curto, a situação não é favorável, a esquerda isolada e guetizada é um  pré-anúncio de derrota. Amplitude é uma bandeira ultra necessária para o momento,  por mais indesejável e desconfortável que seja, é o caminho para frear a marcha conservadora, reacionária e aniquiladora das conquistas da classe trabalhadora. A eleição se ganha com votos e não com discursos,  essa é uma condição objetiva e isso exige ampliar as forças e dividir o campo oposto.  Cuidemos para não cairmos no puritanismo ideológico ou no entusiasmo com a falsa ideia de mudança de lado da direita.  Essas eleições devem fazer parte da luta dos movimentos sociais, devemos eleger as candidaturas comprometidas com um projeto de nação para classe trabalhadora.