![]() |
| O professor Nicolau Neto durante palestra sobre educação antirracista na EEMTI Santa Tereza, em Altaneira. (FOTO | Acervo pessoal). |
Você já ouviu falar em “pedagogia do evento”? O termo critica a prática de abordar datas comemorativas do calendário escolar (como o Dia da Consciência Negra ou o Dia dos Povos Indígenas) de maneira pontual, sem integração ao currículo.
Em contraponto, o livro “Artes Urbanas, Culturas Afro-Diaspóricas e Educação”, da Alexa Cultural em parceria com a Editora da Universidade Federal do Amazonas, propõe uma pedagogia da presença e da continuidade, integrando esses saberes ao cotidiano da escola e às experiências reais dos estudantes.Disponível para download gratuito a obra é resultado de uma pesquisa realizada entre 2021 e 2023 que buscou responder a uma pergunta central: como transformar as leis 10.639/03 e 11.645/08, que tornam obrigatório o ensino da história e da cultura afro-brasileira, africana e indígena, em práticas pedagógicas vivas, para além das efemérides?
Do papel para a prática
O livro é organizado por Mônica do Amaral, professora da USP (Universidade de São Paulo), ao lado dos pesquisadores Renato Noguera e Maria da Glória Calado. A investigação reuniu equipes da USP, da UFRRJ (Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro), da UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) e da UFPB (Universidade Federal da Paraíba), com financiamento do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e colaboração de pesquisadores da UFPA (Universidade Federal do Pará).
A aposta central está nas docências compartilhadas como estratégia para reinventar o currículo e fortalecer uma educação antirracista conectada às realidades, culturas e experiências dos estudantes.
O que são docências compartilhadas?
A estratégia central do projeto é a docência compartilhada. Isso significa que as aulas não são dadas apenas pelo professor sozinho, mas em um esforço coletivo que envolve professores da escola pública, pesquisadores da universidade e artistas populares (como mestres de capoeira, rappers e contadores de histórias).
Diferentemente do modelo tradicional, as aulas são conduzidas a partir da articulação entre diferentes áreas do conhecimento acadêmico e saberes das matrizes culturais africanas, afro-brasileiras e indígenas.
Organizada em cinco partes, a coletânea reúne reflexões teóricas e relatos de práticas pedagógicas que vão da discussão sobre o epistemicídio (apagamento de saberes negros e indígenas) à apresentação de propostas didáticas concretas desenvolvidas no dia a dia das escolas.
De acordo com os organizadores, o objetivo é contribuir para a implementação efetiva e criativa da legislação, deslocando o currículo de uma perspectiva eurocêntrica e promovendo práticas educativas emancipatórias.
“A obra nasce de encruzilhadas, de encontros entre escolas públicas e universidades, entre periferias e centros, entre a oralidade dos becos e os silêncios das salas de aula. Elas demonstraram a importância da escuta e de um olhar atento à diversidade étnica e cultural dos estudantes, o que implica abrir-se ao que dizem os corpos, as vozes e os saberes que historicamente foram silenciados pelo projeto colonial de mundo. Um gesto ancestral que se atualiza no presente como parte fundamental de um projeto de renovação da educação pública deste país”, escrevem no prefácio do livro.
Exemplos nacionais
A pesquisa acompanhou projetos reais que mostram como essa educação funciona na prática:
Em São Paulo (capital e região metropolitana):
Na EMEF Professora Célia Regina Lekevicius Consolin, na Vila Maria, as docências compartilhadas articularam hip-hop, rap e filosofia iorubá ao ensino de geografia e história, com destaque para o trabalho com corporeidade e para o uso de letras de MC Soffia e Karol Conká em debates sobre história da África e empoderamento feminino.
Na EMEF Presidente Campos Salles, em Heliópolis, integradas ao projeto “Bairro Educador”, as ações envolveram turmas da EJA (Educação de Jovens e Adultos) e articularam letramento, capoeira e matemática, utilizando o jogo Mancala e conceitos da geometria africana.
Ainda na capital paulista, a EMEF Levy de Azevedo Sodré, no Capão Redondo, desenvolveu projetos como o “Hip-Hop Lab na Levy” e debates sobre feminismo hip-hop, mesclando linguagens como dança urbana (breaking), rimas e literatura.
Já a Escola Estadual Professor Mário Manoel Dantas de Aquino, em Ferraz de Vasconcelos, realizou batalhas de rima, diálogos inter-religiosos para enfrentar a intolerância religiosa e oficinas de química com extração de pigmentos naturais a partir de elementos ligados à capoeira.
Na EMEF Irineu Marinho, na Vila Prudente, a capoeira foi trabalhada como eixo pedagógico para alfabetização e letramento racial nos anos iniciais do ensino fundamental.
No Rio de Janeiro (Duque de Caxias):
Na Creche Escola Municipal Dr. Álvaro Alberto foi realizado o projeto “Escutas interseccionadas desde as infâncias”. As atividades envolveram grafite, fotografia, capoeira e contação de histórias, incluindo a ressignificação do personagem Saci a partir de uma perspectiva ancestral ligada a Exu.
Na Paraíba (João Pessoa):
A experiência foi desenvolvida na EEEM Doutor Otávio Novais por meio do projeto “Cursos de rio – formação e práticas no chão da escola”. As ações incluíram atividades sobre saberes quilombolas e ribeirinhos do Rio Gramame, círculos de leitura de literatura indígena na EJA e propostas que articularam matemática, símbolos Adinkra e poesia de Conceição Evaristo.
Em tempo......
No Ceará (Nova Olinda):
Não há possibilidade de construir uma educação antirracista sem a participação ativa de estudantes. Foi essa uma das bases da prática pedagógica afrocentrada Ensinafro, idealizada pelo professor Nicolau Neto, da EEMTI Padre Luís Filgueiras, e desenvolvida nas aulas de História (1º ao 3º ano) e de Sociologia (3º ano).
O Ensinafro dentro da EEMTI Padre Luís Filgueiras, única escola de ensino médio em tempo integral em Nova Olinda, no cariri cearense, nasceu em 2023 e consiste em trabalhar os conteúdos de História e Sociologia tendo como eixo central a perspectiva africana. Não se trata de abandonar as temáticas que já aparecem no livro, mas problematizá-la. Afinal, o currículo ainda é pautado pelo viés eurocêntrico.
Uma das consequências dessas vivências afrocentradas foi a mesa de diálogo construída somente por estudantes no Novembro Negro 2025 da EEMTI Padre Luís Filgueiras. Cícera Jamilly, Daniel Melo, Maria Edilaine e Vitor Feitosa, todos do 3º ano E, em uma troca permanente de saberes, discutiram para toda a comunidade escolar o tema “Educação Antirracista – um dever fazer coletivo” e defenderam veementemente a necessidade urgente do cumprimento das leis 10.639/2003 e 11.645/2008 em todas as áreas do conhecimento. Para tanto, afirmaram que o caminho mais acertado e talvez o único seja o do letramento racial e citaram o livro trabalhado em sala de aula pelo professor Nicolau Neto, o “Pacto da Branquitude”,da psicóloga Cida Bento. Nele, Cida afirma que há, no Brasil, entre pessoas brancas uma pactos narcísico da branquitude que, na verdade, é uma cumplicidade não verbalizada entre essas pessoas para manterem seus privilégios e isso se mantêm ao longo da História. “Esse pacto estruturou toda a nossa sociedade que passa a se espelhar no padrão não negro, disseram os estudantes.” Para elas/es, somente o letramento racial nas escolas é capaz de modificar isso. “Somente o letramento racial pode construir uma escola que destrua o racismo e isso passa por novas práticas pedagógicas em todas áreas de conhecimento”, destacaram.
--------------
Por Ana Luísa D'Maschio, no Porvir.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Ao comentar, você exerce seu papel de cidadão e contribui de forma efetiva na sua autodefinição enquanto ser pensante. Agradecemos a sua participação. Forte Abraço!!!