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A maior inimiga da sogra. (FOTO | Reprodução | WhatsApp). |
Por
César Pereira, Colunista
Era quase meio-dia quando soubemos que Maria Júlia tinha morrido após ter passado a pior noite desde que dona Neném a pegara em casa lá na cidade e a trouxera para instalar ali na roça, naquele sítio argiloso de barro vermelho onde ela morava com os filhos e o Chiquinho.
Maria Júlia tinha morrido ainda de madrugada, antes
da gente acordar, mas não soubemos nada até que dona Neném terminou o carreto
de água e regou os canteiros de cebolas e alhos, as panelas de losna e cravos,
os coqueiros, não soubemos mesmo de nada até quando ela terminou de pôr água
para as galinhas e encher os cochos no chiqueiro dos porcos e de dar água às
duas cabras.
Chiquinho também não sabia nada, pois fora despedido
pela mulher para campear lá longe na roça logo que o dia amanheceu. Por isso
ele também não serviu para nos informar daquela morte.
E mesmo depois de todo esse trabalho dona Neném ainda
teve tempo de catar o feijão, por a panela no fogo, mandar Dimas apanhar lenha
e pensar que como ainda era cedo poria também as roupas cagadas da madrinha de
molho no tanque para mais tarde terminar de enxaguar.
Fez tudo isto antes das oito da manhã e quando o sol
já ia alto se sentou no batente da porta da cozinha para beber a sua primeira
xícara de café preto. Bebeu-o muito tranquila, o líquido quente vibrando na
boca e a língua espessa e amarga, gostava do seu café assim, sem nenhum açúcar,
café áspero, insípido.
Enquanto engolia a bebida ela contemplava o
terreiro, olhando aquele barro duro e acidentado onde pontas de pedras apareciam
a espaços regulares, sempre que podia procurava impor limites ao monturo e ao
lixo, mas aí vinha a chuva e escavava tudo, vinha a chuva e a erva, o fedegoso
crescia e o caruru cresciam como pragas querendo nascer até no chão da cozinha.
Uma galinha se aproximou da porta e parou diante
dela observando-a com aquele sistema próprio das galinhas observarem as pessoas
sentadas. Observando assim de lado, revirando os olhos e esticando o pescoço. dona
Neném parou de beber o café e curvou-se para frente, quando o vento soprou com
mais força ela prendeu a saia entre as pernas, mas a galinha permaneceu parada
diante dela equilibrando-se num só pé. dona Neném segurou firme o umbral da
porta com uma das mãos, a galinha tinha asas, mas eram duas asas sem serventia.
— Quando as galinhas tinham deixado de voar — ela se
disse.
Então ouviu a panela de feijão derramando no fogo,
bebeu seu último gole de café e jogou o resto de líquido e pó sobre a galinha
que se assustou.
Quando soubemos que Maria Júlia vinha morar ali na
roça ficamos bestas. Não era de todo incompreensível a decisão tomada, pois
estando ela desenganada muito precisaria de cuidados, muito dependeria de
alguém que lhe assistisse a doença, administrasse os remédios, preparasse os
caldos, a canja ou o mingau.
Mas que essa missão recaísse sobre dona Neném?
Mais de um de nós duvidou que tal coisa acontecesse,
não por causa da dona Neném, esta nunca jamais negaria uma caridade, ainda mais
sendo uma parenta quem a solicitava. Duvidamos e bem duvidado era que Maria
Júlia se convencesse a vir morrer nos braços dela.
Que Maria Júlia sempre fora quizilenta, implicante,
impingente, sabíamos todos. Nunca perdoara dona Neném pelo Chiquinho. Pelo
roubo do Chiquinho. Detestara-a como noiva do filho e depois a odiara como
esposa dele. E não fazia segredo disso. Onde podia e quando podia aproveitava
sempre ocasião para distribuir aleivosias e maldades sobre dona Neném.
Odiava a nora convicta e publicamente. Maria Júlia
enquanto viveu trabalhou contra dona Neném. Nunca descansava na sua campanha de
inflamar o Chiquinho contra a esposa, contra a mãe dos seus netos. Saboreava
destilar o quanto pudesse de bílis e vitupérios contra ela.
Não fazia segredo pra ninguém, pois nunca quisera
aquele pretume pra mulher do seu Chiquinho, os filhos que eles tiveram, eram
mesmo que ver macacos, menos a menina mais nova que era bem parecida, mais
próxima do avô, a cor dos olhos e os cabelos também eram bons e assim se
salvara de ser pretinha também.
Nunca que soube de nada entre o Chiquinho e a Neném,
pois para ela era impossível que filho se enredasse com uma daquelas. Deixava
era que o Chiquinho aproveitasse bem enquanto não firmasse compromisso com
mulher séria. Fosse desfrutando todas, pois quem quisesse abrir as pernas pra
ele que aguentasse estrovenga e sebo, mas não viessem de lá depois com pateadas,
as sujas querendo salvaguardar suas sujidades com um loirinho.
E Chiquinho reinou enquanto pode. Maria Júlia o
criou quase sem pai e sem freios. Filho predileto da mãe, os outros que vieram
foram logo morrendo. Morriam sem vingar, sem nenhum amor pela vida. Um desses
quase chegou a viver, ainda recebeu um nome e batismo, mas um dia também
adoeceu e amanheceu morto. Chiquinho ficou sendo o único. O primeiro e o
derradeiro.
Depois cresceu e assim que o Chiquinho cresceu
compreendemos como Maria Júlia criara um parasito. Aquela mãe quem o fazia
assim, sevandijas, capadócio. Deu pra jogar e perder dinheiro no bacará,
apostava até nas rinhas de galo. Não respeitava moça de família e as casadas
papava todas. Famoso como o maior tarado da cidade. Pulava muros, escancarava
janelas. Mais de um marido tinha alvejado ele com disparos de sal.
— Meu filho é homem, tem força de homem, as cabritas
que se recolham ao chiqueiro e às éguas imponham cabresto e ferros. — Falava
Maria Júlia.
Um dia ele surgiu diante da mãe com a Neném.
— Esta é a minha noiva, nos dê sua bênção — disse
Chiquinho.
— O que me diz meu filho?
— A senhora não é surda — falou Chiquinho — bem sei
disso.
— Você mata sua mãe — disse Maria Júlia — com isso
não se brinca.
— Não estou brincando — falou Chiquinho.
— O que é isto então? — Perguntou Maria Júlia.
— Minha noiva, Neném. — Disse Chiquinho.
— E onde ela estava, essa beldade?
— Bem aqui, vizinha, é tua afilhada — disse
Chiquinho — é a filha da Rita Gorda.
— Sei muito bem quem ela é — disse Maria Júlia.
— Então estamos de acordo? — Perguntou Chiquinho.
— Não com a minha bênção — disse Maria Júlia.
Casaram e Maria Júlia nada pode contra o enlace e
também nada pode fazer quando Chiquinho se instalou com a Neném dentro de casa.
A casa sendo dele mais que da mãe, pois herdara do pai e se a mãe ali vivia era
mais como moradora dele que proprietária do imóvel. Calou-se Maria Júlia e
recebeu os noivos em lua-de-mel.
Instalou Neném e Chiquinho no quarto de casal onde
dormira com o marido e passou a morar nos fundos da casa, num antigo quarto de
despejos que ela fez limpar. Dali Maria Júlia se obrigou a conviver com dona
Neném enquanto preparava-se para o combate, pois estava claro que não se
rendera nem jamais se renderia diante de tamanho absurdo de ver o filho em
consórcio com a monga.
Precisava agir, pois quando começassem a nascer os mulatinhos
estaria perdida, e já se imaginava perseguida pelos macaquinhos se agarrando
nas suas saias clamando pelos bubuios da avozinha.
Cuspiu no chão com nojo e depois foi chamar a Rúbia
pra morar com ela.
— Sempre gostei dessa menina, pois é filha do meu
irmão Aldo. — Disse Maria Júlia — meu sangue, nosso sangue, vai me fazer
companhia.
— Mas e a Neném, minha mãe?
— Não é minha filha, é tua mulher. Ela cuida de
você.
— Você não devia ter trazido essa — disse Chiquinho.
— Tem medo de quê? — ? — Cuide de sua mulher, da
minha vida eu cuido.
No começo não desconfiamos do projeto de Maria
Júlia, pois como precisava da Rúbia pra tudo, pra lavrar, passar, cozinhar e
até por sua comida no prato, era mesmo um favor que fazia protegendo aquela
sobrinha.
Mas a prima que era loira entrou na casa e também na
cabeça do Chiquinho. Este começou resistindo a presença da prima o dia todo
ali, diante dele, cruzando com ele no corredor, entrando pelo quarto com a
desculpa de limpar os móveis, espanar as teias de aranha, arrumar as camas. Resistiu,
mas não resistiu muito. Aproveitou dona Neném lá no quintal estendendo roupa no
coradouro e arrastou a Rúbia para a cama, deitou-a, despiu-lhe as coxas e fez o
que precisava fazer.
Quando acabou saiu para a rua e só voltou de tarde,
encontrou Maria Júlia feliz na sala com as pernas estiradas sobre a mesinha de
centro se abanando e bebendo refresco. Rúbia ao pé dela lia uma revista velha.
Entrou em casa, olhou a prima, a mãe já sabia de tudo e dizia em silêncio que
ficasse descansado que era aquilo mesmo, natureza de homem, e sendo a Rúbia
quem era ela fazia muito gosto que os dois fossem se gostando e se entendendo.
dona Neném vivia no inferno. Tia e sobrinha
conjuradas contra ela e o Chiquinho pagando de rapaz solteiro, não era segredo
que dividia a cama com a Rúbia, a sogra pusera a rapariga do filho dentro de
casa.
Com a barriga crescendo dona Neném pensou e decidiu
que não queria que a filha nascesse ali, o marido que se decidisse, era
segui-la para onde ela fosse ou abandonar-se aos anéis da sucuriju. Podia ficar
com a prima loira, mas a liberasse de compromisso com ele.
Ouvindo os rogos de Maria Júlia.
— Meu Deus, pra quê isso? — Disse ela no dia que o
filho anunciou.
— Vamos morar na roça.
— Uma casa tão grande. Uma casa que é sua, meu filho
—? — Isso são ideias dela.
Vieram morar na roça, no sítio onde ainda estão
hoje. Mas nem assim Maria Júlia deixou-se vencer. Perpetuamente em guerra
contra dona Neném, manteve o quanto pode a Rúbia dentro de casa na esperança de
que o Chiquinho se enganchasse de todo na prima. Mas ali o filho gozava da
rapariga para depois regressar ao convívio do lar.
Quando Rúbia desenganou do primo e se casou com
outro pensamos que enfim Maria Júlia abrandaria, pois com três netos e já bem
velha era indigno dela continuar com aquela campanha contra a nora.
Mas logo vimos que ainda não estava pronta para se
render.
Passou a sugerir que não acreditava na paternidade
do Chiquinho. Nunca que os macaquinhos da monga seus netos, pois ela podia
provar que o filho era maninho, sabia que o que ele vertia não produzia
rebento. Aqueles lá todos, filhos de um ou de outro, vai lá se saber de quem.
Dona Neném soube, mas calou-se, sabia bem quem era o
pai dos seus filhos, não tinha obrigação de provar nada.
No dia em que soubemos que Maria Júlia estava doente
pensamos que ela chamaria a Rúbia para os cuidados, até parece que se lembrou
de chamar, mas Rúbia nem disse que vinha nem que não vinha, então acabou não
vindo. Como Rúbia não veio cuidar da tia
nenhuma outra parenta também o quis e assim Maria Júlia se acabaria sozinha.
Morreria sem vela na mão não fosse dona Neném. Vimos
quando dona Neném veio à casa e pegou Maria Júlia e levou-a pra roça. Que a
madrinha não se melindrasse, tinha bastante força e coragem para tratar dela,
então como poderia pensar que ela abandonaria a mãe do Chiquinho quando ela
mais precisava de uma ajuda?
E assim testemunhamos como nos últimos meses dona
Neném cuidou da sogra com desvelos de filha. Enquanto o cancro roía a madrinha
amparava-lhe a fome e as dores. Administrava os remédios pontualmente, cozinhava
os caldos e as canjas, até quando a madrinha parou de comer e beber ela nem
assim desistiu, fazia-a beber e comer o mínimo que ela pudesse dando-lhe o
alimento e a água a colheradas. Nenhum de nós podia jamais acreditar que uma
nora tão martirizada pela sogra se entregasse com tal solicitude e mansidão ao
exercício de abrandar as dores de uma velha consumida pelo tumor.
Na noite em que o linfonodo extravasou para fora da
boca de Maria Júlia e o horror tomou conta de quantos de nós assistia a cena, dona
Neném se sentou na beira da cama e espalmou as mãos sobre o rosto da moribunda,
acariciou aquela face envilecida e crispada pela dor, depois afastou os fiapos
de cabelos de Maria Júlia para os lados, inclinou-se enfim sobre a sogra,
sorriu para a madrinha e depois sussurrou-lhe ao ouvido.
César Maria Francisco,
30-08-2025
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