31 de agosto de 2025

A maior inimiga da sogra

 

A maior inimiga da sogra. (FOTO | Reprodução | WhatsApp).

Por César Pereira, Colunista

Era quase meio-dia quando soubemos que Maria Júlia tinha morrido após ter passado a pior noite desde que dona Neném a pegara em casa lá na cidade e a trouxera para instalar ali na roça, naquele sítio argiloso de barro vermelho onde ela morava com os filhos e o Chiquinho.

Maria Júlia tinha morrido ainda de madrugada, antes da gente acordar, mas não soubemos nada até que dona Neném terminou o carreto de água e regou os canteiros de cebolas e alhos, as panelas de losna e cravos, os coqueiros, não soubemos mesmo de nada até quando ela terminou de pôr água para as galinhas e encher os cochos no chiqueiro dos porcos e de dar água às duas cabras.

Chiquinho também não sabia nada, pois fora despedido pela mulher para campear lá longe na roça logo que o dia amanheceu. Por isso ele também não serviu para nos informar daquela morte.

E mesmo depois de todo esse trabalho dona Neném ainda teve tempo de catar o feijão, por a panela no fogo, mandar Dimas apanhar lenha e pensar que como ainda era cedo poria também as roupas cagadas da madrinha de molho no tanque para mais tarde terminar de enxaguar.

Fez tudo isto antes das oito da manhã e quando o sol já ia alto se sentou no batente da porta da cozinha para beber a sua primeira xícara de café preto. Bebeu-o muito tranquila, o líquido quente vibrando na boca e a língua espessa e amarga, gostava do seu café assim, sem nenhum açúcar, café áspero, insípido.

Enquanto engolia a bebida ela contemplava o terreiro, olhando aquele barro duro e acidentado onde pontas de pedras apareciam a espaços regulares, sempre que podia procurava impor limites ao monturo e ao lixo, mas aí vinha a chuva e escavava tudo, vinha a chuva e a erva, o fedegoso crescia e o caruru cresciam como pragas querendo nascer até no chão da cozinha.

Uma galinha se aproximou da porta e parou diante dela observando-a com aquele sistema próprio das galinhas observarem as pessoas sentadas. Observando assim de lado, revirando os olhos e esticando o pescoço. dona Neném parou de beber o café e curvou-se para frente, quando o vento soprou com mais força ela prendeu a saia entre as pernas, mas a galinha permaneceu parada diante dela equilibrando-se num só pé. dona Neném segurou firme o umbral da porta com uma das mãos, a galinha tinha asas, mas eram duas asas sem serventia.

— Quando as galinhas tinham deixado de voar — ela se disse.

Então ouviu a panela de feijão derramando no fogo, bebeu seu último gole de café e jogou o resto de líquido e pó sobre a galinha que se assustou.

Quando soubemos que Maria Júlia vinha morar ali na roça ficamos bestas. Não era de todo incompreensível a decisão tomada, pois estando ela desenganada muito precisaria de cuidados, muito dependeria de alguém que lhe assistisse a doença, administrasse os remédios, preparasse os caldos, a canja ou o mingau.

Mas que essa missão recaísse sobre dona Neném?

Mais de um de nós duvidou que tal coisa acontecesse, não por causa da dona Neném, esta nunca jamais negaria uma caridade, ainda mais sendo uma parenta quem a solicitava. Duvidamos e bem duvidado era que Maria Júlia se convencesse a vir morrer nos braços dela.

Que Maria Júlia sempre fora quizilenta, implicante, impingente, sabíamos todos. Nunca perdoara dona Neném pelo Chiquinho. Pelo roubo do Chiquinho. Detestara-a como noiva do filho e depois a odiara como esposa dele. E não fazia segredo disso. Onde podia e quando podia aproveitava sempre ocasião para distribuir aleivosias e maldades sobre dona Neném.

Odiava a nora convicta e publicamente. Maria Júlia enquanto viveu trabalhou contra dona Neném. Nunca descansava na sua campanha de inflamar o Chiquinho contra a esposa, contra a mãe dos seus netos. Saboreava destilar o quanto pudesse de bílis e vitupérios contra ela.

Não fazia segredo pra ninguém, pois nunca quisera aquele pretume pra mulher do seu Chiquinho, os filhos que eles tiveram, eram mesmo que ver macacos, menos a menina mais nova que era bem parecida, mais próxima do avô, a cor dos olhos e os cabelos também eram bons e assim se salvara de ser pretinha também.

Nunca que soube de nada entre o Chiquinho e a Neném, pois para ela era impossível que filho se enredasse com uma daquelas. Deixava era que o Chiquinho aproveitasse bem enquanto não firmasse compromisso com mulher séria. Fosse desfrutando todas, pois quem quisesse abrir as pernas pra ele que aguentasse estrovenga e sebo, mas não viessem de lá depois com pateadas, as sujas querendo salvaguardar suas sujidades com um loirinho.

E Chiquinho reinou enquanto pode. Maria Júlia o criou quase sem pai e sem freios. Filho predileto da mãe, os outros que vieram foram logo morrendo. Morriam sem vingar, sem nenhum amor pela vida. Um desses quase chegou a viver, ainda recebeu um nome e batismo, mas um dia também adoeceu e amanheceu morto. Chiquinho ficou sendo o único. O primeiro e o derradeiro.

Depois cresceu e assim que o Chiquinho cresceu compreendemos como Maria Júlia criara um parasito. Aquela mãe quem o fazia assim, sevandijas, capadócio. Deu pra jogar e perder dinheiro no bacará, apostava até nas rinhas de galo. Não respeitava moça de família e as casadas papava todas. Famoso como o maior tarado da cidade. Pulava muros, escancarava janelas. Mais de um marido tinha alvejado ele com disparos de sal.

— Meu filho é homem, tem força de homem, as cabritas que se recolham ao chiqueiro e às éguas imponham cabresto e ferros. — Falava Maria Júlia.

Um dia ele surgiu diante da mãe com a Neném.

— Esta é a minha noiva, nos dê sua bênção — disse Chiquinho.

— O que me diz meu filho?

— A senhora não é surda — falou Chiquinho — bem sei disso.

— Você mata sua mãe — disse Maria Júlia — com isso não se brinca.

— Não estou brincando — falou Chiquinho.

— O que é isto então? — Perguntou Maria Júlia.

— Minha noiva, Neném. — Disse Chiquinho.

— E onde ela estava, essa beldade?

— Bem aqui, vizinha, é tua afilhada — disse Chiquinho — é a filha da Rita Gorda.

— Sei muito bem quem ela é — disse Maria Júlia.

— Então estamos de acordo? — Perguntou Chiquinho.

— Não com a minha bênção — disse Maria Júlia.

Casaram e Maria Júlia nada pode contra o enlace e também nada pode fazer quando Chiquinho se instalou com a Neném dentro de casa. A casa sendo dele mais que da mãe, pois herdara do pai e se a mãe ali vivia era mais como moradora dele que proprietária do imóvel. Calou-se Maria Júlia e recebeu os noivos em lua-de-mel.

Instalou Neném e Chiquinho no quarto de casal onde dormira com o marido e passou a morar nos fundos da casa, num antigo quarto de despejos que ela fez limpar. Dali Maria Júlia se obrigou a conviver com dona Neném enquanto preparava-se para o combate, pois estava claro que não se rendera nem jamais se renderia diante de tamanho absurdo de ver o filho em consórcio com a monga.

Precisava agir, pois quando começassem a nascer os mulatinhos estaria perdida, e já se imaginava perseguida pelos macaquinhos se agarrando nas suas saias clamando pelos bubuios da avozinha.

Cuspiu no chão com nojo e depois foi chamar a Rúbia pra morar com ela.

— Sempre gostei dessa menina, pois é filha do meu irmão Aldo. — Disse Maria Júlia — meu sangue, nosso sangue, vai me fazer companhia.

— Mas e a Neném, minha mãe?

— Não é minha filha, é tua mulher. Ela cuida de você.

— Você não devia ter trazido essa — disse Chiquinho.

— Tem medo de quê? — ? — Cuide de sua mulher, da minha vida eu cuido.

No começo não desconfiamos do projeto de Maria Júlia, pois como precisava da Rúbia pra tudo, pra lavrar, passar, cozinhar e até por sua comida no prato, era mesmo um favor que fazia protegendo aquela sobrinha.

Mas a prima que era loira entrou na casa e também na cabeça do Chiquinho. Este começou resistindo a presença da prima o dia todo ali, diante dele, cruzando com ele no corredor, entrando pelo quarto com a desculpa de limpar os móveis, espanar as teias de aranha, arrumar as camas. Resistiu, mas não resistiu muito. Aproveitou dona Neném lá no quintal estendendo roupa no coradouro e arrastou a Rúbia para a cama, deitou-a, despiu-lhe as coxas e fez o que precisava fazer.

Quando acabou saiu para a rua e só voltou de tarde, encontrou Maria Júlia feliz na sala com as pernas estiradas sobre a mesinha de centro se abanando e bebendo refresco. Rúbia ao pé dela lia uma revista velha. Entrou em casa, olhou a prima, a mãe já sabia de tudo e dizia em silêncio que ficasse descansado que era aquilo mesmo, natureza de homem, e sendo a Rúbia quem era ela fazia muito gosto que os dois fossem se gostando e se entendendo.

dona Neném vivia no inferno. Tia e sobrinha conjuradas contra ela e o Chiquinho pagando de rapaz solteiro, não era segredo que dividia a cama com a Rúbia, a sogra pusera a rapariga do filho dentro de casa.

Com a barriga crescendo dona Neném pensou e decidiu que não queria que a filha nascesse ali, o marido que se decidisse, era segui-la para onde ela fosse ou abandonar-se aos anéis da sucuriju. Podia ficar com a prima loira, mas a liberasse de compromisso com ele.

Ouvindo os rogos de Maria Júlia.

— Meu Deus, pra quê isso? — Disse ela no dia que o filho anunciou.

— Vamos morar na roça.

— Uma casa tão grande. Uma casa que é sua, meu filho —? — Isso são ideias dela.

Vieram morar na roça, no sítio onde ainda estão hoje. Mas nem assim Maria Júlia deixou-se vencer. Perpetuamente em guerra contra dona Neném, manteve o quanto pode a Rúbia dentro de casa na esperança de que o Chiquinho se enganchasse de todo na prima. Mas ali o filho gozava da rapariga para depois regressar ao convívio do lar.

Quando Rúbia desenganou do primo e se casou com outro pensamos que enfim Maria Júlia abrandaria, pois com três netos e já bem velha era indigno dela continuar com aquela campanha contra a nora.

Mas logo vimos que ainda não estava pronta para se render.

Passou a sugerir que não acreditava na paternidade do Chiquinho. Nunca que os macaquinhos da monga seus netos, pois ela podia provar que o filho era maninho, sabia que o que ele vertia não produzia rebento. Aqueles lá todos, filhos de um ou de outro, vai lá se saber de quem.

Dona Neném soube, mas calou-se, sabia bem quem era o pai dos seus filhos, não tinha obrigação de provar nada.

No dia em que soubemos que Maria Júlia estava doente pensamos que ela chamaria a Rúbia para os cuidados, até parece que se lembrou de chamar, mas Rúbia nem disse que vinha nem que não vinha, então acabou não vindo.  Como Rúbia não veio cuidar da tia nenhuma outra parenta também o quis e assim Maria Júlia se acabaria sozinha.

Morreria sem vela na mão não fosse dona Neném. Vimos quando dona Neném veio à casa e pegou Maria Júlia e levou-a pra roça. Que a madrinha não se melindrasse, tinha bastante força e coragem para tratar dela, então como poderia pensar que ela abandonaria a mãe do Chiquinho quando ela mais precisava de uma ajuda?

E assim testemunhamos como nos últimos meses dona Neném cuidou da sogra com desvelos de filha. Enquanto o cancro roía a madrinha amparava-lhe a fome e as dores. Administrava os remédios pontualmente, cozinhava os caldos e as canjas, até quando a madrinha parou de comer e beber ela nem assim desistiu, fazia-a beber e comer o mínimo que ela pudesse dando-lhe o alimento e a água a colheradas. Nenhum de nós podia jamais acreditar que uma nora tão martirizada pela sogra se entregasse com tal solicitude e mansidão ao exercício de abrandar as dores de uma velha consumida pelo tumor.

Na noite em que o linfonodo extravasou para fora da boca de Maria Júlia e o horror tomou conta de quantos de nós assistia a cena, dona Neném se sentou na beira da cama e espalmou as mãos sobre o rosto da moribunda, acariciou aquela face envilecida e crispada pela dor, depois afastou os fiapos de cabelos de Maria Júlia para os lados, inclinou-se enfim sobre a sogra, sorriu para a madrinha e depois sussurrou-lhe ao ouvido.

César Maria Francisco,

30-08-2025

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