2 de março de 2022

Linguagem neutra é fator de inclusão social e não pode sofrer censura, diz MPF

(FOTO/ Reprodução).

A chamada linguagem neutra é fator de inclusão, afirma a Procuradoria Federal dos Direitos do Cidadão (PFDC), vinculada ao Ministério Público Federal (MPF). De acordo com nota técnica divulgada pela entidade, “a vedação ao uso da linguagem inclusiva, além de transbordar os limites das ciências sociais e linguísticas, incorre em patente inconstitucionalidade e inconvencionalidade, por indevida censura prévia, cerceamento ao direito à igualdade e à liberdade, especialmente de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber, merecendo veemente repúdio”.

O documento é assinado pelo titular da Procuradoria, Carlos Alberto Vilhena, e pelo coordenador do grupo de trabalho “População LGBTI+: Proteção de Direitos”, Lucas Costa Almeida Dias. “Os adeptos da linguagem neutra entendem que uma língua que toma o masculino como regra e o feminino como exceção é perfeita para a perpetração dos estereótipos de gênero, reforçando a exclusão das mulheres e também de indivíduos de gênero não binário, isto é, que não se identificam nem como homens nem como mulheres”, diz a nota.

A PFDC lembra ainda que estados como Rondônia e Santa Catarina editaram normas que visam proibir, “de maneira contundente”, o uso da linguagem neutra. A Secretaria Especial de Cultura, do governo federal, também editou portaria nesse sentido. E há um projeto de lei (PL 5.198/2020) que veda “novas formas de flexão de gênero e de número das palavras da língua portuguesa”.

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Com informações da RBA.

1 de março de 2022

Conflitos e tensões na África impactam a vida de milhares de pessoas

 

(FOTO/ ONU).

A disputa militar entre o governo russo e a Ucrânia entra no sexto dia, envolve a soberania em territórios e fronteiras. O conflito é semelhante, em muitos aspectos, aos principais confrontos bélicos e ameaças de guerra em curso atualmente em alguns dos países do continente africano.

Diferentemente do que acontece no leste europeu, onde o conflito chamou a atenção do planeta, fez a ONU (Organizações das Nações Unidas) convocar uma reunião emergencial do do Conselho de Segurança e gerou medidas inéditas de compras de armas pela União Européia, os conflitos nos países africanos têm pouco espaço na agenda midiáticas e seus desdobramentos não causam repercussão global, apesar de afetar diretamente milhões de pessoas.

Boa parte dos conflitos atuais no continente africano tem origem nas guerras de independência que resultaram de longos períodos de exploração colonial, por parte de países europeus, e em tentativas externas de desestabilizar os governos locais. Confira algumas das áreas com situação política em alerta na região:

Etiópia

Desde novembro de 2020, na região de Tigray acontecem conflitos entre o governo e um movimento de independência, liderado por uma frente de libertação local.

A Etiópia também tem disputas territoriais com o Sudão, na região de al-Fashqa. Além disso, há uma tensão política com o Egito por conta da construção de uma hidrelétrica etíope no rio Nilo, em território da Etiópia, perto da fronteira do Sudão. A produção de energia na hidrelétrica começou em fevereiro de 2022.

Egito e Sudão temem que ocorra uma crise hídrica por conta da barragem construída pela Etiópia. Os dois países fizeram exercícios militares em conjunto no ano de 2021. Esses exercícios de guerra foram chamados de Operação Guardiões do Nilo.

Somália e Quênia

Desde 2014, a Somália e o Quênia discutem a soberania e uma nova divisão de fronteira entre os dois países numa região pesqueira, no litoral do Oceano Índico, onde também existe petróleo e gás natural. O conflito também é agravado porque o Quênia apoiou o movimento de independência do Estado de Jubalândia, na Somália. No mês de janeiro, nove pessoas morreram por conta de conflitos de milícias separatistas e tropas do exército na região.

Burkina Fasso

Em janeiro deste ano, o Movimento Patriótico pela Salvaguarda e Restauração (MPSR), do líder militar Paul-Henri Sandaogo Damiba, assumiu o controle do país ao derrubar o governo do presidente Roch Kaboré, que estava no poder desde dezembro de 2015.

Cerca de 50 soldados foram mortos nos últimos quatro meses durante confronto com grupos extremistas em várias regiões do país. Milhares de civis deixaram o país por medo dos conflitos.

Mali

No dia 3 de dezembro do ano passado, um ataque feito por um grupo armado contra um ônibus deixou 31 pessoas mortas na cidade de Mopti. O ataque terrorista foi uma resposta às tentativas do governo de conter uma tentativa de golpe militar promovido por grupos extremistas.

Em dez anos, entre 2012 e 2022, Mali passou por três golpes de Estado. Os conflitos entre as milícias no norte do país se espalham para regiões no Níger e em Burkina Fasso.

Burundi

O país no Sul de Ruanda passou por uma guerra civil nos últimos dois anos. Os conflitos internos diminuíram em junho do ano passado, quando o líder militar Evariste Ndayishimiye foi eleito presidente. A pandemia e o aumento da fome provocaram a retomada de conflitos entre grupos extremistas na região.

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Com informações da Alma Preta.

27 de fevereiro de 2022

Pinturas de Abdias do Nascimento mostra experiência negra na América

 

“Cristo Negro”, pintura de Abdias. (FOTO/ Reprodução redes sociais).

Abdias Nascimento: um artista panamefricano” é o tema da maior exposição já feita dedicada ao intelectual, ativista político, dramaturgo, ator, escritor e diretor que está em cartaz no MASP (Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand), na capital paulista. Reunindo 62 pinturas, desde o início de sua produção em 1968 até o ano de 1998, a mostra enfatiza o repertório de Abdias a partir de ideias, cores e formas do movimento pan-africanista, com noções, fontes e imaginário ladino-amefricano (termo cunhado por Lélia Gonzalez (1935-1994), amiga e interlocutora política e intelectual do artista e formuladora do conceito de amefricanidade, para se referir à experiência negra na América Latina.

A exposição retoma conceitos formulados por Nascimento, como o quilombismo, para destacar o projeto de transformação social sobre bases que retomam a experiência dos quilombos. O artista materializou seu pensamento também na pintura homônima, presente na exposição e visualmente representada pela união do tridente de Exu aos ferros de Ogum, divindades iorubás que se popularizaram no Brasil, com a umbanda e o candomblé. 

Parte das pinturas da mostra apresenta ao público a pesquisa de Nascimento sobre símbolos e bandeiras de projetos e identidades nacionais, que podem ser lidas de uma perspectiva simultaneamente pan-africanista e amefricanista. Além disso, as obras também associam orixás à abstração geométrica, formas livres a símbolos africanos como os adinkras, além de explorarem gêneros mais tradicionais, como paisagens e retratos. Os trabalhos “Okê Oxóssi” e “Xangô”, ambos de 1970, por exemplo, estabelecem paralelos entre representações do Brasil e dos Estados Unidos por meio de uma recomposição de símbolos nacionais, mais especificamente os elementos de suas bandeiras. 

Com curadoria de Amanda Carneiro, curadora assistente, e Tomás Toledo, curador-chefe do MASP, a exposição está aberta à visitação do público até o 5 de junho de 2022, ocupando os espaços da galeria e do mezanino do local. É uma das mostras do biênio dedicado às Histórias Brasileiras no museu, desta vez com apoio cultural do IPEAFRO, instituição fundada em 1981 pelo artista e responsável por seu acervo. 
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Com informações do Notícia Preta.

Imprensa cobre guerra da Ucrânia com “release único” divulgado por Washington

 

Avião atingindo Kiev. (FOTO/ Reprodução).

Na guerra, a primeira vítima é a verdade”. Autoria desconhecida

A cobertura que a mídia hegemônica faz da crise na Ucrânia é alarmantemente viciada, além de claramente racista e preconceituosa.

Os meios de comunicação em todo mundo são meros repetidores dos mantras russofóbicos fabricados em Washington para instrumentalizar a guerrilha geopolítica e ideológica das “forças do bem”, a civilização ocidental, contra a “força do mal” – os russos, caucasianos e eurasiáticos.

Em geral, a mídia não só é subserviente ao “release único” escrito em Washington, como também é indigente e desonesta. Além de omitir aspectos étnicos, históricos e culturais dos povos eslavos, também mente, estigmatiza Putin e falsifica a história.

Na reprodução do noticiário e através de comentaristas vulgares, despreparados ou mal-intencionados, a mídia hegemônica segue omitindo, por exemplo, os antecedentes históricos da crise atual, que se localizam na farsesca revolução Maidan, que desembocou no golpe financiado pelos EUA para derrubar o governo pró-russo de Viktor Yanukovytch em 2014.

A mídia continua escondendo, também, que a Ucrânia descumpriu o Protocolo de Minsk, assinado por representantes reconhecidos das repúblicas independentes de Donetsk e Luhansk e o governo ucraniano com a fiança institucional da própria União Europeia.

E os meios de comunicação a serviço de Washington continuam omitindo o perfil neonazista do presidente da Ucrânia Volodymyr Zelensky e dos agrupamentos de ultradireita extremista que apoiam o governo.

É cada vez mais conhecida a conexão entre a ultradireita neonazista ucraniana e os grupos fascistas e neonazistas no mundo e, também, com o bolsonarismo – Sara Winter e “Os 300 do Brasil”. Mas, inclusive isso também é sonegado.

Os EUA exercem sua primazia e hegemonia informacional e comunicacional no mundo por meio do pensamento único deste jornalismo de guerra. Um jornalismo sem compromisso com a verdade factual e histórica.

Nas últimas semanas, houve a escalada desta guerra informacional para criminalizar e demonizar o presidente russo Vladimir Putin e incensar o papel dos EUA e da OTAN.

Neste jornalismo de guerra, todos os veículos hegemônicos no Brasil – absolutamente todos, é preciso sublinhar – repetiram como papagaios o viés de análise de Washington. Não ficou de fora nem mesmo um único veículo de nenhum meio de transmissão – nas rádios, TVs, redes sociais e portais da internet.

Somente os portais da mídia independente estão desde o início da crise reportando os acontecimentos desde uma perspectiva abrangente e aberta. Não fossem estes veículos contra-hegemônicos de informação e comunicação, a população brasileira seria totalmente entorpecida com o pensamento único russofóbico.

Em semanas de crise, pela primeira vez apareceu em um veículo da mídia hegemônica uma abordagem dissonante do pensamento único. Aconteceu só agora, nesta sexta-feira, 25/2. O portal UOL publicou entrevista em que o analista político estadunidense Andrew Korybko afirma que “o Brasil e a Ucrânia foram ambos vitimados pelas guerras híbridas dirigidas pelos Estados Unidos com o objetivo de fortalecer a hegemonia unipolar norte-americana”.

Da mesma maneira que a Ucrânia rapidamente deverá assinar a rendição a Moscou, a mídia hegemônica se verá obrigada a se render às exigências de um jornalismo plural e honesto, se quiser sobreviver no mundo multipolar que começa nascer.

Caso contrário, será enterrada junto com os escombros da ordem unipolar e imperial que está morrendo.

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Por Jeferson Miola, em seu Blog.

Programa um milhão de cisternas sofre com cortes do governo federal

 

De 2020 para 2021, o programa "1 Milhão de Cisternas", do Governo Federal, sofreu um corte de cerca de 94%. (FOTO/ ASA Brasil).

Em muitos lares do semiárido, ter água em casa é um privilégio. O clima é marcado por altas temperaturas e chuvas irregulares, o que deixa a região sob-risco constante de escassez hídrica. No Brasil, a região ocupa 12% do território nacional e abriga cerca de 28 milhões de habitantes, é um dos semiáridos mais povoados do mundo.

Sem nenhum rio perene, que corra durante o ano inteiro, a região apresenta o menor percentual de água reservada no país, algo em torno de 3%. Para lidar com essa realidade e mostrar que o êxodo não é a única saída para o sertanejo, a Articulação Semiárido Brasileiro (ASA), há mais de vinte anos vem desenvolvendo tecnologias de convivência esse clima.  Entre os exemplos está o programa que já construiu mais de 1 milhão de cisternas distribuídas pela região Nordeste e pelo Norte de Minas Gerais.

Alexandre Pires, coordenador executivo da ASA, conta como o Programa 1 Milhão de Cisternas (P1MC) impactou a população do semiárido: "o Programa de Cisternas rompe com um ciclo histórico que é o da dependência da população do carro pipa, da dependência da população rural do semiárido às vontades políticas e interesses políticos eleitorais. Então, o programa de cisternas mudou a cara do semiárido quando assegurou uma tecnologia simples, barata, de domínio popular, uma tecnologia social, que garantiu à população, através da captação de água das chuvas, ter água na porta de casa".

Pires explica ainda que o P1MC é uma iniciativa da sociedade civil, que o governo Lula acolheu como uma política pública capaz de resolver um problema secular, enfrentado pela população rural do semiárido, que é o de acesso à água: "Essa decisão política fez com que a gente conseguisse, num diálogo entre sociedade civil e governo, garantir que em 2016 chegássemos a 1,2 milhão de cisternas construídas".

As cisternas, além de água para beber e para o uso diário, armazenam também a possibilidade de geração de renda através da agricultura e pecuária familiar, impactando de forma significativa sobretudo na vida das mulheres. Como explica o coordenador executivo da ASA no Ceará, Marcos Jacinto: "era comum a imagem da mulher com a lata d'água na cabeça no nosso semiárido. Essa imagem ficou mais rara com a chegada do Programa 1 Milhão de Cisternas porque com ele a família tem na sua própria residência a água para consumo das pessoas e também para sua própria produção".

No Estado do Ceará, desde o início do programa, a meta era beneficiar 304 mil famílias. Desse total, 248 mil receberam a tecnologia, o que sinaliza que muitas outras ainda vivem num contexto de insegurança hídrica. Uma preocupação que se intensifica ainda mais num contexto de desmonte da política promovido pelo atual governo de Jair Bolsonaro.

 É o que denuncia Jacinto: "esse momento nos preocupa muito mais, porque nós sabemos que existe ainda um contingente muito grande de famílias no semiárido cearense, que ainda não tem acesso a água potável. Nós temos ainda cerca de 50 mil famílias que ainda não têm a tecnologia social de primeira água e nós estamos num momento em que o programa tem sido desmontado e está paralisado do ponto de vista de investimentos públicos federais".

E essa não é uma realidade só do Ceará, no país cerca de 350 mil famílias do semiárido ainda não dispõem da tecnologia. Nos últimos anos, o recurso federal destinado aos programas de convivência com o semiárido vem sofrendo sucessivos cortes. Em 2012, por exemplo, o P1MC teve o menor orçamento da história destinado ao programa.

"É difícil da gente compreender como uma política que tem tanto sucesso, mudou e transformou tanto a vida das pessoas no semiárido brasileiro, e em outras regiões semiáridas, é desestruturada por este governo. Quer dizer, eu digo que é difícil da gente compreender, mas a gente sabe que o governo Bolsonaro é um governo que não tem prioridade pela população mais pobre do nosso país, na verdade é um governo que tem prática genocida, uma prática que não atende as necessidades daqueles que mais precisam", enfatiza Alexandre.

Nossa reportagem entrou em contato com o Ministério do Desenvolvimento Regional para questionar sobre o corte, mas não obtivemos resposta até o fechamento da matéria. Para continuar o trabalho, a ASA está com uma campanha para levantar fundos para o programa. Intitulada 'Tenho Sede', a campanha já está dando resultado: agora em março, estão executando as 20 primeiras cisternas com dinheiro arrecadado. Para saber como ajudar, acesse o site tenhosede.org.br

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Com informações do Brasil de Fato CE.

26 de fevereiro de 2022

Ucrânia não é a única bombardeada: Somália, na África, também sofre ataque dos Estados Unidos

Somália, na África, sofreu ataque de drone dos Estados Unidos no início da semana; foto não corresponde ao ataque de 2022, mas sim a um de 2017 - Divulgação/Twitter.

O conflito na Ucrânia no leste europeu registrou uma série de bombardeios aéreos feitos pela Rússia nas últimas horas. Enquanto o mundo acompanha com atenção o avanço de tropas russas em território ucraniano, países como Síria, Somália e Iêmen também sofreram ataques aéreos - sob ofensivas de Israel, Estados Unidos e Arábia Saudita, respectivamente.

Pelo menos outros 28 países passam por conflitos ou registram combates armados neste início de 2022. A informação é do Projeto de Dados de Localização e Eventos de Conflitos Armados (Acled, na sigla em inglês), que analisou dados até 11 de fevereiro. O levantamento foi publicado pelo jornal Folha de S.Paulo na semana passada.

Apenas nesta semana, segundo os principais veículos jornalísticos internacionais, o governo de Israel matou seis combatentes pró-Síria pelo ar, os Estados Unidos lançaram um drone contra a Somália e a Arábia Saudita realizou ataques no Iêmen.

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Com informações do Brasil de Fato. Acesse o site e leia o texto completo.

25 de fevereiro de 2022

Herança do Tupi presente no português falado no Brasil

 

Padre José de Anchieta esteve entre os primeiros estudiosos da língua tupi. (FOTO/ Biblioteca Nacional).

Os povos que habitavam o território brasileiro antes da chegada dos primeiros colonizadores portugueses falavam cerca de mil línguas, segundo registros da Faculdade de Filosofia; Letras e Ciências da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP).

Além da riqueza linguística, a maioria deles, principalmente os que habitavam o litoral, onde se formaram as primeiras cidades do país, falava uma língua comum, o tupi antigo. Chamado de "língua brasílica" pelos portugueses, ele foi utilizado no Brasil durante séculos, por jesuítas, colonizadores e até bandeirantes.

Na verdade, os falantes do tupi antigo, assim como os do guarani – vale ressaltar que tupi-guarani não é uma língua, mas uma família de línguas indígenas –, iam muito além do Brasil e se espalhavam por um vasto território da América do Sul, na época da chegada dos europeus ao continente.

Dentro do Brasil, o tupi antigo apresentava variações linguísticas ao longo da costa. Os potiguares do Paraíba até os tamoios do Rio de Janeiro, por exemplo, pronunciavam inteiros os verbos acabados em consoante, enquanto os tupis de São Vicente não pronunciavam a última consoante. Mas eram variações próximas, que permitiram aos colonizadores identificarem uma unidade entre os povos.

Segundo o professor da FFLCH-USP Eduardo Navarro, atualmente um dos principais estudiosos da matéria, o tupi é considerado o idioma indígena clássico do Brasil, uma vez que "foi a única língua indígena, das centenas que foram faladas no país, que se fez representar significativamente no léxico da língua portuguesa".

Por isso, até hoje é possível encontrar milhares de palavras do tupi no dia a dia dos brasileiros, que vão desde nomes de alimentos (como abacaxi, mandioca, açaí, paçoca, pipoca), animais (capivara, tatu, arara, jacaré-açu, jabuti, perereca), cidades e estados (Pará, Paraná, Manaus, Sergipe, Maceió), rios (Xingu, Xapuri, Ipiranga), vegetação em geral (cipó, capim, jacarandá, samambaia) e até nomes próprios (Iracema, Iara, Araci, Jacira, Maiara).

O tupi antigo está presente até mesmo nos primórdios da literatura nacional, tendo, inclusive, duas gramáticas publicadas: uma em 1595, Arte de gramática da língua mais usada na costa do Brasil, de autoria do padre José de Anchieta, e outra de 1621, organizada pelo também jesuíta Luís Figueira.

Bandeirantes e cidades

Quem roda pelo Sudeste e Centro-Oeste brasileiros percebe a quantidade de cidades com nomes indígenas. Exemplos não faltam: Araçatuba, Bertioga, Itanhaém, Paraguaçu, Cuiabá, Niterói, Curitiba, Peruíbe, Pindamonhangaba, Taubaté, Ubatuba, Uberaba, Piracicaba, Piratininga, entre outras.

Isso porque outro personagem do período colonial que se valeu da língua tupi para se aproximar dos indígenas foram os bandeirantes, que indicavam com os nomes tupis as localidades por onde passavam.

"Noutra faceta, o tupi também serviu aos bandeirantes para melhor entenderem-se com os índios, que levavam escravizados para o desbravamento dos sertões, e por onde passavam as entradas e bandeiras, os portugueses iam denominando esses lugares com toponímias indígenas”, diz trecho de artigo da Universidade Federal do Rio de Janeiro Os tupinismos na formação do léxico português do Brasil, publicado em 2008 na Revista Philologus.

"Chorar as pitangas"

Diversas expressões utilizadas até hoje vieram da fusão do português dos colonizadores com o tupi antigo dos indígenas. Por serem resultado desse casamento linguístico e cultural, elas são chamadas de brasileirismos, ou "tupinismos” para alguns autores, expressões que existem apenas no português falado no Brasil.

Um dos exemplos mais conhecidos de brasileirismos é a expressão "chorar as pitangas”.

Segundo artigo da linguista Nancy Arakaki, a origem da expressão formada no Brasil pode ser bíblica, vindo, provavelmente, de trecho do Evangelho de Lucas em que o sofrimento de Jesus é retratado pelo "seu suor”, suor esse que "era como gotas de sangue que caíam no chão”. Mas não somente, uma vez que a expressão "lágrimas de sangue” já existia em Portugal.

O fato é que, segundo a linguista, os indígenas podem ter absorvido o significado da expressão, "lastimar-se", mas segundo os seus próprios códigos culturais: o sangue deu lugar à pitanga, fruta que ressalta a forma de uma lágrima e a cor do sangue.

"É interessante destacar que a expressão 'chorar pitangas' nos remete à ideia de eufemismo em relação a 'chorar lágrimas de sangue' porque lhe é atribuído um valor menor, menos doloroso que é o ato de lastimar-se, lamentar. Essa foi a imagem captada pelos índios num tempo de trocas culturais e vivências ora turbulentas, ora pacíficas e harmoniosas", escreveu Arakaki em Memória cultural e linguística do Brasil Colônia em ‘chorar as pitangas'.

brasileirismos usados até hoje são "ficar com nhenhenhém", "estar jururu", "ficar de tocaia", "parecer pamonha", "estar na pindaíba", "ir para a cucuia", além de outros.

Língua proibida

Segundo registros da biblioteca Brasiliana da USP, a língua brasílica, ou tupi antigo, foi usada por todos, brasileiros e estrangeiros, até meados do século 18.

Em 1758, porém, Marquês de Pombal, o primeiro-ministro de Portugal, publicou um decreto tornando o português o idioma oficial do Brasil, a "língua do rei", ao mesmo tempo em que proibiu o uso do tupi antigo e demais línguas faladas na colônia na época, como as africanas.

Já era tarde, contudo: o tupi já havia se ramificado pelos costumes e cultura do país.

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Com informações do DW.

24 de fevereiro de 2022

5 pontos cruciais para entender o conflito entre Rússia e Ucrânia

Crédito: Reprodução/Twitter.

Desde a madrugada desta quinta-feira, 24, o mundo assiste a um novo capítulo da história geopolítica se desenrolar com o ataque da Rússia contra a Ucrânia. Porém, nem todos entendem o motivo desse conflito. Para você compreender de vez o que está rolando, vamos explicar em 5 pontos cruciais as questões chaves e centrais que culminaram na operação militar comandada pelo presidente russo Vladmir Putin, além de saber qual a relação disso tudo com os Estados Unidos.

1 – Crimeia

A disputa entre Rússia e Ucrânia começou oficialmente depois do conflito na região da Crimeia, em 2014. O território foi “transferido” à Ucrânia pelo líder soviético Nikita Khrushchev em 1954 como um “presente” para fortalecer os laços entre as duas nações. Ainda assim, nacionalistas russos aguardavam o retorno da península ao território da Rússia desde a queda da União Soviética, em 1991.

Já independente, a Ucrânia buscou alinhamento com a UE (União Europeia) e a Otan (Organização do Tratado Atlântico Norte) – organização de apoio militar entre nações criada pelos EUA – enquanto profundas divisões internas separavam a população.

2- Soberania

Na Ucrânia, nem todos foram a favor da separação. Donetsk (RPD) e Lugansk (RPL), situadas na região fronteiriça de Donbass, se tornaram repúblicas independentes. Eles estão há dias em conflito com Kiev, capital da Ucrânia, alinhada com EUA.

As circunstâncias nos obrigam a tomar medidas decisivas e imediatas. As repúblicas populares de Donbass pediram ajuda à Rússia. A este respeito, de acordo com o artigo 51, parágrafo sete da Carta da ONU [Organização das Nações Unidas], com a sanção do Conselho da Federação e em cumprimento de tratados de amizade e assistência mútua com a RPD e a RPL, ratificados pela Assembleia Federal, decidi realizar uma operação militar especial”, afirmou Putin.

3 – OTAN

As tensões entre os dois países já vinham aumentando nos últimos meses, devido a uma aproximação da Ucrânia com a Otan e à possibilidade de instalação de poderosas bases militares aliadas aos EUA perto das fronteiras russas. O que muito agrada os norte-americanos e desagrada profundamente os russos.

4 – EUA

Não é coincidência que os Estados Unidos sejam um dos países que mais se beneficiam economicamente de confrontos armados, já que 60 das maiores exportadoras de armas do mundo são estadunidenses. Mas, neste caso, isso é secundário.

Com a economia americana devastada e a perda de protagonismo global com o crescimento da China e da Rússia, para os EUA, desgastar politicamente, especialmente, na Europa, a Rússia é uma boa chance de retomar seu papel central na política mundial.

5 – Disputa global

Para entender um pouco mais dessa disputa global, chega de textos. Veja o vídeo clicando aqui.

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Com informações da Catraca Livre.