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| Nicolau Neto ministra oficina sobre identificação racial para professoras e núcleo gestor de escola de Santana do Cariri-CE. (FOTO | Reprodução | EEIEF Hermano Chaves Franck). |
Por Valéria Rodrigues, Colunista
Na tarde da última quinta-feira, 27, Nicolau Neto, professor de História da rede estadual de ensino do Ceará, ministrou palestra para professoras, professores, núcleo gestor e demais integrantes da comunidade escolar da Escola de Ensino Infantil e Ensino Fundamental Hermano Chaves Franck, no sítio Pedra Branca, do município de Santana do Cariri.
O
professor Nicolau destacou que a temática "Identificação racial e representatividade” a ser trabalhada faz
parte de um dos seis módulos do curso sobre "Letramento Racial – Práticas Antirracistas em Sala de Aula”,
pensado, estruturado e ministrado por ele. No entanto, antes de focar na
importância da autodeclaração racial, ele precisou fazer um percurso histórico
acerca das e ações legislações racistas que estruturaram o país e como elas
foram enfrentadas, tendo como marco gerador as principais políticas
afirmativas.
Uma
das principais ações trazidas para a oficina foi a “ideologia do
branqueamento” baseada na concepção de branquear o país. O branqueamento
foi levado a sério no pós-abolição e as elites do usaram a ciência para
tentarem justificar que ao misturar as raças em pouco tempo o Brasil seria
totalmente branco. Nicolau demonstrou o quadro “a redenção de Cam”, de Modesto
Brocos que foi utilizado em um texto científico do médico brasileiro e diretor
do Museu Nacional, João Batista de Lacerda, no Congresso Universal das Raças,
em Londres, em 1911. Segundo o professor Nicolau, essa ação sem fundamento
científico, consistia em um conjunto de ações racistas e eugenistas que tinha como
principal objetivo “melhorar” as características da população através da
exclusão de grupos considerados “indesejáveis” (africanizados) para os
“intelectuais da época.
Leis racistas
Até
mesmo antes do teoria do branqueamento ser posta em prática, um conjunto de
leis e decretos racistas foram aprovados. Nicolau citou a Lei Nº 1, de 14 de janeiro de janeiro de 1837,
considerado a primeira lei da educação que proibia negros e negras de
frequentarem às escolas; a Lei Nº 601, de 18 de setembro de 1850, chamada de
lei de terras, que impedia negros de terem suas próprias terras; o Decreto nº
847, de 11 de outubro de 1890, que proibia a prática da capoeira. Para o
professor, a Lei dos Vadios e Capoeiras reflete uma tentativa de controle
social do Estado Brasileiro sobre o Negro e serviu para que a polícia
prendesse todos os negros que encontrasse pelas ruas e por fim citou a Lei do
Boi, Nº 5.465, de 3 de julho de 1968, durante a ditadura civil-miliar, que foi
para alguns historiadores e historiadoras, a 1ª lei de cotas no Brasil com o
objetivo de aprofundar as desigualdades, pois ela só beneficiou filhos de
fazendeiros.
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| Professor Nicolau Neto citando Lélia Gonzalez. (FOTO | Reprodução | EEIEF Hermano Chaves Franck). |
Para
Nicolau, todas essas legislações demonstram que a elite dirigente do país
aliado a setores do capitalismo e até escritores procuraram afastar a população
negra dos bens por ela construída, como educação, terra e práticas culturais.
Políticas afirmativas
Na
segunda parte da oficina, Nicolau trouxe uma série de marcos legais que foram construídos
por professores engajados na luta antirracista e por movimentos sociais negros.
Na mesa de debate, destaque para a Lei nº. 10.639/2003, que estabelece a obrigatorieda
de inclusão do ensino de História e Cultura Africana e Afro-Brasileira nos
currículos oficiais das redes de ensino da educação básica; Lei nº. 11.645/2008
que versa sobre a obrigatoriedade da inclusão da história e cultura
afro-brasileira e indígena nos currículos da educação básica; as Diretrizes
Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o
Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana; a Lei nº 12.711/2012,
conhecida como Lei de Cotas Raciais, para pretos, pardos indígenas, quilombolas
e PCD no ensino superior. Para além delas, Nicolau frisou a necessidade dos documentos
das escolas estarem atualizados em relação a leis nacionais antirracistas, como
o PPP e o Regimento Interno, pois, segundo ele, é com esses documentos internos
que se percebe o compromisso da escola na construção de uma educação voltada
para as relações étnico-raciais.
Nicolau
destacou que mesmo com tantas políticas afirmativas, ainda estamos muito aquém de
uma educação antirracistas e fundamentou sua fala na pesquisa feita em 2022
pelo Instituto Alana e Geledés Instituto da Mulher Negra, que constatou que
sete em cada dez secretarias municipais de educação não realizaram nenhuma ação
ou poucas ações para implementação do ensino da história e da cultura
afro-brasileira nas escolas.
O professor ressaltou que muitas escolas ainda se prendem apenas ao 20 de novembro, dia nacional da consciência negra, após silenciarem o ano inteiro sobre as histórias negras e indígenas. Outras tantas escolas insistem em trabalhar de forma estereotipada, revelando que falta formação continuada, mas também interesse em fazê-la. Intelectuais negros e negras, como Abdias do Nascimento, Beatriz Nascimento, Clóvis Moura, Lélia Gonzalez, Sueli Carneiro, Kabengele Munanga, Cícera Nunes, Alex Ratts e Maria Telvira foram suas principais referências.
Identificação racial
Neste
ponto, Nicolau trouxe dados nacionais, estaduais, da escola que atua (EEMTI
Padre Luís Filgueiras, em Nova Olinda) e da escola foco da oficina. Os dados
foram construídos tendo como base os critérios do IBGE. De acordo com este
órgão, a maior parte da população brasileira é parda (45,3%); 43,5% branca; 10,2%
preta; 0,6% indígena e 0,4% amarela. Quando se junta pardos e pretos, a
população negra brasileira alcançou 55,5%.
Nicolau
demonstrou pesquisas feitas nos últimos três anos na escola Padre Luís
Filgueiras com estudantes de 1º ao 3º ano do ensino médio e destacou que os
dados de 2025, embora já finalizados não faria parte da mostra. Pelos números,
foi constatado que a parcela de estudantes que se autodeclara preta atingiu
16,4% (em 2023 foram 14,7%). O grupo que se reconhece como pardo, no entanto, é
maioria, com 55,7%. (Em relação ao ano passado teve uma redução. 61,8% se
reconheciam nesse grupo). É importante frisar que tanto para o IBGE quanto para
o Estatuto da Igualdade Racial, a população negra no Brasil é definida pela
somatória de pardos e pretos. Assim, negros na EEMTI Padre Luís Filgueira representam
72,1%. No último levantamento esse grupo chegou a casa dos 76,5%.
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| Nicolau Neto citando dados raciais da população brasileira. (FOTO | Reprodução | EEIEF Hermano Chaves Franck). |
O
formulário também apurou que houve um aumento nas pessoas que se autodeclaram
indígenas. Ano passado eram apenas 1,8% e este ano quase que dobrou. São 3,2%
de indígenas. Em que pese a cor ou raça branca e amarela, os números
demonstraram leves crescimentos. Em 2023 0,3% se autodeclararam amarela e 21,5%
como branca. Este ano já são 1,8 e 22,9 por cento, respectivamente.
Por
fim, Nicolau demostrou o perfil étnico-racial do corpo docente, núcleo gestor e
demais servidores da escola que o convidou para a oficina, a EEIEF Hermano
Chaves Franck, através de uma pesquisa feita pela professora de ciência,
Valéria Rodrigues. A pesquisa adotou os critérios do IBGE e foi feita pelo
Google Forms. 51 pessoas responderam a uma única pergunta: "como você se identifica quanto a cor ou
raça?” 41,2% pardos; 37,3% brancos; 11,8% amarelos; 7,8% pretos e 2%
indígenas. Os dados da escola contraria as projeções nacionais, estaduais e do
município quanto a amarelos, pretos e indígenas.
O
professor Nicolau também demonstrou os critérios para a autodeclaração racial,
principalmente para aquelas e aqueles autodeclaradas amarelas, que são descendentes
de povos orientais( chineses, coreanos e japoneses), por exemplo. Trouxe
ainda fotos de pessoas que publicamente se reconhecem como uma das cinco
categorias de autodeclaração.
O público
destacou que após a oficina será feita uma nova pesquisa autodeclaratória e que
pretende em 2026 trabalhar as temáticas em evidência durante todo o ano letivo.
A
Secretaria Municipal de Educação de Santana do Cariri foi representada pelo
professor Valdenízio. Ele destacou a importância do momento para a escola, se
constituindo em uma formação referenciada. "Você (Nicolau) está vindo pelas beradas. Queremos que entre mais e
chegue as demais escolas do município”, finalizou ele.
Nicolau agradeceu o convite da direção da escola, que partiu de forma particular das professoras Hericka Santos, Ravna Regis e Valéria Rodrigues e parabenizou a instituição por ter dado este importante passo para o educar com foco nas relações étnico-raciais.



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