22 de março de 2022

Conheça o hotsite do ANANSI - Observatório da Equidade Racial na Educação Básica!

 

ANANSI - Observatório da Equidade Racial na Educação Básica!/Imagem: CEERT

Está no ar o hotsite do ANANSI - Observatório da Equidade Racial na Educação Básica. Confira neste link.

O Observatório visa contribuir no monitoramento e controle social da equidade racial na educação no Brasil, a partir da produção, troca e compartilhamento de conteúdos, além da incidência em políticas públicas. Lançado em dezembro, o projeto ganha o hotsite e fortalece também a mobilização de pesquisadores/as.

A produção de conhecimento objetiva subsidiar e qualificar o debate público para a agenda da equidade racial na educação e fortalecer o controle social do cumprimento da Lei 10.639/2003, que alterou a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), obrigando o ensino da história e cultura africana e afro-brasileira.

Além de produzir e compartilhar conteúdos e referências teórico-metodológicas, o ANANSI reunirá parceiros no campo da sociedade civil organizada e entidades públicas, articulando redes de observação, informação e ação coletiva no campo da educação básica.

Grupo de pesquisadores/as

Em evento realizado pelo CEERT em 9 de fevereiro, o grupo de pesquisadores/as e supervisores/as do Edital Equidade Racial na Educação Básica: Pesquisas Aplicadas e Artigos Científicos, debateu formas de contribuir e fortalecer o Anansi.

“O ANANSI está muito vivo no CEERT desde o primeiro semestre de 2021, quando a nossa conselheira Flávia de Oliveira nos impulsionou a compartilhar o rico acúmulo do CEERT na área da educação básica considerando o forte impacto da pandemia Covid19 na vida educacional do alunado negro brasileiro. Nossa atuação pode e precisa ser, incisiva, a partir do conhecimento de mais de 30 anos”, disse Cida Bento, conselheira da organização.

Cida ainda citou o ANANSI como um espaço importante para compartilhamento de resultados e impactos dos trabalhos de educação antirracista realizados pelos pesquisadores/as do Edital, nas cinco regiões do Brasil, em um ano tão emblemático, como o de 2022, onde nós temos um processo eleitoral e queremos incidir nos programas do Executivo e dos parlamentares, pressionando pela implementação da Lei 10.639/03

Objetivos

Segunda Maria das Graças Gonçalves, especialista do CEERT e Professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense (UFF), o ANANSI visa contribuir com informações que traçam cenários da temática e com ações estratégicas para a Lei 10.639/2003 seguir fortalecida como principal marco regulatório do combate ao racismo e a construção de equidade racial, como agenda norteadora das políticas educacionais brasileiras.

O segundo objetivo é analisar e acompanhar resultados de ações institucionalizadas, transversais nos sistemas de gestão, ensino e formação, dando transparência aos dados da situação educacional da população negra local, regional e nacional.

“Nosso principal interesse é agilizar as comunicações e por isso pensamos em diferentes redes, se articulando na nossa base. A gente pensa em colaboradores e parceiros alimentando e fortalecendo os dados de educação antirracista”, diz a professora.

Eixos

Na reunião com os pesquisadores, foram debatidos três dos eixos de ação do Anansi: advocacy, indicadores e projetos.

Daniel Bento Teixeira, diretor-executivo do CEERT, ressalta que as ações do eixo de Advocacy são estruturantes da missão central do observatório, envolvendo a defesa dos direitos da criança e do adolescente – sobretudo o direito à educação.

“Temos a Constituição Federal, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e sobretudo a LDB, juntamente com uma legislação internacional, como um arcabouço normativo. São os instrumentos legais que a gente tem para fazer o questionamento nas instâncias do poder executivo ou judiciário, junto ao Ministério Público. A ideia é que o ANANSI receba dos municípios as percepções e evidencias sobre a implementação da lei, em parceria com organizações locais da sociedade civil ligadas ao movimento negro, promovendo essa prática de defesa de direitos”, explica o diretor-executivo.

Já o Eixo Indicadores, segundo Mario Rogério, diretor do CEERT, contribui na sistematização e disponibilização de dados quantitativos e qualitativos.

“Temos focado na importância da coleta do quesito cor e na qualidade dos dados em pesquisas, com o objetivo de produzir indicadores e divulgar análises, criando uma ponte de acesso aos indicadores educacionais de uma forma fácil e simples. A ideia é que profissionais de educação tenham informações muito precisas para o dia a dia no avanço da equidade racial na educação básica”, explica Mario Rogério.

O Eixo Projetos e Materiais reúne estudos, pesquisas, formação e desenvolvimento de materiais no campo da educação básica, disponibilizando conteúdos para consultas, replicação e ampliação. É um espaço virtual para intercâmbio de experiências exitosas em ações antirracistas.

História

Em mais de 30 anos de atuação, o CEERT realiza ações visando a equidade racial na educação, a partir da formação de professoras/es, gestoras/es e subsídios ao ensino antirracista, reunindo significativo acervo. Desde 2020, o Edital Equidade Racial na Educação Básica identifica e apoia pesquisas aplicadas, que apontem soluções para os desafios da construção da equidade racial na educação básica no Brasil. Saiba mais sobre os resultados da iniciativa neste link.

O CEERT entende que a promoção da educação antirracista é essencial para o combate ao racismo estrutural e para a construção da equidade racial, como agenda norteadora das políticas educacionais brasileiras. Assim, o convite é tecer coletivamente a teia da educação as relações étnico-raciais.

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Com informações do Ceert.

20 de março de 2022

Quando se pede a lua ao prefeito

 

Alexandre Lucas. (FOTO/ Reprodução/ Facebook).

Por Alexandre Lucas, colunista

A democracia sofre fraturas diárias na luta pelo direito à cidade. Pensar em gestões democráticas e participativas é um desafio em construção, inclusive de compreensão. Equivocadamente e de forma recorrente, esse conceito, é posto como uma engenharia harmônica e consensual, desconsiderando neste caso a realidade concreta, marcada por disputas de narrativas, desigualdades sociais e antagonismo de classe.

Gestão democrática e participativa não é conceito dogmático, em que é constituída por pares e é erguida a partir de uma única verdade, mas é a partir do encontro das ideias conflituosas e de interesses distintos que a democracia se tempera, necessariamente, isso não acontece pelo diálogo. A história tem demonstrado que o conflito é algo presente quando existem interesses antagônicos.

Apesar do conceito de gestão democrática e participativa ser algo novo relativamente, a luta pelo direito de participar e decidir sobre a cidade é algo bem mais antigo. Entretanto, o recorte das lutas de classes continua sendo válido para compreensão da democracia e evitarmos cairmos na concepção de idealista e romantizada que desconsidera as contradições e as forças em disputa, na tentativa de erguer um falso discurso de equilíbrio social e de dialogicidade.

Conselhos setoriais, conferências, audiências e consultas públicas são espaços criados para aprofundar a democracia, essencialmente são esferas políticas que cabem a diversidade e pluralidade de ideias e de concepções políticas, inclusive, não distingue a participação das pessoas dos mais diferentes partidos políticos, até porque isso é uma prerrogativa constitucional. Enfatizar essa questão é desmascarar a suposta neutralidade das instâncias de participação social.       

A gestão democrática e participativa não deve ser compreendida como o quintal da nossa casa, mas como a casa de gregos e troianos, de muitas brigas, ocupações, construções e desconstruções e é a partir dessa síntese de confusões que a democracia vai se constituindo ou se destruindo.   

Cabe continuar insistindo no aprofundamento da democracia e na organização popular para construir uma nova realidade de participação e acessibilidade  social.

Democracia não é desfile militar, onde todos vestem a mesma roupa e dão as mesmas passadas.  É preciso se preparar para democracia recheada de assimetrias e desconfortos.

As gestões públicas devem romper com as velhas práticas abortivas sobre a decisão da cidade.  Optar por gestões democráticas e participativas vai além de eleger instâncias de participação e é um desafio que se coloca na ordem do dia, aliada aos princípios que regem a gestão pública e os direitos constitucionais da população.

As demandas da população são imensas e complexas, objetivas e subjetivas, viáveis e inviáveis e estão postas. Os gabinetes de gestão têm a tarefa de dar respostas, de orientar, de fazer com que os preceitos da carta magna sejam cumpridos, por  engavetar as demandas da população, é uma atrocidade as conquistas de 88, uma ataque à democracia.  Obviamente, quando for solicitado  ao prefeito a lua, ele ficará impedido de atender, mas isso não exclui a necessidade de justificar os motivos do não atendimento. Construir uma gestão democrática e participativa é aprender a dar respostas até para o pedido da lua.

Sueli Carneiro recebe título de honoris causa da UnB

Sueli Carneiro. (FOTO/ André Seiti / acervo Itaú Cultural).

A Universidade de Brasília (UnB) deu o título de doutora honoris causa para a filósofa e escritora Sueli Carneiro. A decisão foi tomada em reunião do Conselho Universitário (Consuni) da UnB nessa sexta-feira (18/3).

Carneiro é conhecida por sua produção intelectual sobre o feminismo negro, entre outros temas, e por seu ativismo no movimento antirracista. Além da atividade teórica e analítica amplamente difundida nos seus escritos, Carneiro fundou o Instituto Gelédes, que luta contra o racismo e o sexismo.

A vida de Sueli Carneiro é contada no livro “Continuo preta: a vida de Sueli Carneiro”, escrito pela jornalista Bianca Santana.

A reitora da UnB, Márcia Abrahão, disse para a coluna que é “uma alegria e uma honra” para a universidade atribuir o título para Carneiro “principalmente no mês da mulher”.

Com esse gesto, a UnB dá mais uma demonstração de reconhecimento do valor da diversidade para a construção do conhecimento e de seu empenho no combate ao racismo. Eu me orgulho da decisão tomada pelo Consuni”, acrescentou.

O título de doutor honoris causa é dado a pessoas com “relevante projeção nacional ou internacional, que tenham contribuído de modo notável, para o progresso das Ciências, Letras, Artes ou Cultura em geral e/ou que tenham beneficiado de forma excepcional à humanidade ou o país”, explicou, em nota, a UnB.

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Com informações do Metrópole.

Projeto em homenagem a Lima Barreto é lançado nas plataformas digitais

 

Obra de Lima Barreto será contada em vídeos por personalidades negras. (FOTO/ Reprodução).

Espalhe Lima Barreto” é o nome da iniciativa em comemoração ao centenário da morte do jornalista e escritor Lima Barreto. O projeto, lançado de forma virtual, destaca o legado do autor por meio de vídeos, artes e textos em formato bilíngue e de livre acesso e o primeiro vídeo, feito pela escritora e filósofa, Djamila Ribeiro, que dá voz a excertos do livro “Clara dos Anjos”, já está disponível.

Entre fevereiro e novembro, mês que marca os 100 anos da morte do autor, vídeos inéditos serão lançados com personalidades negras declamando trechos da obra do autor, como Conceição Evaristo, Lázaro Ramos, Elisa Lucinda, Hilton Cobra e Silvio Almeida.

O apoio artístico e técnico da Baioque foi fundamental para a criação da plataforma Espalhe Lima Barreto. Sob coordenação do Brazil LAB (Universidade de Princeton) e da Companhia das Letras, esse projeto ilumina o legado de um dos maiores escritores brasileiros de todos os tempos, cuja obra foi silenciada pelo racismo e permanece atual frente aos dilemas contemporâneos. Ao longo do mutirão Espalhe Lima, nos tornamos uma única equipe e já estamos nos mobilizando para novas colaborações”, explica Guilherme Fagundes, antropólogo e representante do Brazil Lab, realizadora do projeto.

Newman Costa, Diretor de Audiovisual da Baioque, responsável pela produção audiovisual do projeto, explica que o movimento “Espalhe Lima” será uma oportunidade de reconhecer a vida e obra de Lima Barreto, mas também lançar nas redes conteúdo de impacto social, pilar caro à empresa. “Trazer sua obra, além de ampliar acesso a um conteúdo cultural riquíssimo, levanta uma provocação para que a sociedade reflita sobre questões como a exclusão social e o racismo. Já temos o exemplo do embranquecimento de Machado de Assis, contra o qual até hoje precisamos lutar, e o pequeno espaço dedicado a Lima dá continuidade ao apagamento da produção negra no Brasil. Para nós, este trabalho é uma homenagem, mas também uma luta”, conclui.

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Com informações do Notícia Preta.

19 de março de 2022

Estado laico: o que é?

 

Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, em Aparecida, São Paulo. FOTO/ Valter Campanato/Agência Brasil).


No mundo inteiro, o ideal do Estado laico gera polêmicas. Nos últimos anos, foram registrados diversos casos em que a liberdade religiosa se chocou com a ideia de laicismo, gerando protestos. Ocorreu na França, com a proibição do uso do véu, na Alemanha, com a proibição de freiras de usarem hábito em escolas e repartições públicas e também aqui no Brasil, onde foi discutida a questão da presença de crucifixos em repartições públicas, entre outros assuntos.

Afinal, o que significa um Estado ser laico? Vamos apresentar esse significado, as origens históricas do laicismo e como o Brasil se apresenta dentro deste contexto.

Conceito

Um Estado é considerado laico quando promove oficialmente a separação entre Estado e religião. A partir da ideia de laicidade, o Estado não permitiria a interferência de correntes religiosas em assuntos estatais, nem privilegiaria uma ou algumas religiões sobre as demais. O Estado laico trata todos os seus cidadãos igualmente, independentemente de sua escolha religiosa, e não deve dar preferência a indivíduos de certa religião.

O Estado também deve garantir e proteger a liberdade religiosa de cada cidadão, evitando que grupos religiosos exerçam interferência em questões políticas. Por outro lado, isso não significa dizer que o Estado é ateu, ou agnóstico. A descrença religiosa é tratada da mesma forma que os diversos tipos de crença.

História do Estado Laico

O laicismo é uma doutrina que defende que a religião não deve ter influência nos assuntos de Estado. Essa ideia foi responsável pela separação moderna entre a Igreja e o Estado e ganhou força com a Revolução Francesa (1789-1799). Portanto, podemos dizer que o Estado laico nasce com a Revolução Francesa e que a França é a mãe do laicismo.

Nos anos que se seguiram à revolução, o Estado francês tomou medidas em direção ao laicismo propriamente dito.

1790: todos os bens da Igreja foram nacionalizados;

1801: a Igreja passou para a tutela do Estado;

1882: o governo determina que o sistema de ensino público deve ser laico;

1905: a França se tornou um Estado Laico, separando definitivamente Estado e Igreja e garantindo a liberdade filosófica e religiosa;

2004: entra em vigor uma lei que proíbe vestes e símbolos religiosos em quaisquer estabelecimentos de ensino.

Vale ainda mencionar o caso dos Estados Unidos e a separação entre Igreja e Estado. A Constituição Americana foi aprovada em 1787 – e portanto, antes da Revolução Francesa – não criava nenhum vínculo entre Igreja e Estado, o que pode nos levar ao entendimento de que este tenha sido o primeiro país laico. Porém, a Constituição não deixava explícito que eles deveriam estar separados, apenas não fazia qualquer menção ao tema. Foi apenas na primeira emenda constitucional, em 1791, que se estabelece que “o Congresso não fará lei estabelecendo religião oficial, ou proibindo o livre exercício delas”.

No entanto, essa emenda tratava apenas do governo federal, e muitos estados continuaram religiosos depois da ratificação. Foi apenas com o caso Every vs Board of Education, em 1947, que a Suprema Corte incorporou a Establishment Cause, tornando os Estados Unidos da América definitivamente laico.

Posições do Estado em relação à religião

Apesar de a laicidade ser adotada em diversos países mundo afora (alguns exemplos são Estados Unidos, Japão, Canadá, Áustria e África do Sul), ainda existem outras formas de relação entre Estado e religião. Abaixo, relacionamos algumas delas:

Estado confessional

O Estado confessional é aquele que adota oficialmente uma ou mais religiões. Existe influência religiosa nas decisões do Estado, mas o poder secular predomina. São exemplos de Estados confessionais:

Reino Unido: a Inglaterra, maior nação do país, adota o cristianismo anglicano como religião oficial. Bispos anglicanos têm direito a 26 vagas na Câmara dos Lordes (equivalente ao nosso Senado). Na prática, é o primeiro-ministro e a Câmara dos Comuns que concentram o poder político;

Dinamarca: o Estado dinamarquês adota o cristianismo luterano como sua religião. Na prática, há ampla liberdade religiosa no país, onde vivem muitos imigrantes muçulmanos;

Butão: a constituição do país estabelece o budismo tibetano como religião oficial. Essa nação asiática garante liberdade religiosa, mas tem colocado limites a práticas de outras religiões (como atividades missionárias e construção de templos);

Arábia Saudita (islamismo): adota oficialmente o Islã e proíbe a prática de qualquer outra religião. Todos os cidadãos sauditas devem professar a fé islâmica, sob pena de serem executados pelo crime de apostasia.

Estado teocrático

Nas teocracias, as decisões políticas e jurídicas passam pelas regras da religião oficial adotada. Em países teocráticos, a religião pode exercer o poder político de forma direta, quando membros do próprio clero têm cargos públicos, ou de forma indireta, quando as decisões dos governantes e juízes (não religiosos) são controladas pelo clero.

Exemplos de Estados teocráticos são: o Irã, que adota o islamismo como religião oficial e possui um aiatolá como chefe de Estado; e o Vaticano, o país-sede da Igreja Católica, cujo chefe de Estado é o próprio papa.

Estado ateu

Um Estado ateu é caracterizado pela proibição ou perseguição a práticas religiosas. O Estado não apenas se separa da religião, mas a combate. Exemplos de ateísmo de Estado podem ser encontrados em experiências socialistas ou comunistas do século XX: União Soviética (URSS), Cuba, China, Coreia do Norte, Camboja, entre outros.

Hoje em dia, parte desses países adota a liberdade religiosa e o secularismo: a Rússia é um país laico; a China garante a liberdade de crença, apesar de permitir apenas um conjunto de religiões registradas; e a Coreia do Norte também permite oficialmente a liberdade religiosa, apesar de que cerca de 64% da população norte-coreana não professa nenhuma religião, segundo David Alton.

E o Brasil?

Pleno do Supremo Tribunal Federal ostenta um crucifixo, símbolo religioso católico. (FOTO/ STF).

O Brasil é o maior país católico do mundo, com uma estimativa de 127 milhões de fiéis, o que equivale a 65% da população do país e aproximadamente 12% dos católicos no mundo (dados de 2013 do IBGE). Mesmo com maioria católica, o país é oficialmente um Estado laico, ou seja, adota uma posição neutra no campo religioso, busca a imparcialidade nesses assuntos e não apoiando, nem discrimina nenhuma religião.

Apesar de citar Deus no preâmbulo, a Constituição Federal afirma no artigo 19, inciso I:

É vedado à União, aos Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: I – estabelecer cultos religiosos ou igrejas, subvencioná-los, embaraçar-lhes o funcionamento ou manter com eles ou seus representantes relações de dependência ou aliança, ressalvada, na forma da lei, a colaboração de interesse público.

Esse trecho de nossa Constituição determina, portanto, que o Estado brasileiro não pode se manifestar religiosamente. Também vale notar que o artigo 5º, inciso VI também diz:

É inviolável a liberdade de consciência e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e a suas liturgias;

Dessa forma, a liberdade religiosa na vida privada está completamente mantida, desde que devidamente separada do Estado.

Em 2012, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Marco Aurélio Mello fez afirmações nesse sentido em sua decisão sobre o aborto de anencéfalos. Ele afirmou que “os dogmas de fé não podem determinar o conteúdo dos atos estatais.” Também sustentou que: “as concepções morais religiosas — unânimes, majoritárias ou minoritárias — não podem guiar as decisões de Estado, devendo, portanto, se limitar às esferas privadas.”

Polêmica: o caso dos crucifixos em repartições públicas

Uma das principais polêmicas em relação à laicidade do Estado brasileiro é o uso de símbolos religiosos, como crucifixos, em repartições públicas. De acordo com críticos, essa prática fere os princípios do Estado laico porque, uma vez que instituições públicas ostentam símbolos de uma religião, estariam privilegiando-a em detrimento das demais crenças (ou descrenças).

A controvérsia já motivou decisões como a do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJ-RS), que determinou a retirada de crucifixos de todos os prédios da Justiça gaúcha, em 2012. Mas a decisão foi revertida mais tarde pelo Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que entendeu que a colocação dos crucifixos “não exclui ou diminui a garantia dos que praticam outras crenças, também não afeta o Estado laico, porque não induz nenhum indivíduo a adotar qualquer tipo de religião”.

Outros pontos em que a laicidade não estaria sendo respeitada são a frase “Deus seja louvado”, imprimida no canto das notas da moeda oficial do país, o real, e a expressão “sob proteção de Deus” inserida no preâmbulo da Constituição Federal.

A bancada evangélica

Além da presença de referências religiosas em instituições estatais, existe preocupação em relação ao crescimento do grupo de deputados federais e senadores evangélicos. A bancada evangélica se opõe a pautas como descriminalização do aborto, da eutanásia e leis contra a discriminação contra homossexuais e transexuais, enquanto defendem projetos como o Estatuto da Família, que reconhece como único núcleo familiar a união entre um homem e uma mulher, e a redução da maioridade penal para 16 anos em casos de crimes hediondos.

O número de evangélicos apenas cresce no país e isso se refletiu na composição do Congresso. De acordo com dados da Câmara, a bancada evangélica teria cerca de 200 integrantes (198 deputados, incluindo alguns que não estão no exercício do mandato, e 4 senadores).

A presença de um amplo grupo identificado com correntes religiosas específicas é vista como um desafio para a laicidade do Estado, uma vez que muitas das pautas citadas possuem relação com as convicções religiosas dos parlamentares (a ideia de família apenas como união entre homem e mulher, por exemplo).

A bancada também não é unanimidade entre os próprios evangélicos. Teólogos ouvidos no 10º seminário LGBT na Câmara entendem que o grupo é fundamentalista, porque busca impor suas convicções morais a toda a sociedade, além de fazer proselitismo religioso (ou seja, promover esforços para converter pessoas para sua religião).

Conclusão

Como você pode perceber, a laicidade é um tema que gera muitas controvérsias, pois implica a manutenção de um equilíbrio tênue entre liberdade de crença e imparcialidade do Estado em relação à religião. Esse equilíbrio é delicado, mas tem como benefício esperado um Estado que respeita a diversidade de crença existente dentro da população. E você, como enxerga a questão da laicidade? Deixe sua opinião!

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Com informações do Politize.

18 de março de 2022

Ex-presidente da Funai devolve medalha do mérito indigenista após a mesma ser concedida a Bolsonaro

 

Sydney devolveu a medalha junto a uma carta de repúdio pela concessão do mérito a Bolsonaro (Reprodução)

A concessão da Medalha do Mérito Indigenista ao expoente máximo dos ataques aos direitos indígenas, Jair Bolsonaro repercutiu negativamente e gerou revolta. Por considerar que a honraria perdeu toda sua razão de ser, o ex-presidente da Funai e etnógrafo, Sydney Ferreira Possuelo, devolveu nesta quinta-feira (17), a medalha que recebeu 35 anos atrás. Por muito conhecimento, é considerado uma autoridade em relação aos povos isolados.

Em carta endereçada ao ministro da Justiça, Anderson Torres, que dentre outras personalidades controversas, concedeu o prêmio a si mesmo, Sydney descreve que lhe causou espanto a notícia de que Bolsonaro havia sido agraciado.

Quando deputado federal o senhor Jair Bolsonaro em breve e leviana manifestação na câmera dos deputados afirmou que ‘a cavalaria brasileira foi muito incompetente. Competente sim foi a cavalaria norte-americana que dizimou seus índios no passado e hoje em dia não tem esse problema no país.

Ressaltando até mesmo o desapego de Bolsonaro ao que lhe parece tão caro, que é a carreira militar, Sydney ressalta que ao expressar sua crença e seus desejos, ofendeu a memória do Marechal Rondon e por extensão, do Exército Brasileiro.

Dediquei minha vida ao trabalho de defender os direitos humanos de uma parcela da humanidade que vive em outro tempo histórico, mas que compartilha com a sociedade envolvente o mesmo tempo cronológico”.

Ele relata ao atual ministro, que se orgulha da tarefa que recebeu em 1991, do então ministro Coronel Jarbas Passarinho, de demarcar em nome do governo brasileiro, a Terra Indígena Yanomami. Meus companheiros e eu, da Fundação Nacional do Índio (Funai), a cumprimos”.

E conclui, dizendo que a concessão do Mérito Indigenista a Bolsonaro é uma contradição em relação a tudo que viveu.

E a todas as convicções cultivadas por homens de estatura dos irmãos Villas Boas. Por essas razões, senhor ministro, devolvo ao governo brasileiro por seu intermédio, a honraria que, no meu juízo de valores, perdeu toda razão pela qual em 1972 foi criada pelo presidente da República.

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Com informações da Mídia Ninja. Clique aqui e leia a carta na íntegra.

Tia Simoa definiu os rumos da abolição da escravidão no Ceará

 

Tia Simoa. (FOTO/ Reprodução).

A Preta “Tia Simoa” foi uma negra liberta que, ao lado de seu marido (José Luís Napoleão) liderou os acontecimentos de 27, 30 e 31 de janeiro de 1881 em Fortaleza – Ce , episódio que ficou conhecido como a “Greve dos Jangadeiros”, onde se decretou o fim do embarque de escravizados naquele porto, definindo os rumos para a abolição da escravidão na então Província do Ceará, que se efetivaria três anos mais tarde. No entanto, apesar de sua importante participação para a mobilização popular que impulsionou os acontecimentos, esta mulher negra teve sua participação invisibilizada na história deste Estado onde, ainda hoje, persiste a falsa premissa da ausência de negros.

As mulheres negras cearenses são comumente indagadas sobre sua origem e constantemente remetidas à Bahia, principalmente se não submetem seus cabelos a processos de alisamento. Esta não aceitação de nossa identidade se deve a cruel associação do negro à condição de escravo, que no caso do estado do Ceará, teve seu processo diferenciado das principais capitanias importadoras de mão de obra escravizada devido a suas condições climáticas e geográficas, o que não significa dizer que aqui não tiveram escravos ou que não existiram negras e negros livres, a exemplo da “Tia Simoa” que, além de liberta lutou pela liberdade de seu povo, evidenciando uma expressiva característica da população negra (escravizada ou liberta) deste período que ultrapassa a visão dicotomizada entre o conformismo e a resistência, pois demonstra “uma experiência construída historicamente pela etnia negra” (FUNES) estabelecida através de sua sociabilidade, engajamento e luta inserida em seu cotidiano.

A ausência desta documentação histórica se repete no tocante as demais lideranças negras que atuaram no restante do país como Luíza Mahin (Ba), Mariana Crioula (Rj), Tereza de Benguela (Mt) dentre tantas outras que poderiam figurar na lista de resistência e resiliência negra feminina mas que são invisíveis na historiografia oficial do país, bem como na história do feminismo brasileiro que desconhece o extenso histórico de enfrentamento político e social da mulher negra no Brasil. A omissão desta representação na história oficial perpetra o imaginário social e destina, controla e manipula a subjetividade desse contingente significativo de mulheres no Ceará, assim como no restante do Brasil que, além de não veem suas demandas específicas inseridas no debate sobre feminismo também não se percebem nos principais embates simbólicos travados no bojo dessa importante organização política.

Atrelando o conceito de gênero ao de “raça”, onde ambos descartam o discurso biologizante das diferenças para se deterem ao campo semântico do conceito abreviado de “mulher negra”, devemos considerar que este é, sobretudo, um conceito determinado pela estrutura da sociedade e pelas relações de poder que a conduzem. Dessa forma, conhecer a história de Simoa, mulher negra cuja história está submersa entre os escombros da memória é, pois, estabelecer um sentido de pertencimento a um grupo social historicamente invisibilizado no estado do Ceará. Ao sabermos da influencia que as representações históricas exercem na organização social poderemos compreender de que forma o discurso, inserido no pensamento social, contribui para a construção das relações que se estabelecem neste meio.

Ao eleger os sujeitos de uma representação histórica, estamos exercendo o que Bourdieu chama de “poder simbólico” (2006, p.14), pois estamos nomeando um objeto constituído na enunciação. Compreendendo o discurso como campo de exercício deste poder e, portanto, como instrumento de dominação, ele assim se efetua ao tomar reconhecimento e se concretiza ao tornar-se uma representação social ideologicamente estruturada, vindo a contribuir significativamente para a construção da realidade.

Com isso quero dizer que, ao buscar conhecer a estrutura socioeconômica dos responsáveis pela produção e reprodução deste discurso, podemos entender como se formaram as configurações ideológicas acerca da imagem da população negra no Ceará, sobretudo no discurso do período pós-abolição, onde se elegeu os sujeitos para representarem o movimento abolicionista ao mesmo tempo em que sepultava a memória dos “atores” esquecidos. É por meio do poder simbólico que a historiografia oficial tende a forjar a “não presença” de negras e negros no estado do Ceará e, assim, a naturalizar essa invisibilidade por meio da reprodução deste discurso no âmbito educacional perpetrando o imaginário social.

É, portanto, percorrendo o itinerário oposto que buscamos desvendar os elementos para compor nossa representação histórica a partir do protagonismo de mulheres negras que tiveram sua participação omitida nos discursos sobre a série de ações de resistência e de enfrentamento à escravidão, como no caso do movimento abolicionista no Ceará que resultou em uma abolição pioneira no Brasil e que este mês completa 130 anos, nos levando, mais uma vez, a refletir sobre os desdobramentos deste processo no bojo dos discursos que se sucederam. Da mesma forma, a omissão sobre o protagonismo de mulheres negras ao longo da história do Brasil se reproduz no tocante a história oficial do feminismo brasileiro.

Ao voltar o olhar para o feminismo brasileiro percebemos as profundas desigualdades que se reproduzem em suas contradições internas, principalmente quando visto a partir da dimensão racial, ao desconhecer e desconsiderar o duro processo de aprendizagem em busca da construção da identidade da mulher negra. É necessário, portanto, avançar diante destas e outras contradições específicas através de um denso questionamento da lógica estrutural da sociedade, onde estará presente o racismo.

É neste sentido que buscamos reescrever nossa história, para que possamos nos reconhecer como sujeitos em nosso próprio discurso e, assim, fortalecer os laços de nossa identidade através da organização coletiva. Pouco sabemos sobre a vida da Preta “Tia Simoa”, que de forma quase que despercebida passa as vistas dos historiadores, constando apenas um minúsculo relato sobre sua participação na Greve dos Jangadeiros de janeiro de 1881 (GIRÂO, 1984, p.104), o que demonstra a dívida histórica deste país para conosco.

Contudo, Simoa representa para nós uma visão alternativa de mundo ao mesmo tempo em que propõe para todos novas discussões acerca das estruturas sociais tradicionais, nos permitindo a reconfiguração de uma realidade social. Em nome dela, saudamos a todas as negras invisíveis na história e nos fortalecemos no eco de suas vozes silenciadas para dizer que aqui estamos e que daqui, do Ceará, falamos em inúmeras primeiras pessoas e dizemos que ainda há muito que se contar. Nossa história apenas começou.

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Texto de Karla Alves, publicado no Blog em 5 de novembro de 2018 com o titulo “Personalidades Negras que Mudaram o Mundo: Tia Simoa

Relações África-América Latina: o legado de Desmond Tutu

 

O arcebispo Desmond Tutu durante ato de comemoração dos 60 anos da assinatura da Declaração Universal dos Direitos Humanos. (FOTO/ Mike Hutchings/Reuters).

O falecimento do arcebispo anglicano sul-africano Desmond Tutu, em 26 de dezembro de 2021, nos faz recordar o pouco interesse latino-americano em temas africanos. O fato mereceu um espaço reduzido nos diários e noticiários televisivos da região.

Noticiou-se um tanto vagamente o falecimento de um “símbolo da luta contra o apartheid ao lado de Nelson Mandela e ganhador do Prêmio Nobel da Paz”. No dia seguinte, vida que segue. Não parecia que havíamos perdido um dos maiores lutadores, pensadores e líderes religiosos de nossa época.

Estamos longe de entender e se interessar pela África. Isto ocorre mesmo no Brasil, país de maioria negra e com o maior contingente populacional com raízes negro-africanas fora do continente. Que dizer de outros países da nossa região?

As relações entre Brasil e África vêm se desfazendo nos últimos anos, enquanto os contatos dos outros países latino-americanos com aquele continente nunca se aprofundaram – com a notável exceção de Cuba.

Celebrar o legado de Tutu seria um caminho simples para informar e ir além de temas como apartheid, guerra civil, fome, novas variantes do coronavírus e golpes militares – basicamente o que se notícia sobre o continente na imprensa latino-americana. Em particular, seria uma forma de destacar a importância do pensamento africano e seu impacto global.

FUNDADOR DA TEOLOGIA NEGRA AFRICANA

Tutu foi muito mais que companheiro de Mandela na luta contra o apartheid. Trata-se de um dos fundadores da Teologia Negra Africana, com inspiração na Teologia Negra norte-americana, que teve como principal expoente o reverendo Martin Luther King Jr.

Também na Teologia da Libertação Latino-Americana, iniciada em 1968 na Conferência Episcopal de Medellín e desenvolvida por Gustavo Gutiérrez e Leonardo Boff, entre outros. O arcebispo sul-africano foi mais um a demonstrar que é possível construir uma igreja ombro a ombro com os oprimidos.

Sobre estas filiações, Tutu afirmou que a igreja na África deve se comprometer com a causa da libertação. Para ele, Deus era o grande Libertador, o Deus do Êxodo que conduziu uma turba de escravos para fora do cativeiro e os libertou.

Daí derivou sua defesa da libertação total dos “filhos de Deus”, em nível político, social e econômico. Enfatizando sua inspiração em fontes latino-americanas, apontou que a teologia negra é a teologia do oprimido, uma teologia de libertação. E foi baseado em sua teologia que o arcebispo se posicionou contra o apartheid. Segundo ele, “a Bíblia acabou sendo o livro mais subversivo imaginável numa situação de injustiça e opressão”.

INSPIRADOR DA MODERNA IDENTIDADE SUL-AFRICANA

Para o bem e para o mal, Tutu foi um dos fundadores da identidade da África do Sul pós-apartheid, com a Comissão da Verdade e Reconciliação que ele presidiu e com sua ideia de uma “Nação Arco-íris”.

O que ele chamou de “justiça restaurativa” foi a base da comissão da verdade sul-africana, pensada como elemento central da pacificação, reconstrução e unificação do país.

Funcionando de 1995 a 1998, ela constituiu-se numa das principais experiências mundiais de comissões da verdade, ao condicionar a anistia a um depoimento público do requerente, no qual a principal exigência deveria ser “contar a verdade” sobre os crimes para os quais solicitava anistia.

O elemento mais elogiado naquele processo foi sua condicionalidade, evitando a oferta indiscriminada de anistia (e esquecimento) característica de casos como o brasileiro. O ponto mais contestado foi a limitada reparação dos crimes (ao contrário do que ocorreu em casos como o argentino), na medida em que enfatizou a exposição pública dos violadores de direitos humanos e o registro e construção de uma memória coletiva.

Neste contexto, Tutu insistiu na necessidade de “perdão, mas não de esquecimento”. Para justificá-lo, lançou mão de dois argumentos. Um se baseou em sua já mencionada leitura de esquerda do cristianismo: a necessidade de libertação tanto do opressor quanto do oprimido.

Outro argumento foi apresentar a justiça restaurativa como uma “jurisprudência tradicional africana”. Sua preocupação não passaria por retribuição ou punição, mas por curar violações, corrigir desequilíbrios, restaurar relações rompidas. Ela buscaria reabilitar tanto a vítima quanto o perpetrador, a quem deve ser dada a oportunidade de ser reintegrado à comunidade que ele feriu com sua ofensa.

A esta necessidade de reconciliação, Tutu conectou sua ideia da África do Sul como a “Nação Arco-Íris”, proposta associada ao multiculturalismo tão em voga naquele momento. Esta ideia de uma nação que englobaria todas as cores sem necessidade de que elas se diluíssem assumiu um papel importante na nova identidade nacional, penetrando fundo na autoimagem da África do Sul dos primeiros anos pós-apartheid.

O pluralismo social e étnico herdado pelo país não seria um entrave para seu desenvolvimento, mas sua maior riqueza. Tutu defendia que aquele Estado podia se viabilizar como nação.

FORMULADOR DO UBUNTU

Outra proposta defendida por Tutu era o ubuntu, do qual se tornou o principal divulgador global – conectando-o a outros valores que defendeu nas últimas décadas ao lado de personalidades como o Dalai Lama, como o ecumenismo e a cultura de paz. Ubuntu seria uma forma de garantir a coesão de uma sociedade profundamente dividida e desigual, marcada pela violência e pela opressão, constituindo-se na possibilidade de convivência dos antigos opressores e oprimidos.

Como dito, se um dos pilares de Tutu era o cristianismo de libertação, o outro era a herança africana na qual o ubuntu se insere. Para o arcebispo, ubuntu é um elemento central da visão de mundo africana. Nesta concepção, a vida de todas as pessoas é interligada, bem como a humanidade se integra à natureza e cada geração se integra às anteriores e às que virão.

Tutu definia o conceito através do provérbio “uma pessoa é uma pessoa através de outras pessoas”. Para ele, “uma pessoa com ubuntu se afirma pelos outros, não se sente ameaçada se os outros são capazes e bons; ela tem uma garantia que vem de saber que ela pertence a um todo maior e é diminuída quando outros são humilhados ou diminuídos, quando outros são torturados ou oprimidos, ou tratados como se fossem menos do que são. O que desumaniza você inexoravelmente me desumaniza”.

Tutu entendia ubuntu também como expressão de uma nostalgia universal por um paraíso perdido, originada na nossa expulsão do Jardim do Éden. Se a humanidade vivencia um processo centrífugo de alienação, haveria em contrapartida uma divina força centrípeta que impele à comunidade, à reconciliação, à justiça, que viria desde o “princípio dos tempos”.

Tutu levou o ubuntu para o mundo, contribuindo para sua transformação num conceito da moda. Ubuntu inspirou sistema computacional, literatura de autoajuda, prática de coaching e lições de empreendedorismo. Aliás, nisto se aproxima de outro conceito original do Sul Global, o “bem viver” latino-americano. Mas, para além de estranhas reapropriações, o sucesso global do ubuntu é mais um indicativo da importância do pensamento de Tutu para a contemporaneidade.

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Por Fabricio Pereira, na Folha de São Paulo e reproduzido no Geledés.