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Machado de Assis em
imagem clássica divulgada nos livros e em foto recriada pela campanha
"Machado de Assis Real". (FOTO | Divulgação). |
Por César Pereira, Colunista
Em
1911, na cidade de Londres, Inglaterra, centenas de intelectuais reuniram-se
para participar do Primeiro Congresso Internacional das Raças. O evento ocorreu
entre os dias 26 e 29 de julho, durante o evento discutiu-se intensamente sobre
eugenia, darwinismo social, o suposto “fardo do homem banco,” raças, relações
inter-raciais, cordialidade inter-racial.
O
Brasil foi convidado para tomar parte no congresso, e teve como seu delegado o
antropólogo João Batista de Lacerda que durante a realização da sexta sessão do
congresso apresentou o trabalho intitulado "The Metis, or half-breeds, of
Brazil" para intelectuais da Europa, África, Ásia e América. Era um artigo
onde o representante brasileiro defendia sua tese de embranquecimento da
população “mestiça” do Brasil.
Ao
longo da segunda metade do século XIX e das primeiras décadas do século XX, importantes
intelectuais brasileiros refletiram sobre o papel histórico, econômico e social
do negro para a civilização brasileira. Intelectuais brancos como José de
Alencar, Joaquim Nabuco, Sílvio Romero, Euclides da Cunha, Nina Rodrigues,
Oliveira Vianna, dedicaram-se a pensar sobre o chamado “elemento negro” no
Brasil.
Esses
homens escreveram obras em que defendem um país com a hegemonia da branquitude
sobre as características fenotípicas dos negros. Segundo a maioria deles, o
negro representava a decadência da raça, e a sua predominância demográfica no
Brasil explicava em grande parte nosso atraso cultural e econômico com relação
as nações europeias mais ricas e “civilizadas” que eram os modelos para o
Brasil das elites.
José
de Alencar polemizou intensamente na imprensa fluminense nas décadas de 1860 e
1870 contra os abolicionistas que ganhavam força por todo o Império do Brasil.
Em suas Cartas a favor da escravidão, José de Alencar argumenta contra a
extinção do trabalho escravo no país e questiona sobre o futuro da nação depois
que o “elemento servil” já não estiver sob a tutela de um senhor branco. Na
visão do escritor cearense os pretos livres representavam um sério risco à
sociedade brasileira.
Joaquim
Nabuco foi um dos mais importantes políticos brasileiros do final do período
monárquico. Suas principais pautas eram a defesa da manutenção da monarquia no
país e a abolição da escravidão. Joaquim Nabuco defendia o fim da escravidão
como um instrumento político que iria revolucionar o império, pois a
escravização dos negros era uma mancha na sociedade brasileira uma vez que tal
prática envergonhava o Brasil perante as nações civilizadas e atrasava a
economia nacional.
Nabuco
compreendia a escravidão não como sendo um instrumento que se impunha de forma
violenta e destrutiva sobre seres humanos negros, mas como uma prática política
imprópria para uma nação civilizada como a nossa. Para ele a escravização não
era um problema porque violentava pessoas, mas porque fazia do Brasil uma nação
bárbara perante as nações civilizadas da Europa. Acabar com a escravidão era
libertar o Brasil.
Sílvio
Romero, Nina Rodrigues e Oliveira Vianna concluíram que a presença do negro no
Brasil era um fator importante na formação cultural e econômica do país, mas
para eles essa importância não se sobrepunha ao do branco, pois os brancos,
principalmente a herança luso-europeia do Brasil deveria se impor sobre a africana.
Para estes intelectuais havia a
necessidade de um predomínio do branco sobre o negro, a eliminação das chamadas
características “negroides” por elementos “caucasianos” era fundamental para o
Brasil caminhar lado a lado com a civilização europeia.
As
ideias deles são ecos do pensamento geral da branquitude nacional nos fins do
século XIX e nas primeiras décadas do século XX. Para Euclides da Cunha a
própria miscigenação de várias raças no Brasil criou uma sub-raça, mestiços
degenerados e que eram responsáveis pelos retrocessos culturais, econômicos e
sociais.
O
artigo de João Batista de Lacerda é a defesa dessa ideologia de
embranquecimento do país. O projeto da branquitude propondo-se a criar uma
nação branca, um Brasil cuja presença do negro fosse irrelevante ou inexistente
se corporifica na comunicação de João Batista de Lacerda em Londres,
Para Lacerda a escravização de pretos e pretas
no Brasil não representou violências, pois esses homens e mulheres foram sempre
tratados com cordialidade pelos seus senhores. Segundo ele não houve na
história de nosso país violência escravocrata, pois em nenhum período histórico
houve segregação do negro pelo branco.
Ainda
segundo seu ensaio a aceitação da miscigenação a partir do livre intercurso
sexual do branco e das negras no Brasil, criou por aqui uma singular “excepcionalidade
racial”, pois por causa da "seleção sexual", os mulatos procurariam
sempre encontrar parceiros que pudessem "trazer de volta seus descendentes
para o tipo branco puro", removendo os aspectos característicos da
"raça negra", inclusive o atavismo. (Lacerda, 1911a, p. 382).
Desenvolvendo
mais ainda seus argumentos racistas, Lacerda afirma que a introdução de
imigrantes brancos no Brasil em muito favoreceu a melhoria racial do país, assim,
o cruzamento entre os mestiços e os brancos faria recuar o “elemento negro” decadente
e aos poucos o “elemento branco” superior predominaria, prevendo João Batista
de Lacerda que em cem anos 1912 a 2012 já não haveria mais negros no Brasil.
Grande
parte dos dados que Lacerda apresenta para demonstrar sua tese do
branqueamento, foram produzidos por Roquette-Pinto (Figura 1). Este outro
intelectual brasileiro era assistente da cadeira de Antropologia, Arqueologia e
Etnografia do Museu Nacional, portanto um jovem antropólogo que já vinha
reunindo, pelo menos desde o ano de 1906, vastas informações, dados estatísticos
sobre a formação social do Brasil, principalmente com relação à 'evolução' e às
características raciais do povo brasileiro.
As
pesquisas de Roquete-Pinto estavam apontando que a população branca no Brasil tinha
crescido progressivamente, e de forma acelerada, entre 1870 e 1910, enquanto o crescimento
da população negra e mestiça seguiam em sentido claramente oposto (Souza, 2011,
p. 90-92). Se baseando, então, na sequência progressiva dessa estatística, não
fora difícil para João Batista de Lacerda chegar à conclusão que, em 2012, a
"raça branca" representaria 80% da população brasileira, os
indígenas, 17% e os mestiços, 3%, sendo que a "raça negra" tendia a
desaparecer de vez do território nacional (Lacerda, 1912b, p. 101).
O
trabalho de Lacerda publicado em 1912, foi o amadurecimento de uma ideia que já
vinha sendo desenvolvida desde o século XIX e que aparece ilustrada na pintura A
redenção de Cam, de Modesto Brocos (1893). O diagrama criado por
Roquete-Pinto se impunha como o elemento científico comprobatório da ideologia
do branqueamento do Brasil.
Sintomaticamente
no ano de 2011 a Caixa Econômica Federal veiculou na televisão um comercial
utilizando um ator branco que representava o papel de Machado de Assis como um
dos clientes do banco. Na propaganda um ator branco caminha pelas ruas do Rio
de Janeiro no começo do século XX e dirige-se a uma agência da Caixa Econômica
para fazer uma transação bancária. A peça publicitária é narrada pela atriz
Glória Pires.
Ao
entrar no banco o ator representando Machado de Assis é cumprimentado como um
homem célebre das letras nacionais e o próprio comercial deixa isto evidente ao
longo de seu 1 minuto e 2 segundos de duração. A ideia dos criadores da peça
publicitária é deixar bem evidente ao público que aquele senhor branco grisalho
é um dos maiores escritores da língua portuguesa.
Logo
que a propaganda veio a público causou imenso desconforto em quem conhece bem a
história de Machado de Assis. Filho de pai negro e neto de pretos que tinham
sido escravizados, o escritor era um homem negro e foi como uma pessoa preta
que alcançou a maior posição intelectual já atingida por escritor brasileiro em
todo o mundo.
A
cor da pele de Machado de Assis se tornou alvo de disputas entre a elite
brasileira desde os primeiros dias de sua morte em 26 de setembro de 1908.
Joaquim Nabuco que era seu amigo, pessoa que muito conviveu com ele desde a
década de 1880 e se correspondia intensamente com Machado se pronuncia nesses
termos sobre a cor deste: "O Machado para mim era branco. [...] quando
houvesse sangue estranho, isto em nada alterava a sua perfeita caracterização
caucásica" (NABUCO Apud MASSA, p.46).
A
negritude de Machado de Assis sempre foi um problema para a branquitude
brasileira. Ressentida por saber que o maior escritor da nossa língua e um dos
maiores intelectuais do mundo é um indivíduo não-branco, então essa elite vai utilizar
de todos os subterfúgios para impor um branqueamento que o fizesse seu legítimo
representante.
Além
disso, um Machado de Assis negro refutaria os argumentos da intelectualidade
racista brasileira e internacional, aquela intelectualidade que se reunira em
1911 na cidade de Londres para argumentar sobre a superioridade da raça branca
sobre a raça negra e desta primeira sobre todas as raças.
A
peça publicitária da Caixa Econômica Federal foi a massificação da tese
defendida por João Batista de Lacerda de que em cem anos não haveria mais
negros no Brasil. Ora, analisemos de perto a estrutura da ideologia veiculada
pela propaganda do banco federal.
Segundo
Lacerda em 2012 a população brasileira seria composta de 80% de brancos, 17% de
indígenas e apenas 3% de mestiços, negros seriam ausentes, logo, uma campanha
publicitária para divulgar um dos bancos mais ricos do país, um banco que
pertence ao país, país este supostamente segundo Lacerda formado
predominantemente por pessoas brancas, pessoas que seriam os verdadeiros
clientes do banco, indígenas consumiriam serviços bancários na selva? Mestiços
pobres se utilizariam de bancos? Assim a campanha da Caixa Econômica Federal
dirigiu-se para aqueles que ela considerava ser a maioria dominante do provo
brasileiro, os brancos.
Se a
tese de João Batista de Lacerda estivesse correta a propaganda da Caixa
Econômica Federal teria acertado bem no alvo o ego da branquitude brasileira,
pois como não existiria mais negros no Brasil, um Machado de Assis branco
satisfaria muito bem o narcisismo branco.
Mas não
foi isto que se deu. No dia seguinte ao início da primeira veiculação da
propaganda o Movimento Negro, clientes do banco, jornalistas, escritores,
intelectuais e a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da
Presidência da República (Seppir-PR), questionaram o presidente da Caixa
Econômica Federal, Jorge Hereda e este teve que suspender a peça publicitária
do ar e solicitar da agência que a produzira fizesse uma outra agora com um
ator negro representando o escritor.
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Foto da representação das duas propagandas da Caixa Econômica Federal (FONTE | YOUTUBE)
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A
cor da pele de Machado de Assis sempre foi um problema para as pulsões
narcísicas da elite branca nacional. Mesmo quando o escrito era vivo, os
intelectuais brasileiros já polemizavam sobre sua origem hereditária e a sua
negritude. Num dos primeiros estudos sobre a obra machadiana o crítico literário
e antropólogo Sílvio Romero escreve o seguinte:
Quem já
o estudou à luz de seu meio social, da sua influência, de sua educa- ção, de
sua hereditariedade não só física como étnica, mostrando a formação, a
orientação normal de seu talento? Quem já lhe ‘assinou o posto’ na história espiritual
do país? (ROMERO, p. 18)
E
continua:
(...)
Machado de Assis não sai fora da lei comum, não pode sair, e aí dele, se saísse.
Não teria valor. Ele é um dos nossos, um genuíno representante da sub-raça
brasileira cruzada, por mais que pareça estranho tocar neste ponto (ROMERO, p.
28).
Este
estudo de Sílvio Romero sobre Machado de Assis foi escrito nos meados da década
de 1890 e publicado em 1897, isto é, quando o escritor estava no auge de sua
carreira literária tendo já escrito e publicado os romances da primeira fase de
1872 a 1878 e as obras mais importantes da literatura mundial como Memórias
Póstumas de Brás Cubas, O alienista, Quincas Borba, Papéis Avulsos e Histórias
sem data.
Durante
todo a crítica de Sílvio Romero sobre o escritor fluminense nota-se o
desconforto deste com a negritude de Machado de Assis. Para Sílvio Romero a
obra deste era imperfeita exatamente devido as suas influências hereditárias
africanas. Podemos compreender que a visão de Romero eram os ecos do
desconforto geral da intelectualidade branca nacional bem como da própria elite
da qual o crítico literário sergipano havia se feito cão de guarda.
Nas
citações acima percebe-se a obsessão de Sílvio Romero com relação a
afrodescendência de Machado de Assis, tais obsessões narcísicas já muito
evidentes quando o escrito era vivo se tornarão ainda mais intensas após sua
morte. Romero defendia a seguinte tese sobre o futuro do Brasil:
A minha
tese, pois, é que a vitória na luta pela vida, entre nós, pertencerá, no
porvir, ao branco; mas que esse, para essa mesma vitória, tem necessidade de
aproveitar-se do que de útil as outras duas raças lhe podem fornecer, máxime a
preta com quem tem mais cruzado. Pela seleção natural, todavia, depois de
prestado o auxílio de que necessita, o tipo branco irá tomando a preponderância
até mostrar-se puro e belo como no Velho Mundo. Será quando já estiver de todo
aclimatado no continente. Dois fatos contribuirão largamente para esse
resultado: de um lado, a extinção do tráfico africano e o desaparecimento
constante dos índios, e de outro a imigração europeia. (ROMERO, p. 47).
Percebemos
que as ideias de Sílvio Romero são muito semelhantes a ideologia geral que
predominava entre a intelectualidade branca brasileira em fins do século XIX e
início do XX. Para estes porta vozes da elite não havia futuro para o negro no
Brasil. Desse modo explica-se por que se recusavam a aceitar um Machado de
Assis afrodescendente.
Relutante
em reconhecer a genialidade da obra de Machado de Assis devido as suas ideias
racistas, Sílvio Romero passa a analisar a obra machadiana como imitação da
escrita de Flaubert, Zola e Charles Dickens. Para Sílvio Romero a literatura de
Machado de Assis é apenas uma imitação dos cânones europeus.
Mesmo
diante da relutância de Romero outros críticos literários e intelectuais precisaram
reconhecer a genialidade de Machado de Assis. Um desses críticos foi José
Veríssimo. Para este o Machado de Assis gênio literário da língua portuguesa
não era o descendente de pretos, na troca de cartas com Joaquim Nabuco José
Veríssimo não aceita o adjetivo “mulato” com que se referiam ao amigo.
Mulato, ele foi de fato, um grego da melhor época. Eu não teria
chamado Machado de Assis de mulato e penso que lhe doeria mais do que essa
síntese. (…) O Machado para mim era um branco e creio que por tal se tornava;
quando houvesse sangue estranho isso nada alterava a sua perfeita
caracterização caucásica. Eu pelo menos só via nele o grego” ( Joaquim Nabuco,
em carta a José Veríssimo, após a morte de Machado de Assis, disponível em: https://www.geledes.org.br/duas-cores-de-machado-de-assis/,
acesso em 11 de junho de 2023 ).
Assim
os dois se entenderam sobre o problema da cor da pele de Machado de Assis, era
um mulato, mas um mulato grego. A insatisfação das pulsões narcísicas da elite
brasileira com um Machado de Assis negro atravessou, portanto, todo o século XX
e ainda repercutiu no ano do centenário do Congresso Internacional das Raças
através da propaganda da Caixa Econômica Federal.
O
branqueamento de Machado tornava-o palatável para as elites e foi assim que ele
entrou na galeria dos cânones da literatura brasileira. A certidão de óbito do
escritor lavrada em 19 de outubro de 1908, três semanas após sua morte o
declara como branco.
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Trecho da Certidão de óbito de Machado de Assis. (FOTO | Reprodução | Internet). |
A
declaração do documento destoa dos vastos testemunhos sobre a negritude de
Machado de Assis, mas confirma a campanha oficial para branqueá-lo. Importante
notar aqui que este documento possui uma anomalia estudada pela cientista
social Simone da Conceição Silva, esta anomalia consiste em estar declarada a
cor da pessoa morta, para a pesquisadora é estranho que a certidão de óbito de
Machado de Assis a traga, pois este tipo de declaração só passou a ser
obrigatória no Brasil em 1973.
Apesar
de constituir uma falsa declaração da branquitude do escritor o atestado de
óbito vai servir de base para sustentar vários argumentos sobre a suposta pele
branca ou no máximo mulata do autor. Essa obsessão em descrever Machado de
Assis como branco vai ecoar nas celebrações do seu centenário nascimento em
1939.
Para
desmontar os argumentos sobre a negritude do escritor, argumentos estes que
tinham principal base sua ascendência africana, pai, avós paternos e o fato de
haver nascido no Morro do Livramento, a região da Pequena África no Rio de
Janeiro, exibiu-se na Academia Brasileira de Letras a certidão de nascimento de
Machado de Assis como prova irrefutável de sua dívida com a branquitude luso-brasileira:
Aos treze dias do mês de Novembro de mil
oitocentos e trinta e nove annos na Capella da Senhora do Livramento filial a
esta Matriz com Provizão do Illustrissimo e Reverendissimo Monsenhor, e Vigário
Capitular Narcizo da Silva Nepomuceno, e minha licença o Reverendo Narcizo José
de Moraes Marques baptizou, e pos os Santos Oleos a Joaquim, innocente filho
legítimo de Francisco Jozé de Assis, e Maria Leopoldina Machado de Assis, elle
natural desta Côrte, e Ella da ilha do Faial, digo, Ella da Ilha de São Miguel:
forão padrinhos o Excellentissimo Viador Joaquim Alberto de Souza da Silveira,
e Dona Maria Jozé de Mendonça Barrozo, nasceo aos vinte e hum de junho do
prezente anno: de que fis este assento.
O Vigr.° Jozé Francisco da Silva Cardoso. (COSTA
& FRANCO, p. 49)
O
documento causou impacto, pois para a intelectualidade do Estado Novo
representava o triunfo do elemento lusitano sobre o africano, demonstrando que
aqueles que insistiam em Machado de Assis negro estavam enganados. A partir
desse momento a crítica e a história da literatura trabalhará durante todo o
século XX, com a representação de um Machado de Assis branco.
Para
ajudar na manutenção do mito da branquitude de Machado de Assis a iconografia,
registros fotográficos e pinturas guardados na Academia Brasileira de Letras
será de grande importância. Nas fotografias em branco e preto, o escrito é
representado como um jovem quase imberbe, sentado numa escrivaninha encarando o
espectador, nesta fotografia seus traços afrodescendentes foram quase apagados pelo
trabalho de retoque do estúdio.
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Fotografia de Machado de Assis como esta acima ajudaram a divulgar a imagem do gênio
da literatura brasileira como um homem branco (FOTO | Reprodução | Internet). |
Em
outra fotografia ele aparece já como um senhor maduro, barbado e grisalho
olhando fixamente para um horizonte ausente como se contemplasse
misteriosamente algo que só a ele é dado ver. Ainda nesta fotografia procurou-se
apagar sua negritude. No entanto, apesar de todo os esforços por invisibilizar
sua afrodescendência através dos retratos divulgados ao público, a sua
ascendência negra não escapou aos olhos dos estudiosos mais atentos, segundo um
destes:
Alguns
o consideram como branco. Examinando os retratos que dele nos ficaram, nota-se
que, adulto, tinha, como muitos brasileiros, alguns traços negroides: cabelos
ligeiramente crespos, o lábio inferior bastante carnudo, um nariz antes
achatado. Estes traços mais ou menos acentuados segundo os vários retratos, são
bem encobertos pelo uso da barba. (MASSA, p.46-47)
Quem
assim se pronuncia é o crítico francês Jean-Michel Massa no seu livro A
juventude de Machado de Assis de 1947. Apesar dessa percepção do autor
francês a regra entre os estudiosos brasileiros da vida e da obra machadiana
foi sempre considerá-lo não-negro. Os vastos estudos bibliográficos, de crítica
literária e história da literatura que serão escritos por diferentes autores no
decorrer do século XX, procurarão obsessivamente repensar a condição de mulato
de Machado de Assis e todos eles concomitantes num ponto, não aceitam a
negritude do escritor.
Somente
no século XXI começa-se a rediscutir a afrodescendência de Machado de Assis e
as obsessivas tentativas de branqueá-lo ao longo da história do Brasil. Estudos
como o de Sidney Shalhoub “Machado de Assis Historiador” e de Eduardo de Assis “Machado
de Assis Afrodescendente” reabriram o debate sobre a presença do negro na obra
do romancista.
Machado
de Assis segundo esses historiadores era um homem negro e como tal agia, também
agia como um intelectual negro observando as elites brancas por dentro, também
agia como um funcionário público negro dentro do alto escalão da monarquia e da
república, e agia igualmente como um jornalista negro num país escravocrata e
racista.
REFERÊNCIAS
COSTA
& FRANCO, Machado de Assis, José Olympio, Rio de Janeiro, 1988.
LACERDA,
João Baptista de. Informações prestadas ao Ministro da Agricultura Pedro de
Toledo Rio de Janeiro: Papelaria Macedo, 1912a.
MASSA,
Jean-Michel, A juventude de Machado de Assis, Ministério da Educação,
1947.
ROMERO,
Nelson. A história da literatura brasileira. 3. ed.. Rio de Janeiro:
Editora Zélio Valverde, 1944.