O desafio das esquerdas: retomar o diálogo com as massas


Roberto Amaral é cientista político. (FOTO/ Divulgação).

A irresponsabilidade do governo federal  potencializou os danos da pandemia, e já disputamos com os EUA de Trump o campeonato de mortos e infectados. A economia se dissolve como sorvete no asfalto: depois do pífio crescimento de 1,1% do PIB em 2019, devemos chegar até o final do ano com uma queda em torno de 11%. Até uma mente brilhante como o presidente da Fiesp sabe traduzir essa taxa como indicadora de longa onda de insolvências.

Não há estimativas confiáveis sobre o número de falências de pequenas e médias empresas, mas sabe-se, hoje, dados do IBGE (Estadão, 1/7/2020) que o desemprego atinge 87,7 milhões de pessoas em idade economicamente ativa, uma população desde sempre precarizada e vulnerável, sem perspectivas de retorno ao mercado de trabalho, atingido pela crise estrutural da economia, pelo aumento da concentração de empresas e pelos avanços acelerados da digitalização, poupadora de mão de obra.

Os analistas, e mesmo instituições como o Banco Mundial, estimam um alto crescimento de brasileiros em situação de extrema pobreza. Queda nas exportações, desindustrialização, déficit fiscal, queda da arrecadação, colapso das economias estaduais, renúncia aos investimentos promotores de desenvolvimento, renda e emprego, bem como privatização e desnacionalização de empresas estratégicas.  Nada mais falta para a depressão e o caos social, o grande legado da “pauta Guedes”, ainda a menina dos olhos da grande imprensa e do “mercado”, que comemora o fim das garantias trabalhistas e o desmonte da previdência social.

O pano de fundo é a sistemática investida contra o ensino, a pesquisa, a ciência, a tecnologia, a cultura, o conhecimento. São as agressões ao patrimônio histórico, a depredação do meio ambiente. Um celerado é forçado a deixar o ministério da educação e foge, como mafioso, para Miami. Em seu lugar entra um “técnico”, flagrado como plagiário e mentiroso, dizendo-se possuidor de títulos acadêmicos  que não conquistou. Supõe-se que seja um militar.

Moldura desse quadro de horrores, a cada dia ficam mais evidentes as ligações da família presidencial com as milícias fluminenses – daí as ruas haverem cunhado o termo familícia.

Mais da metade dos brasileiros (54%), informa pesquisa da agência Quest (Site Jota, 22 de junho corrente), consideram o governo do capitão ruim ou péssimo; 71% disseram estar preocupados com o futuro do país e 63% acham que o país está indo na direção errada.

Segundo o Datafolha (26/06/2020), 44% dos brasileiros rejeitam o governo. Pesquisa do Instituto Travessia, divulgada pelo Valor (26/06/2020), diz-nos que 71% dos brasileiros perderam renda, com maior incidência entre os mais pobres, os que recebem até dois salários mínimos (2.090 reais) ao mês; 52% se dizem a favor das manifestações em defesa da democracia, 56% desaprovam a gestão da crise da pandemia e 41% consideram a administração federal ruim ou péssima.

No entanto, as sondagens de opinião dessas diversas agências e institutos, dizem, na média, que o capitão conserva o apoio de cerca de 32% do eleitorado, um índice de resiliência simplesmente espantoso, que, mantido, poderá assegurar-lhe presença no segundo turno das eleições de 2022. Dentre os que sempre o apoiaram, 92% contam-se entre os mais satisfeitos. Segundo a socióloga Esther Solano, coordenadora de pesquisa qualitativa realizada com moradores da cidade de São Paulo e de cidades da região metropolitana os eleitores de Bolsonaro – sorteados entre ex-votantes, desiludidos e frustrados – disseram que votariam novamente no capitão em 2022 “caso não encontrassem alternativa política ou eleitoral”.

Ainda de acordo com o Datafolha, o capitão tem o apoio de 42% do eleitorado do sul do país e de 61% do sudeste. O castelo forte da rejeição (52%) é o nordeste.

A enquete do Instituto Travessia também apura a intenção de voto para presidente da república nas próximas eleições. A liderança é do paraquedista, com 25% das menções, seguido por Lula, com 19%, e Moro (12%). Segundo o mesmo Valor (“Retrato de um Brasil em crise”, por Carlos Rydlewski) o capitão vence o ex-presidente no sul (32% a 12%) e no norte/centro-oeste (36% a 13%), ganha no sudeste (23% a 17%) e só perde no nordeste (17% a 30%), até aqui conservado como reduto petista (26,9% do eleitorado nacional).

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Artigo de Roberto Amaral, na CartaCapital. Clique aqui e confira na íntegra.

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