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| Milton Santos. (FOTO | Itaú Cultural | autor desconhecido). |
No dia 3 de maio deste ano o Brasil celebrou o centenário de Milton Santos, nosso maior geógrafo e um dos intelectuais mais respeitados do século XX. Nascido em Brotas de Macaúbas, na Chapada Diamantina, filho de professores primários, Santos foi alfabetizado em casa e construiu uma trajetória que o levou das salas de aula da Bahia às universidades de diversos países. Sua obra é uma denúncia radical das desigualdades que nos convoca para a resistência política.
Milton
Santos revolucionou a geografia ao afirmar que o espaço não é neutro. Em Por uma outra globalização (2000), mostrou
que a globalização não é apenas integração, mas também representa exclusão,
concentração de riqueza e aprofundamento das
desigualdades.
Ele
também revelou como tecnologia e informação, longe de democratizar o mundo,
podem reforçar hierarquias e marginalizar povos inteiros. Para o movimento negro
brasileiro, essa análise foi decisiva, pois evidenciou como o racismo
estrutural se territorializa, como as periferias e favelas são empurradas para
fora do mapa da cidadania.
Se
Heidegger dizia que o ser humano é um “ser-no-mundo”, Milton Santos radicaliza essa ideia ao mostrar que esse
mundo é desigual, fragmentado e
racializado. O espaço não é apenas cenário, mas condição de
possibilidade da vida. Nesse sentido,
sua obra dialoga com Frantz Fanon, que denunciou a colonialidade como ferida ontológica.
Santos
nos mostra que a geografia é a ciência que revela como essa ferida se territorializa nas periferias, nas favelas,
nos territórios negros. Sua crítica à
globalização é também uma crítica filosófica ao universalismo abstrato
que invisibiliza particularidades e
perpetua hierarquias.
Em
As cidadanias mutiladas (1996), Santos escreveu: “Não importa a festa que me
façam aqui ou ali, o cotidiano me indica que não sou cidadão neste país.”
Essa frase não é apenas denúncia
política, mas reflexão ética. Ele nos lembra que a cidadania, quando negada ao povo negro, não é
apenas ausência de direitos, mas
mutilação da própria condição humana.
Nesta
perspectiva, Santos se aproxima de Aimé Césaire, que dizia que a colonização brutaliza tanto o colonizado
quanto o colonizador. A mutilação da
cidadania é, portanto, um problema filosófico, visto que nos obriga a
repensar o que significa ser humano em
sociedades estruturadas pelo racismo.
Billy
Malachias chamou Milton Santos de “geógrafo das quebradas”. Nada mais justo.
Sua obra não se limita às elites acadêmicas, fala das favelas, das periferias,
dos territórios onde o povo negro
resiste. A Ocupação Milton Santos no Galpão Bela Maré, na comunidade da Maré,
no Rio de Janeiro, traduz esse legado ao aproximar documentos, fotografias e objetos pessoais do
público das favelas, local onde a
geografia crítica se encontra com a arte contemporânea, mostrando que
pensar o espaço é pensar a vida concreta
das maiorias excluídas.
Milton
Santos foi forçado ao exílio após o golpe empresarial-militar de 1964. Lecionou em Toulouse, Paris, Massachusetts,
Toronto, Lima, Lisboa, Tanzânia, Nova
Iorque entre outros lugares. Essa experiência lhe deu ferramentas para
construir uma pedagogia da
descolonização, aprender a desaprender, como propõe Walter Mignolo, e reaprender a partir das epistemologias do
Sul.
Seus
mapas invertidos, que colocam o Brasil no centro ou viram a América de cabeça para baixo, não são apenas exercícios
cartográficos, mas gestos filosóficos
que rompem com a hierarquia simbólica que sempre colocou o Norte como
superior e nos ensinam a pensar o mundo
a partir das margens.
Sua
obra é também uma ética da insurgência ao não aceitar o mundo como dado, mas como construção histórica que pode
e deve ser transformada. Ao propor uma
geografia crítica, Santos nos mostra que pensar o espaço é pensar a
liberdade. Sua filosofia é inseparável
da luta política e sua negritude é consciência crítica que atravessa toda sua produção.
Celebrar
o centenário de Milton Santos é reconhecer que sua obra é transversal:
geográfica, política e filosófica. Ele nos ensinou que o espaço é disputa, que
a cidadania negra é mutilada, que a
globalização é desigual, mas também que há sempre possibilidade de resistência
e vitória.
Sua
filosofia do espaço é uma filosofia da negritude pois pensa o mundo a partir
das quebradas, das periferias, dos territórios negros. Ao fazê-lo, Milton
Santos nos convoca a construir uma pedagogia da descolonização, uma ética da
insurgência e uma ontologia da liberdade.
O
centenário de Milton Santos não é apenas memória, é chamado à luta. É a lembrança de que o Brasil só será livre
quando o povo negro for plenamente cidadão,
quando o espaço deixar de ser palco de exclusão e se tornar território
de emancipação. Milton Santos nos legou
não apenas uma geografia, mas uma filosofia
da resistência. E essa filosofia continua urgente, necessária e
encantadoramente viva.
_______
Por José João “Léo” Maciel, no Geledés.

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