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| (FOTO | Reprodução). |
É a dimensão ancestral, o maior pulso de conexão artística na exposição “Imaginação Radical: 100 anos de Frantz Fanon”, no Museu das Favelas. Na direção artística da exposição, cuja curadoria assino ao lado de Jairo Malta, a exposição convoca o psiquiatra Fanon não como monumento da teoria crítica, mas como força em circulação no presente. Ao refletir sobre a cultura nacional argelina, Frantz Fanon argumentou que a luta reintegraria os antepassados não como figuras de museu, mas como presenças vivas capazes de orientar um povo em marcha.
Nascido
na Martinica, em 1925, Fanon permanece como uma das principais referências para
compreender os impactos psicossociais da colonização sobre corpos negros e as
continuidades da violência colonial na modernidade. Aos 36 anos Fanon falece,
mas seu pensamento segue atravessando importantes movimentos políticos,
culturais e subjetivos ao redor do mundo.
Seus
livros “Pele Negra, Máscaras Brancas”
e “Os Condenados da Terra” ocupam
posição consolidada nos círculos acadêmicos, espaços que permanecem majoritariamente
atravessados pela branquitude institucional. Encontrar Fanon em um território
dedicado à produção de saberes periféricos produz outra experiência de
reconhecimento e acesso ao próprio pensamento do psiquiatra. Por isso, a
direção artística desloca o eixo clássico da curadoria contemporânea na
apresentação de um personagem histórico, não monumentaliza Fanon, nem converte
sua imagem em arquivo heróico e distante. Psiquiatra negro é convocado como
ancestral na exposição, cuja oração “Ó
meu corpo, faça de mim um homem que questiona”, serve como impulso
curatorial na mostra.
Essa
convocação a si, reconhecendo esse corpo negro como disruptivo, ativa e
potencializa na exposição em diferentes contextos e nuances com uma comunidade
de artistas convidados, públicos, trabalhadores do museu, assim como
fornecedores em sua maioria negra, migrante, racializada, periférica se move
junto com pensamento de Fanon.
Ocupando
um andar inteiro do Museu das Favelas, a exposição se realiza como potência
crítica no marco histórico da invasão colonial em São Paulo, o largo Pateo do
Colégio, local onde os jesuítas estabeleceram o início do processo de
colonização portuguesa na região, marcado pelas transformações sociais,
culturais e territoriais impostas às populações originárias.
A
celebração de 100 anos de existência de Frantz Fanon, colabora veementemente
com as discussões e estudos críticos da questão Negra, não apenas no Brasil,
mas no mundo. Isso se deve ao fato de que a exposição realoca a discussão, ao
ser erguida no território que enaltece as favelas e periferias, não uma
pedagogia da violência colonial e arquivos de uma vida em luta, mas da
afirmação da radicalidade na vida cotidiana partilhada por pessoas, espaços e
territórios, que avançam sobre a mira colonial com um outro projeto de mundo em
execução.
A
exposição reuniu em torno dos pensamentos, vida e trajetos de Fanon 40 artistas
de oito países e territórios da África, América Latina, Caribe e Europa. Mais
de 90% dos participantes são negros, indígenas, migrantes, quilombolas,
periféricos, racializados ou refugiados. Nessa revoada, a curadoria aproximou
artistas presentes nos grandes circuitos da arte e pesquisadores historicamente
deslocados das centralidades institucionais, promovendo um campo de fricção
relacional entre obras, experiências, trânsitos e territórios.
O
auto-ódio, as fraturas psíquicas da colonização e as violências dirigidas ao
corpo negro deixam de aparecer como abstração sociológica, como o própio autor
trata o assunto, mas agora em diálogo com artistas, pesquisadores e público que
vivenciam na pele, no chão, na mente as sistemáticas das mazelas da
colonialidade.
Assim,
a relação entre exposição e público produz outro regime de experiência: grande
parte dos visitantes — que corresponde a 66% de pessoas negras — não observa a
violência colonial à distância, mas atravessa diariamente seus mecanismos no
corpo, na linguagem e na memória.
Nesse
contexto, a condição negra colonizada deixa de aparecer apenas como objeto de
análise para tornar-se experiência compartilhada entre obras, espaço expositivo
e público. Ao reconhecer na paisagem iconográfica da mostra questões que também
constituem sua vida, o visitante passa a integrar a própria composição da
exposição.
Em
diálogo estreito com Danielle Almeida, responsável pela direção executiva do
projeto no Museu das Favelas, desenvolvemos metodologias e processos de
trabalhos que aproximam a obra de Fanon das práticas cotidianas das equipes
envolvidas na realização da mostra. Com esse corpo de trabalho composto
majoritariamente por pessoas negras, sobretudo mulheres e pessoas da comunidade
LGBTQIAPN+, a exposição no museu também desloca os modos tradicionais de produção
da arte contemporânea. A cadeia de produção intelectual, operativa e mediação
não são campos separados, mas uma mesma engrenagem de construção da mostra com
estratégias de descolonização dos próprios modelos expositivos com
metodologias, parcerias e empenhos que dialogam com toda a força criativa do
centenário.
Em
Imaginação Radical: 100 anos de Frantz Fanon, a descolonização deixa de ser
apenas horizonte discursivo ou leitura das obras distanciadas na fala de Fanon
e passa a se inscrever na própria arquitetura institucional da exposição.
A
própria realidade das periferias paulistanas, atravessadas por múltiplos
sotaques, deslocamentos e experiências migratórias, encontra eco nessa
composição. A favela surge como campo vivo de circulação internacional de
culturas, lutas e experiências diaspóricas, fazendo desta a primeira exposição
de dimensão internacional nos quatro anos do Museu das Favelas.
Isso
fica evidente pela experiência sonora e linguística que cruza a exposição. Ao
deslocar o português como centro da escuta nas obras audiovisuais na exposição,
a direção artística propõe observar a favela como território de convergência,
tradução e reinvenção em diálogo com periferias para além do Brasil. Os vídeos
são apresentados em árabe, espanhol e hassania, e integram o ambiente sonoro
expositivo.
Essa
dimensão também atravessou a programação pública da mostra. Pensadores como
Malcolm Ferdinand participaram de diálogos vinculados à exposição, discutindo
os atravessamentos de seu pensamento em “Ecologia
Decolonial”. Dénètem Touam Bona integrou a programação em conversa com
Danielle Almeida a partir do livro “A
Sabedoria do Cipó”, que propõe uma reflexão sobre formas de vida e
resistências que escapam à lógica colonial de dominação e controle. Já Deivison
Faustino mobilizou debates sobre Fanon no contexto brasileiro, enquanto Léa
Mormin-Chauvac em conversa com Luciara Ribeiro abordou o papel de mulheres
negras martinicanas na formulação do movimento da negritude e dos projetos de
emancipação no Caribe.
Nesse
contexto, ganha relevância decisiva o fato de que mais da metade do público do
museu seja composta por pessoas negras e periféricas, assim como a maior parte
do corpo de trabalho: não se trata apenas de um dado demográfico, mas de uma
inflexão estrutural no regime de acesso à arte e nas práticas institucionais.
Essa presença tensiona as formas tradicionais de mediação e desloca a lógica da
fruição estética museológica distanciada, embranquecida, ampliando a prática
curatorial para o conjunto do processo expositivo que insere a experiência
vivida do público como uma proposta de desmobilização dos modos de apresentação
canônica.
A
descolonização aparece, assim, não apenas como tema, mas como princípio
estruturante da própria exposição, atravessando sua feitura, sua organização e
os modos de relação que ela produz. Desse gesto emerge uma experiência negra
compartilhada, sustentada pela compreensão de que a ancestralidade não existe
de forma isolada, fixa ou monumentalizada. Ao contrário, por constituir-se como
força dinâmica e relacional, ela somente pode ser ativada no interior da
comunidade que a reconhece, a sustenta e a mantém em circulação.
É
precisamente nessa operação que reside uma das forças centrais da direção
artística de Imaginação radical: 100 anos de Frantz Fanon, no Museu das
Favelas. Fanon não aparece como figura distante, estabilizada pela celebração
institucional, mas como presença celebrada entre os seus. E é justamente porque
está abarcado por sua comunidade negra, racializada, entrelaçados em suas
memórias, práticas de libertação e esforços de vida, que ele pode ser acionado
como ancestral.
A
exposição, assim, não apenas homenageia Fanon: ela constrói as condições
comunitárias para sua permanência viva, e assim o convoca como um ancestral na
radicalidade da imaginação descolonizadora que sempre impulsionou as frentes de
lutas negras pelo mundo.
________
Com informações da Alma Preta Jornalismo.

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