A escritora, filósofa e ativista afro-americana Angela Davis aproveitou sua participação na 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), ocorrida neste fim de semana, no Rio de Janeiro, para fazer críticas à extrema direita, ao governo do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e às tentativas de interferência dos Estados Unidos nas eleições brasileiras.
Sem citar nominalmente Bolsonaro nem o presidente estadunidense Donald Trump, Davis defendeu que o Brasil impeça a chegada ao poder do “filho daquele”, em referência ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que oficializou recentemente a sua candidatura à Presidência da República em 2026.
Ao discutir o avanço de governos de extrema-direita na Europa, na América Latina e nos Estados Unidos, a intelectual afirmou que esses grupos não representam a maioria da população e defendeu que os movimentos sociais reconheçam sua capacidade de organização.
“Somos mais fortes do que aqueles que fingem nos governar. Não temos consciência da nossa força porque nossa concepção de poder está ligada àqueles que elegemos”, afirmou.
Na sequência, Davis voltou o olhar para o cenário político brasileiro. Ao dizer que o desafio do país nas próximas eleições é impedir a vitória do “filho daquele”, a mediadora citou o sobrenome Bolsonaro. A escritora respondeu que evita pronunciar o nome do ex-presidente.
“Há uma tradição africana que diz que o ato de nomear alguém dá poder. Então me recuso a nomeá-lo”, declarou.
Interferência externa e concentração de riqueza
Angela Davis também alertou para o que classificou como tentativa de interferência dos Estados Unidos no processo eleitoral brasileiro. Sem mencionar Trump diretamente, ela pediu que o eleitorado brasileiro não permita influência externa sobre a disputa presidencial.
A ativista ainda relacionou a ascensão da extrema-direita ao avanço da concentração de riqueza e retomou reflexões da intelectual brasileira Lélia Gonzalez sobre capitalismo e desigualdade racial.
Segundo Davis, essas análises permanecem atuais diante do surgimento dos primeiros trilionários do planeta.
Ao citar o empresário Elon Musk como exemplo desse processo de concentração econômica, a escritora afirmou que a acumulação de riqueza está associada à exploração do trabalho e dos recursos naturais.
“Vivemos um momento em que bilionários e trilionários exploram a terra e parecem se importar apenas em acumular cada vez mais riqueza. Eles são responsáveis não apenas pela exploração dos seres humanos, mas também pela exploração desenfreada dos recursos naturais, a ponto de a devastação ambiental alcançar um nível tão grave que talvez, no futuro, já não exista um planeta habitável”, apontou.
As declarações ocorreram durante a mesa “América e África: uma conversa Atlântica”, que reuniu reflexões sobre democracia, racismo, justiça social e os desafios políticos contemporâneos.
Reconhecida internacionalmente por sua trajetória no movimento negro e na defesa dos direitos humanos, Angela Davis tem mantido interlocução com intelectuais e movimentos sociais brasileiros, especialmente em debates sobre racismo, feminismo negro e sistemas de encarceramento.
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Com informações da Alma Preta e Folha de S. Paulo.

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