31 de maio de 2026

Racismo e pobreza empurram jovens para exclusão escolar e trabalho precário no Brasil

A imagem mostra um grupo de crianças na frente de uma escola. (FOTO | Marcelo Camargo | Agência Brasil).

O estudo “Juventudes Brasileiras Minorizadas” reúne, pela primeira vez, análises sobre educação, trabalho e acesso a direitos de 13 grupos de juventudes minorizadas no Brasil. A pesquisa aponta que raça e condição socioeconômica definem quem enfrenta mais obstáculos para concluir os estudos, acessar empregos formais e permanecer protegido por políticas públicas.

Produzido pela Fundação Roberto Marinho, Itaú Educação e Trabalho e Iede, em parceria com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), o levantamento analisa trajetórias de juventudes negras, indígenas, quilombolas, rurais, LGBTQIAPN+, jovens mães, pessoas com deficiência, estudantes de escolas públicas, adolescentes submetidos ao trabalho infantil, refugiados e adolescentes em medidas socioeducativas, entre outros grupos.

O estudo sustenta que desigualdades históricas atravessam essas trajetórias desde a educação básica até a inserção profissional. Entre os principais fatores identificados aparecem a falta de acesso à internet, os deslocamentos longos, a necessidade de conciliar estudo e trabalho e a entrada precoce em ocupações sem proteção trabalhista.

Os dados mostram que o impacto da exclusão recai de forma concentrada sobre a população negra. Segundo a pesquisa, o Brasil possui 11,9 milhões de jovens em situação de pobreza. Entre os jovens em extrema pobreza, 74,9% são negros. Mulheres negras representam 40% da juventude pobre do país.

A desigualdade também aparece na permanência escolar. De acordo com a PNAD Contínua 2025, o país registra 7,9 milhões de jovens fora da escola sem concluir a educação básica. Sete em cada dez pertencem à população negra. Entre jovens em extrema pobreza, o percentual dos que abandonaram a escola antes da conclusão dos estudos chega a 31,7%.

A violência urbana amplia esse cenário. Jovens negros aparecem como vítimas em proporção quatro vezes maior do que jovens brancos. Para os pesquisadores, o cruzamento entre raça e renda explica por que o acesso a oportunidades ocorre de forma desigual no país.

A chefe de Educação do Unicef no Brasil, Mônica Dias Pinto, afirma que políticas públicas precisam atuar nas causas históricas da exclusão. Segundo ela, o país precisa fortalecer ações de busca ativa escolar, proteção social, permanência estudantil e educação antirracista para garantir uma transição entre escola e trabalho.

“Só assim será possível garantir, a cada adolescente e jovem desses grupos, uma transição positiva da escola para o mundo do trabalho”, defende Mônica.
Juventudes indígenas, quilombolas, rurais e LGBTQIAPN+

A pesquisa mostra que as desigualdades também se expressam nos territórios. Jovens indígenas e quilombolas enfrentam dificuldades para acessar universidades e oportunidades de trabalho sem deixar suas comunidades.

O Brasil possui cerca de 443 mil jovens indígenas entre 15 e 29 anos, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Mais da metade vive fora das terras indígenas. 

A taxa de analfabetismo entre jovens indígenas é três vezes maior do que entre não indígenas, enquanto apenas 42% dos indígenas de 18 a 29 anos concluíram o ensino médio, frente a 54% da juventude brasileira em geral.

O estudo também alerta para a incidência de violência. Entre jovens indígenas, a taxa de suicídio chega a ser oito vezes maior do que entre jovens brancos e negros.

Entre os quilombolas, houve crescimento de 57% nas matrículas do ensino médio em escolas quilombolas entre 2014 e 2024. Mesmo assim, cerca de 30% dos estudantes apresentam atraso escolar, acima da média nacional de 17,8%. Além disso, 87% das juventudes quilombolas vivem fora de seus territórios.

Nas áreas rurais, os indicadores de exclusão escolar e informalidade superam os das cidades. O levantamento mostra que 33% dos jovens do campo estão fora da escola sem concluir a educação básica. Nas áreas urbanas, o índice é de 16,5%. A informalidade atinge 69% das juventudes rurais, contra 41% entre jovens urbanos.

Escola pública concentra impactos das desigualdades

A escola pública é identificada no material como espaço central de proteção social e construção de perspectivas de vida. Ao mesmo tempo, aponta que estudantes da rede pública concentram piores indicadores de aprendizagem, maiores taxas de insucesso escolar e níveis mais altos de distorção idade-série.

É destacado ainda que estudantes LGBTQIAPN+ enfrentam violência e bullying, enquanto jovens com deficiência lidam com barreiras de acessibilidade e exclusão educacional.

Entre jovens com deficiência, o analfabetismo chega a 11,7%, contra 0,5% entre pessoas sem deficiência. O cenário se agrava entre pessoas com deficiência severa, mulheres e jovens pretos, pardos e indígenas.

A pesquisa também relaciona gravidez na adolescência à evasão escolar e à pobreza. Entre jovens de 15 a 19 anos com filhos, 60,8% estão fora da escola sem concluir os estudos. Entre aqueles sem filhos, o índice cai para 8,3%.

A presença feminina nas áreas de ciência e tecnologia também foi objeto de análise. Embora as mulheres representem 55% dos jovens com ensino superior inseridos no mercado de trabalho, elas ocupam apenas 38% das carreiras STEAM. Entre mulheres negras, a participação é menor.

Trabalho infantil, medidas socioeducativas e refúgio

Também foram analisadas as trajetórias marcadas por sucessivas exclusões. Mais da metade dos adolescentes em medidas socioeducativas ainda frequenta o ensino fundamental, apesar da idade correspondente ao ensino médio. Segundo os pesquisadores, o atraso escolar limita o acesso a direitos e oportunidades profissionais.

Outro dado destacado envolve o trabalho infantil. Em 2024, cerca de 1,6 milhão de crianças e adolescentes entre 5 e 17 anos estavam em situação de trabalho infantil no Brasil. O levantamento aponta que adolescentes trabalhadores apresentam maior exclusão escolar e maior exposição à violência e exploração.

Entre jovens refugiados, os pesquisadores identificaram obstáculos ligados à interrupção das trajetórias escolares, barreiras linguísticas e dificuldades para validar documentos. Dados do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) mostram que 55% das pessoas refugiadas no Brasil estavam desempregadas em 2023.

Para o diretor-fundador do Iede, Ernesto Martins Faria, o estudo amplia o debate sobre desigualdade ao incluir juventudes pouco contempladas em análises nacionais. 

“O Brasil tem desigualdades profundas, que criam obstáculos para diferentes grupos ao longo de suas trajetórias educacionais e de inserção no mercado de trabalho. Ainda assim, muitas vezes limitamos as análises a alguns recortes, como renda, gênero e raça, que são fundamentais, mas não devem ser os únicos”, explica.

Segundo ele, compreender essas especificidades representa condição necessária para ampliar oportunidades e enfrentar exclusões estruturais.

Estudo escuta jovens em diferentes contextos

A publicação traz relatos de jovens em diferentes situações. Um jovem negro de 29 anos, morador do Complexo da Penha, no Rio de Janeiro, afirmou que teve poucas referências de sucesso e mobilidade social na favela. “A maior perspectiva era concluir o ensino médio e conseguir um trabalho que garantisse viver com dignidade. Não havia planos de ascensão”, disse.

Um jovem de 23 anos, egresso do sistema socioeducativo em Brasília, relatou sua trajetória. “Fui esforçado, mas fiz escolhas erradas, fiquei privado de liberdade. Depois de sair, decidi que não ia virar estatística. Hoje continuo limpo, trabalhando e aprendendo. Já sofri discriminação. Olha para mim: o cabelo, a cor… A primeira impressão é o julgamento”.

“Tive muita dificuldade para ingressar na universidade por problemas na inscrição. A parte financeira pesa muito, principalmente para jovens que precisam sair da comunidade. Acho que isso faz muitos desistirem”, afirmou uma jovem quilombola de 22 anos, moradora de Moju, no Pará.

-------------
Com informações da Alma Preta.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Ao comentar, você exerce seu papel de cidadão e contribui de forma efetiva na sua autodefinição enquanto ser pensante. Agradecemos a sua participação. Forte Abraço!!!