17 de maio de 2026

O estudo sobre Ptahhotep nas escolas constitui ferramenta de valorização da ancestralidade africana

 

Professor Nicolau Neto. (FOTO | Acervo Pessoal).

Por Nicolau Neto, editor

Falar e escrever que muito antes do surgimento da filosofia grega clássica, o continente africano já produzia importantes reflexões sobre ética, justiça, verdade e convivência humana não é novidade. Os mais recentes livros de filosofia adotados em muitas escolas de ensino médio já trazem essa assertiva. No entanto, a pergunta que fica é: por que mesmo com fartas fontes destacando esse pioneirismo africano em muitas áreas do saber científico, principalmente na Filosofia, as narrativas presentes nos livros ainda dão preferência para as narrativas europeia, a grega, sobretudo? Por que autores (as) de livros mesmo citando que filósofos gregos aprenderam em África o que levaram e ensinaram na Grécia, não desenvolvem esses pensamentos nas páginas da forma como é tratado e escrito sobre Grécia?

São indagações feitas em sala de aula junto a estudantes nas aulas de Filosofia e História, na EEMTI Padre Luís Filgueiras, em Nova Olinda-CE. Antes de quaisquer respostas, os (as) estudantes são incentivados (as) a pesquisarem sobre Epistemicídio e Racismo Científico e debaterem sobre seus efeitos desastrosos no processo educativo. Também são incentivados a pesquisarem e escreverem de que maneira se pode confrontar essas narrativas, trazendo outras perspectivas de ensino centrada na diversidade e nas múltiplas histórias que foram propositalmente apagadas. É dentro desse contexto que está o ENSINAFRO, uma pratica pedagógica afrocentrada que idealizamos e que é desenvolvidas nas aulas de História, Filosofia e Sociologia, disciplinas sob nossa responsabilidade.

Na Filosofia, por exemplo, um dos grandes nomes desse legado intelectual está Ptahhotep, africano do Egito antigo considerado por muitos estudiosos como o primeiro filósofo da humanidade. Ele era um Vizir (uma espécie de ajudante ou funcionário) e conselheiro durante a Quinta Dinastia egípcia, aproximadamente no século XXIV a.C., marcada pela descentralização do poder faraônico. Este africano passou a ficar muito conhecido a partir dos seus ensinamentos reunidos nas denominadas “Máximas de Ptahhotep”, correspondendo a um conjunto de orientações morais e filosóficas destinadas a formação ética das pessoas e a construção de uma sociedade baseada na verdade, na justiça e no equilíbrio.

Em seus escritos, que estão registrados no manuscrito Papiro Prisse, um dos mais antigos e valiosos documentos africanos e do mundo, Ptahhotep advogando valores como humildade, respeito, o poder da escuta, a velhice e a ética. Um dos aspectos mais marcantes de seu pensamento era a valorização da escuta como fundamento da sabedoria. Para ele, ouvir atentamente era uma das maiores virtudes humanas, pois somente por meio da escuta seria possível aprender, compreender o outro e agir de maneira justa.

Ptahhotep. (FOTO | Reprodução).

Suas ideias também estão diretamente relacionado ao conceito egípcio de Maat, que representa não só uma deusa (com uma pena na cabeça, filha do deus sol Rá, esposa de Toth - deus da sabedoria - mas também princípio filosófico e espiritual fundamental para que a sociedade funcione com equilíbrio e justiça, pois é ela as próprias leis. Assim, Maat orientava não apenas a vida política e religiosa do Egito antigo, mas também as relações humanas e o compromisso com o bem coletivo. Dessa forma, Ptahhotep contribuiu significativamente para a construção de uma tradição filosófica africana baseada no equilíbrio moral e na responsabilidade social, muito antes do saber que greco-romano, por exemplo.

Seu legado demonstra que a produção do conhecimento filosófico e científico possui profundas raízes africanas, historicamente invisibilizadas por narrativas eurocêntricas. Precisamos destacar que esse debate sobre a centralidade africana na construção do conhecimento está presente nas aulas de Filosofia do 1º ano do Ensino Médio da EEMTI Padre Luís Filgueiras, em Nova Olinda. Lá  abordamos pensadores africanos como Ptahhotep dentro da prática pedagógica afrocentrada denominada “ENSINAFRO ”, que também perpassa disciplinas como História e Sociologia.

A iniciativa busca ampliar a compreensão dos estudantes sobre o quanto há várias áfricas, do passado e do presente, inclusive aquela que foram essenciais para o surgimento das ciências e  para desenvolvimento da humanidade, promovendo uma educação comprometida com a diversidade epistemológica e cultural. O ENSINAFRO contribui diretamente para o cumprimento das Leis 10.639/2003 e 11.645/2008, que tornam obrigatório o ensino da história e cultura africana, afro-brasileira e indígena nas escolas brasileiras.

Ao valorizar intelectuais africanos historicamente apagados dos currículos tradicionais, o “ENSINAFRO” também se apresenta como uma ação de enfrentamento ao epistemicídio — processo de apagamento de conhecimentos produzidos por povos africanos e indígenas — e ao racismo científico, que durante séculos negou a capacidade intelectual dessas populações.

Por fim, mas não menos importante, estudar Ptahhotep nas escolas significa muito mais do que um resgate histórico. É uma importante ferramenta pedagógica de valorização da ancestralidade africana e de construção de uma educação mais crítica, plural e antirracista.

Referências

COSTA JÚNIOR, Nazito Pereira da. Sobre a ética ensinada por Ptah-hotep. UFS, 2024. Disponível em: https://periodicos.ufs.br/omanguezal/article/view/22461. Acesso em: 17 maio 2026.

A Sabedoria de Ptahhotep – Um Ideal de Autorrealização e Serviço aos Outros. Revista Fénix, 2024. Disponível em: https://revistafenix.pt/a-sabedoria-de-ptahhotep-um-ideal-de-autorrealizacao-e-servico-aos-outros/. Acesso em: 17 maio 2026.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Ao comentar, você exerce seu papel de cidadão e contribui de forma efetiva na sua autodefinição enquanto ser pensante. Agradecemos a sua participação. Forte Abraço!!!