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| Professor Nicolau Neto. (FOTO | Acervo Pessoal). |
Por Nicolau Neto, editor
Falar e escrever que muito antes do surgimento da filosofia grega clássica, o continente africano já produzia importantes reflexões sobre ética, justiça, verdade e convivência humana não é novidade. Os mais recentes livros de filosofia adotados em muitas escolas de ensino médio já trazem essa assertiva. No entanto, a pergunta que fica é: por que mesmo com fartas fontes destacando esse pioneirismo africano em muitas áreas do saber científico, principalmente na Filosofia, as narrativas presentes nos livros ainda dão preferência para as narrativas europeia, a grega, sobretudo? Por que autores (as) de livros mesmo citando que filósofos gregos aprenderam em África o que levaram e ensinaram na Grécia, não desenvolvem esses pensamentos nas páginas da forma como é tratado e escrito sobre Grécia?
São indagações feitas em sala de aula junto a estudantes nas aulas de Filosofia e
História, na EEMTI Padre Luís Filgueiras, em Nova Olinda-CE. Antes de quaisquer
respostas, os (as) estudantes são incentivados (as) a pesquisarem sobre Epistemicídio
e Racismo Científico e debaterem sobre seus efeitos desastrosos no processo
educativo. Também são incentivados a pesquisarem e escreverem de que maneira se
pode confrontar essas narrativas, trazendo outras perspectivas de ensino
centrada na diversidade e nas múltiplas histórias que foram propositalmente
apagadas. É dentro desse contexto que está o ENSINAFRO, uma pratica pedagógica
afrocentrada que idealizamos e que é desenvolvidas nas aulas de História,
Filosofia e Sociologia, disciplinas sob nossa responsabilidade.
Na
Filosofia, por exemplo, um dos grandes nomes desse legado intelectual está
Ptahhotep, africano do Egito antigo considerado por muitos estudiosos como o primeiro
filósofo da humanidade. Ele era um Vizir (uma espécie de ajudante ou funcionário)
e conselheiro durante a Quinta Dinastia egípcia, aproximadamente no século XXIV
a.C., marcada pela descentralização do poder faraônico. Este africano passou a
ficar muito conhecido a partir dos seus ensinamentos reunidos nas denominadas “Máximas de Ptahhotep”, correspondendo a
um conjunto de orientações morais e filosóficas destinadas a formação ética das
pessoas e a construção de uma sociedade baseada na verdade, na justiça e no
equilíbrio.
Em
seus escritos, que estão registrados no manuscrito Papiro Prisse, um dos
mais antigos e valiosos documentos africanos e do mundo, Ptahhotep advogando
valores como humildade, respeito, o poder da escuta, a velhice e a ética. Um
dos aspectos mais marcantes de seu pensamento era a valorização da escuta como
fundamento da sabedoria. Para ele, ouvir atentamente era uma das maiores
virtudes humanas, pois somente por meio da escuta seria possível aprender,
compreender o outro e agir de maneira justa.
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| Ptahhotep. (FOTO | Reprodução). |
Suas
ideias também estão diretamente relacionado ao conceito egípcio de Maat, que
representa não só uma deusa (com uma pena na cabeça, filha do deus sol Rá,
esposa de Toth - deus da sabedoria - mas também princípio filosófico e
espiritual fundamental para que a sociedade funcione com equilíbrio e justiça, pois
é ela as próprias leis. Assim, Maat orientava não apenas a vida política e
religiosa do Egito antigo, mas também as relações humanas e o compromisso com o
bem coletivo. Dessa forma, Ptahhotep contribuiu significativamente para a
construção de uma tradição filosófica africana baseada no equilíbrio moral e na
responsabilidade social, muito antes do saber que greco-romano, por exemplo.
Seu
legado demonstra que a produção do conhecimento filosófico e científico possui
profundas raízes africanas, historicamente invisibilizadas por narrativas
eurocêntricas. Precisamos destacar que esse debate sobre a centralidade
africana na construção do conhecimento está presente nas aulas de Filosofia do
1º ano do Ensino Médio da EEMTI Padre Luís Filgueiras, em Nova Olinda. Lá abordamos pensadores africanos como Ptahhotep
dentro da prática pedagógica afrocentrada denominada “ENSINAFRO ”, que
também perpassa disciplinas como História e Sociologia.
A
iniciativa busca ampliar a compreensão dos estudantes sobre o quanto há várias
áfricas, do passado e do presente, inclusive aquela que foram essenciais para o
surgimento das ciências e para desenvolvimento
da humanidade, promovendo uma educação comprometida com a diversidade
epistemológica e cultural. O ENSINAFRO contribui diretamente para o cumprimento
das Leis 10.639/2003 e 11.645/2008, que tornam obrigatório o ensino da história
e cultura africana, afro-brasileira e indígena nas escolas brasileiras.
Ao
valorizar intelectuais africanos historicamente apagados dos currículos
tradicionais, o “ENSINAFRO” também se apresenta como uma ação de enfrentamento
ao epistemicídio — processo de apagamento de conhecimentos produzidos por povos
africanos e indígenas — e ao racismo científico, que durante séculos negou a
capacidade intelectual dessas populações.
Por
fim, mas não menos importante, estudar Ptahhotep nas escolas significa muito mais
do que um resgate histórico. É uma importante ferramenta pedagógica de
valorização da ancestralidade africana e de construção de uma educação mais
crítica, plural e antirracista.
Referências
COSTA
JÚNIOR, Nazito Pereira da. Sobre a ética ensinada por Ptah-hotep. UFS, 2024.
Disponível em: https://periodicos.ufs.br/omanguezal/article/view/22461.
Acesso em: 17 maio 2026.
A Sabedoria de Ptahhotep – Um Ideal de Autorrealização e Serviço aos Outros. Revista Fénix, 2024. Disponível em: https://revistafenix.pt/a-sabedoria-de-ptahhotep-um-ideal-de-autorrealizacao-e-servico-aos-outros/. Acesso em: 17 maio 2026.


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