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| Alexandre Lucas. (FOTO | Acervo pessoal) |
Por Alexandre Lucas, Colunista
A arte só existe enquanto produto histórico e social; do contrário, seria impossível a sua existência. Não é uma produção natural. Na natureza, é possível encontrar elementos que possam remeter à arte pelas suas características estéticas: como o ritmo, a simetria, a composição, os movimentos sincronizados, as formas e texturas etc. Porém, não é arte.
A arte perpassa o campo da produção humana. Somente os seres humanos têm a capacidade de produzir artisticamente por alguns fatores, como memória, comparação, racionalidade, reflexão, apropriação técnica, repasse de conhecimento geracional e produção de tecnologias como ferramenta da própria produção da arte. Do pincel ao computador, da variedade de materiais aos instrumentais da pesquisa artística. Isso está intimamente ligado ao campo da produção humana que se altera no tempo e no espaço, ou seja, na dimensão histórica e social.
Esse aspecto modifica o contexto da concepção da arte e das relações de poder no seu processo de apropriação, aproximação, distanciamento, acesso e consumo. Ao longo da história, as formas e os conteúdos das artes não são únicos, e a sua relação com as estruturas de poder dominante e subalterno também se estratifica e conflita. Vale ressaltar a premissa marxista de que as ideias de uma época são as ideias da classe dominante. Nesse sentido, a produção artística de uma determinada época representa hegemonicamente a ideologia da classe dominante.
É óbvio, neste contexto, que a arte só existe porque existe a vida humana. Reafirmar esse conceito baseado no materialismo histórico e dialético é fundamental para desconstruir a ideia da arte enquanto produto inato do ser humano, ou resultado de um dom, como foi bastante difundido no período medieval , ou ainda resultado de uma genialidade fora do mundo concreto e objetivo. A arte só pode ser resultado das condições materiais e objetivas da realidade; esses são os ingredientes para a produção imaginativa e subjetiva da arte. A relação/conflito do ser individual com o mundo material e imaterial resulta na dialética estética e artística, na forma e no conteúdo, como se apresenta e como se pensar o fazer artístico.
A arte é uma especificidade humana, entretanto é incapaz de ser enjaulada, mesmo seguindo muitas vezes modelos normativos. A história da arte demonstra rupturas estéticas e artísticas ao longo de uma ampla e diversa trajetória: do uso da terra ao sangue menstrual como elemento da pintura, das paredes rochosas e das catedrais ao tecido ou à tela do computador como suporte. A mistura dos instrumentos de bambu e cabaça, misturados aos instrumentos marciais. O hibridismo cultural defendido pelo sociólogo latino-americano Néstor García Canclini é uma demonstração de que a produção artística e cultural não é uma paralisia no tempo e no espaço, mas, pelo contrário, é uma engenharia permanente de construção, desconstrução e reinvenção humana.
Quando pensamos na introdução da sanfona no meio rural, temos um leque de reflexões para serem feitas. Primeiro, a origem deste instrumento e a sua sofisticação de engenharia e matemática. É um instrumento erudito que se populariza no meio do campo não erudito. Essa característica também nos faz pensar sobre a íntima ligação, ou possível ligação, entre o popular e o erudito, entre a tradição e a tradução dos elementos estéticos e artísticos que estão sempre hibridando.
A arte deve ser garantida como um direito humano, de forma ampla, diversa, plural, acolhedora, inclusiva e eminentemente como uma narrativa de produção humana. Olhar para a arte para além do entretenimento e do vetor econômico é fundamental para tê-la como uma estratégia fundamental na construção de um projeto de sociedade. Ou seja, a arte não cabe dentro de um aspecto isolado ou esporádico da vida humana, mas tem que ser percebida como parte inseparável da natureza, da tecnologia e dos espaços formais e não formais de apropriação da produção simbólica produzida pela humanidade.
Nos interessa uma arte que possa servir ao processo de ampliação da visão social de mundo, que instigue processos criativos, que aproxime pessoas para a solidariedade coletiva, que redescubra o mundo, que acenda uma humanidade de partilha da fartura, dos saberes e da alegria comunitária, e que sirva também para reposicionar o olhar crítico e afetivo para o prolongamento da vida no planeta Terra.
O circuito das artes que aproxima os artistas dos céus e das estrelas, da narrativa de mercado e que fortalece apenas grupos fechados talvez não sirva para alterar a lógica dominante, mas sim para reforçar a sua manutenção. É possível construir uma outra alternativa estética e artística alinhada aos interesses da classe trabalhadora, que não seja uma guetização de uma narrativa de inconformismo e de ações pontuais no campo da democratização estética, artística, literária e cultural.
Para isso, é preciso associar a arte a um projeto de sociedade que esteja umbilicalmente conectado ao processo de emancipação da classe trabalhadora e, logicamente, ligado à tomada do poder por essa mesma classe. Afinal, sem a detenção dos meios de produção capazes de ampliar as escalas de acesso à produção cultural e tornar popular o que historicamente é negado à classe dominada, oprimida e explorada: a técnica, a ciência, a chamada arte erudita e colocando a tradição popular como parte integrativa, viva e humanitária da sociedade.
Afinal, a arte é uma grande desculpa para discutir a vida, e é isso que nos interessa.

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