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| Milton Santos. (FOTO | Reprodução). |
O centenário de nascimento de Milton Santos, celebrado neste 3 de maio de 2026, resgata o pensamento de um dos maiores intelectuais brasileiros e referência mundial na geografia crítica. Nascido em 3 de maio de 1926, em Brotas de Macaúbas (BA), Santos faleceu em 24 de junho de 2001, deixando uma obra que segue atual para interpretar o capitalismo global e suas contradições.
Reconhecido internacionalmente — foi o primeiro latino-americano a receber o Prêmio Vautrin Lud, considerado o “Nobel da Geografia” — Milton Santos construiu uma leitura original sobre o espaço geográfico como expressão das relações de poder, da economia e da tecnologia. Seu pensamento permanece central em um mundo marcado por desigualdades crescentes.
Globalização como projeto de poder
Uma das principais contribuições de Milton Santos foi sua crítica à globalização dominante. Em obras como Por uma outra globalização, ele define o fenômeno como uma construção política e econômica conduzida por grandes corporações e pelo sistema financeiro internacional.
Para o geógrafo, a chamada globalização não promove integração equilibrada, mas sim uma “globalização perversa”, que concentra riqueza, amplia desigualdades e marginaliza grande parte da população mundial. Nesse modelo, os benefícios do progresso técnico são apropriados por poucos, enquanto a maioria enfrenta precarização e exclusão.
O espaço geográfico como instrumento de dominação
Milton Santos rompeu com a visão tradicional da geografia ao afirmar que o espaço não é neutro. Para ele, o território é produzido socialmente e reflete as relações de poder existentes na sociedade.
O conceito de “meio técnico-científico-informacional” sintetiza essa ideia: trata-se de um espaço moldado por tecnologia, informação e ciência, mas controlado por interesses econômicos. Esse ambiente reforça a lógica do capital, subordinando cidades, regiões e países a dinâmicas globais.
A centralidade da periferia
Outro ponto central de sua obra é a valorização do olhar a partir do Sul global. Milton Santos defendia que países periféricos, como o Brasil, possuem uma experiência histórica capaz de revelar as contradições do sistema capitalista com mais clareza.
Ao analisar as cidades brasileiras, ele destacou a coexistência de diferentes “tempos” no espaço urbano — áreas altamente modernizadas convivendo com regiões marcadas por informalidade e exclusão. Essa leitura permitiu compreender as metrópoles como territórios fragmentados, resultado de um desenvolvimento desigual.
Por uma outra globalização
Apesar da crítica contundente, Milton Santos não adotava uma visão fatalista. Ele acreditava na possibilidade de transformação. Sua proposta de “outra globalização” apontava para um modelo baseado na solidariedade, na cidadania e no uso social da tecnologia.
Nesse sentido, ele defendia que os mesmos instrumentos que sustentam a globalização excludente — como redes de comunicação e avanços técnicos — poderiam ser apropriados pela sociedade para construir uma ordem mais justa e democrática.
Atualidade de um pensamento radical
Mais de duas décadas após sua morte, o pensamento de Milton Santos se mostra ainda mais relevante. A concentração de riqueza, a financeirização da economia, a precarização do trabalho e as desigualdades urbanas confirmam muitas de suas análises.
Seu legado ultrapassa a geografia e dialoga com economia, sociologia e ciência política, influenciando gerações de pesquisadores e formuladores de políticas públicas. Ao colocar o território e o cidadão no centro da análise, Milton Santos ofereceu ferramentas para compreender — e transformar — a realidade.
O centenário de seu nascimento não é apenas uma celebração acadêmica, mas um convite a revisitar ideias que ajudam a pensar caminhos para um mundo mais equilibrado, soberano e inclusivo.
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Com informações do Brasil 247.

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