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| (FOTO/ Lizely Borges). |
11 de setembro de 2021
STF reconhece omissão do governo Bolsonaro na proteção dos quilombolas
9 de setembro de 2021
Conferência de Durban completa 20 anos: conheça o documento e seus avanços
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| Conferência de Durban completa 20 anos. (FOTO/ CEERT). |
Entre
os dias 31 de agosto e 8 de setembro daquele ano, 173 países, 4 mil
organizações não governamentais (ONGs) e um total de mais de 16 mil
participantes discutiram temas urgentes e polêmicos. O Brasil estava presente
com a maior delegação do mundo, com 42 delegados e cinco assessores técnicos.
O
CEERT fez parte do momento histórico, com a participação dos diretores Cida
Bento, Daniel Teixeira e Mario Rogério. A equipe integrou a mobilização
brasileira desde as conferências regionais preparatórias, promovidas nas cinco
regiões do país, além de participar dos
debates junto a países da América Latina e da África, até chegar ao
encontro mundial.
A
Declaração de Durban influenciou diversas áreas no Brasil e comprometeu o país
na implementação de políticas de combate ao racismo e à promoção da equidade
racial, inspirando também as leis criadas posteriormente.
O
documento também insta as organizações governamentais e não-governamentais, as
instituições acadêmicas e o setor privado a coletarem o dado cor/raça.
Tornam-se mais visíveis estudos a respeito das condições de vida da população
negra, favorecendo o monitoramento de desigualdades e o desenho de políticas
públicas.
Além disso, foi realizada a elaboração do Estatuto da Igualdade Racial, mostrando ao mundo a importância de criar mecanismos de erradicação de todas as formas de preconceito.
______________
Com informações do CEERT. Para saber mais sobre a Declaração de Durban, clique aqui.
8 de setembro de 2021
Direitos Humanos e Talibã: uma breve reflexão, por Cristina Tadielo
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| Fuga do Afeganistão. (FOTO/ Reprodução). |
A
Declaração Universal dos Direitos Humanos observa em seus preceitos “como o ideal comum a ser atingido por todos
os povos e todas as nações, com o objetivo de que cada indivíduo e cada órgão
da sociedade” a liberdade, a igualdade em dignidade e direitos bem como o “espírito de fraternidade” entre os
povos.
Traz
ainda, a potencial responsabilidade dos países em promover e tutelar a Paz
mundial respeitando as sociedades em suas características próprias e culturais,
a partir do momento em que não sejam permissivas em práticas e ataques graves e
severos aos Direitos Humanos.
Pois
bem, nos últimos dias a comunidade mundial assistiu estarrecida, cenas da
tentativa de fuga em massa do Afeganistão, país cuja história é descrita sob
égides de extrema ditadura religiosa que, misturadas a objetivos sociais próprios,
impôs práticas extremistas e de violação dos declarados direitos humanos.
Tais
praticas, comandadas pelo Talibã, grupo fundamentalista islâmico formado no fim
da invasão soviética do Afeganistão (1979-1989) por estudantes, defendem uma
rígida interpretação do Alcorão (livro sagrado do Islã) para governar o país. O
grupo acredita na sua representação como sendo os verdadeiros portadores do
islamismo e tem uma visão peculiar da religião na qual, não há brechas para
diversidade.
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| Cristina Tadielo. (FOTO/ Divulgação). |
A
volta do Talibã ao poder após 20 anos de ter sido expulso por tropas
norte-americanas faz emergir na população afegã, bem como de toda comunidade
internacional, a preocupação quanto a violação dos direitos humanos e as ações
extremistas de tal governo, o que justifica a tentativa de fuga. A formação do
Talibã, no Afeganistão, é um dos muitos efeitos colaterais da bipolarização
entre Estados Unidos e URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas)
durante a Guerra Fria (1945-1991) e em seus contornos revanchistas, atingem a
política e economia internacional de forma efetiva e com conseqüências sociais
de peso humanitário. O conflito é um misto de política e religião em suas
formas mais radicais e extremistas. A laicidade é coloca a termo e direitos culturais
e humanos são colocados em xeque.
Tomando
em conta a igualdade de direitos e a dignidade do ser humano, um recorte há ser
minuciosamente observado, diz respeito a condição das minorias e, principalmente,
à condição da mulher afegã todo este contexto de tomada de poder pelo Talibã.
O
ser humano “mulher”, sob a
interpretação radical, extremista e severa do grupo, é desprovido de autonomia
e, portanto de direitos. Mulheres têm que estar sempre subjugada às ordens dos
homens. Enquanto o Talibã esteve no poder, as mulheres foram tolhidas em
liberdade, respeito, dignidade e, em inúmeras vezes, punidas violentamente por “desobedecerem”.
Ainda
no período em que estiveram fora do poder, demandavam perseguições aqueles que
defendiam direitos universais humanos, principalmente mulheres. Exemplo disso é
a história de Malala Yousafzai baleada por combatentes do grupo após se tornar
conhecida mundialmente defendendo o direito das mulheres e que meninas como ela
tivessem pleno acesso às escolas.
Repercutindo
os fatos narrados, e para além de relativismos culturais e articulações
feministas o recorte social e de gênero insere aspectos imersos na Declaração
dos Direitos Humanos e a necessidade de um discurso objetivo acerca da tutela
humana bem como na defesa efetiva de Direitos fundamentais. A demanda é
complexa e existe um histórico de violação aos direitos humanos, aos tratados e
acordos internacionais por parte do Talibã que não pode ser ignorado. Assim
como não pode ser ignorado um ocidente que, guardadas as proporções, em nome de
divindades descarta as humanidades de acordo com interpretações próprias na
intenção de guerra de poderes e domínios territoriais.
O
que se vê é uma enorme lacuna entre declarações universais e realidades de
sistemas políticos impostos. É fundamental que sob o véu midiático como um
indicativo de solidariedade, estejam os reais mecanismos mundiais de
assistência e cumprimento dos preceitos humanitários declarados em pactos e
tratados internacionais. A preocupação precisa se embasar no refazimento de
nações, não pelo espectro do terrorismo, mas moldado na silhueta e na
culturalidade da pessoa humana com o atento olhar as minorias regimentadas pela
isonomia de seus direitos.
__________
Publicado originalmente no Notícia Preta.
Cristina Tadielo é advogada, Educadora, Psicopedagoga e Pesquisadora. Membro da Comissão de Igualdade Racial da OAB/MG.
7 de setembro de 2021
As ruas ainda estão vazias
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| Centro de Crato-CE (FOTO/ Reprodução/ Prefeitura do Crato-CE.). |
Por Alexandre Lucas, Colunista
Enquanto
caminhava, cantava “Pisa ligeiro, pisa ligeiro, quem não pode com a formiga não
atiça o formigueiro”, seguia um percurso coberto pelo sol de setembro, quente,
que fazia franzir os olhos. Bandeiras de todas as cores se transavam no vento,
talvez simbolizando o desejo do abraço, num tempo em que o abraço está proibido
e que as pernas e os braços ainda são poucos. Os desejos são infinitamente
maiores que nossas pernas e nossos braços.
Seguia
cantando, mas o grito ainda era pequeno, como um choro para dentro, onde somente
os mais próximos escutam.
A
cada pisada pelas ruas, entre cantos de contestação e esperança, olhava para
pessoas que não nos seguiam. Elas ficavam paralisadas nos recantos das suas
portas e janelas, os olhos pareciam pintados, como os de bonecas, estáticos e
sem sensibilidade.
Quase
que fiquei angustiado, quase que acreditei que aqueles olhos do recanto das
janelas e portas não faziam parte do formigueiro que cantava.
Do
lado de lá, de verde e amarelo, com bandeiras dos Estados Unidos e de Israel,
roubam a pátria, a esperança e edificam o ódio. Abriram um bingo para vender e
comprar mentiras, nem Jesus foi salvo, teve a sua palavra negociada por fuzis,
enquanto diminuem o feijão.
Pisa ligeiro, pisa ligeiro, para que sejamos um grande formigueiro com feijão, democracia e olhos traquinos de esperança e felicidade.
Bem diferente dos livros e da pintura: os bastidores Independência do Brasil
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| Tela 'Independência ou Morte', criada por Pedro Américo em 1888 - Domínio Público/ Creative Commons/ Wikimedia Commons. |
Em
meados de 1808, o governo de Dom João VI, então rei de Portugal, era bastante
questionado por aqueles que não concordavam com suas medidas. A pressão,
contudo, não impedia o monarca, que implementou, no mesmo ano, a abertura dos
portos às nações vizinhas e também autorizou o comércio entre o Brasil e a
Inglaterra.
A
oposição, no entanto, continuou intensa em 1817, ano da Revolução Pernambucana.
Na época, diversas pessoas que se voltaram contra a monarquia portuguesa e
decidiram criar uma República independente do resto do Brasil.
Devido
a insatisfação de Portugal sobre as implementações brasileiras feitas por Dom
João VI, o monarca retornou ao país em 1821. Dessa maneira, Pedro de Alcântara
tornou-se príncipe regente e assumiu o conturbado reinado.
Em
apenas um ano de governo, ele também teve que lidar com inúmeras exigências de
Portugal, o que fez com que grande parte da população perdesse o desejo de
continuar vinculado ao país.
O processo de independência do
Brasil
Em
agosto de 1822, a corte portuguesa ordenou a volta do príncipe a Portugal. Ao
ler a carta, Maria Leopoldina, esposa de Pedro de Alcântara, tomou a iniciativa
de romper completamente as ligações com os portugueses.
Dessa
maneira, ela assinou a declaração de independência no dia 2 de setembro. No
entanto, o príncipe regente só teve contato com a carta cinco dias depois, já
que estava em uma viagem a caminho de São Paulo.
No
dia 7 de setembro, o mensageiro Paulo Bregaro alcançou os cavalos da realeza.
Considerado atualmente como patrono dos carteiros, entregou a correspondência
assinada quando todos estavam próximos ao Rio Ipiranga e, minutos depois, Dom
Pedro I gritou "Independência ou morte!", declarando o desligamento
de Portugal com o Brasil.
Os detalhes da ocasião
No
entanto, os que poucos conhecem são as situações por trás do momento histórico.
De acordo com Laurentino Gomes, autor do livro '1822', pouco antes do anúncio,
o monarca sofreu de problemas intestinais que marcaram a declaração da
independência.
“O
destino cruzou o caminho de D. Pedro em situação de desconforto e nenhuma
elegância. Ao se aproximar do riacho do Ipiranga, às 16h30 de 7 de setembro de
1822, o príncipe regente, futuro imperador do Brasil e rei de Portugal, estava
com dor de barriga. A causa dos distúrbios intestinais é desconhecida”,
escreveu Laurentino.
De
acordo com o escritor, a teoria mais aceita é de que o monarca havia ingerido
algum alimento contaminado no dia anterior, enquanto ele e sua comitiva estavam
em Santos.
“Testemunha
dos acontecimentos, o coronel Manuel Marcondes de Oliveira Melo, subcomandante
da guarda de honra e futuro barão de Pindamonhangaba, usou em suas memórias um
eufemismo para descrever a situação do príncipe. Segundo ele, a intervalos
regulares D. Pedro se via obrigado a apear do animal que o transportava para
‘prover-se’ no denso matagal que cobria as margens da estrada”, acrescentou.
Gomes
também relatou quando o imperador fez uma parada em Cubatão devido aos
problemas intestinais. “O príncipe refugiou-se na modesta estalagem situada à
beira do porto fluvial da cidade. Maria do Couto, responsável pelo
estabelecimento, preparou-lhe um chá de folha de goiabeira, remédio ancestral
usado no Brasil contra diarreia”.
Não
obstante, o chá fez com que duas dores sumissem temporariamente, o que lhe deu
ânimo para continuar a viagem e, posteriormente, declarar a independência do
Brasil.
Além
disso, acredita-se a pintura do quadro Independência ou Morte, de Pedro
Américo, não condiz com a verdade. De acordo com os historiadores, o imperador
não estava montado em um cavalo, e sim em uma mula.
Quando
o pintor acadêmico Pedro Américo recebeu a encomenda da família real, ele
abusou de licença poética. Exceto pelo imperador brandindo sua espada e
gritando, tudo no colossal Independência ou Morte é invenção do artista.
Américo
transformou uma cena trivial e provavelmente bem feia num épico de batalha -
colocando um regimento inteiro vestido em uniformes de gala, prestes a
combater, alguns até em posição de combate, com seus cavalos em movimento. Era
certamente a forma como a monarquia brasileira, invicta nas guerras que havia
travado até então, preferia ser representada.
Mas,
como o quadro, era mais pompa e circunstância que realidade: no ano seguinte à
conclusão da obra, o imperador seria deposto num golpe militar. O Museu da
Independência (Museu Paulista), para o qual havia sido encomendado, só seria
aberto em 1895, já durante a República.
Ainda
que o quadro certamente não retrate a vida real, ele é verdadeiro de certa
forma. O que dom Pedro fez, seja lá como se sentisse dos intestinos, foi
realmente um gesto heroico: ao ouvir que a monarquia portuguesa o havia tirado
do cargo de regente do Brasil, ele imediatamente declarou guerra.
__________
Com informações do Aventuras na História.
6 de setembro de 2021
Princesa Isabel teve papel tímido na abolição e gostava mesmo era de fazer sorvete, diz a historiadora Mary del Priore
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| Princesa Isabel morreu em 1921. (FOTO/ Arquivo da Biblioteca Nacional). |
Dia da Independência será marcado por protestos #ForaBolsonaro
O
feriado de 7 de setembro, Dia da Independência, será marcado como mais uma data
de reinvindicação. Em todo o Brasil, protestos contra o presidente Jair
Bolsonaro (Sem Partido) foram articulados por movimentos sociais, entidades e
frentes políticas. Ao todo, segundo levantamento realizado pela Central Única
dos Trabalhadores (CUT), mais de 200 cidades - no Brasil e exterior - estão com
atos confirmados.
Para
a Coalizão Negra por Direitos, em publicação via redes sociais, a população
negra deve comparecer ao ato para pressionar uma gestão que ameaça ao povo
preto, das periferias, das favelas e dos quilombos brasileiros. “Nem bala, nem fome, nem Covid! O povo negro
quer viver!”, exclama a organização.
No
Recife, o ato Fora, Bolsonaro se soma ao tradicional Grito dos Excluídos. Em
sua 27ª edição, a ação traz às ruas o tema “Na
luta por participação popular, saúde, comida, moradia, trabalho e renda já!”.
Com concentração marcada para às 10h, ativistas e populares saem da Praça do
Derby, região central do Recife, seguem pela Avenida Conde da Boa Vista e
finalizam na Praça do Carmo.
As
organizações reiteram o uso de máscara PFF2, álcool-gel nas mãos e e a
necessidade de manter-se em locais arejados. Articuladores ainda pedem que,
caso tenha algum sintoma gripal, o melhor a ser feito é ficar em casa.
__________
Com informações do Alma Preta.
5 de setembro de 2021
A democracia digital e a apropriação do Dia da Independência
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| (FOTO/ Marcelo Camargo/ABR). |
Publicado
originalmente no Jornal da USP – Ao criticar a decisão do Supremo Tribunal
Federal de impedir que recursos públicos sejam usados para financiar sites
bolsonaristas, alegando que com essa medida a corte desrespeitou a liberdade de
expressão assegurada pela Constituição, e ao apoiar a apropriação com fins
políticos do feriado da Independência pelo presidente Jair Bolsonaro, o
patético manifesto de alguns empresários mineiros recolocou na ordem do dia o
impacto, na democracia, da disseminação de mentiras e informações falsas.
Quando
essa discussão começou, há alguns anos, a ideia era que as redes sociais
conduziriam a uma democracia digital, ampliando a participação cidadã no espaço
público da palavra e da ação. Hoje, contudo, o que se vê é preocupante, uma vez
que as técnicas de comunicação on-line simplificaram os debates, levaram à
substituição da reflexão por reações emotivas e permitiram a desqualificação
recíproca de adversários na vida política brasileira. Em vez de diálogos
consequentes, debates construtivos e acordos capazes de assegurar a vontade da
maioria sem desrespeitar os direitos da minoria, episódios como o do desfile de
blindados em Brasília, em agosto, e agora o da convocação da população para
apoiar Bolsonaro numa data cívica, fazem parte de um projeto de regressão do
regime democrático.
Ao
contrário do que se imaginava, a chamada democracia digital revelou-se
perigosamente corrosiva. Ela é uma falsa democracia, uma vez que a comunicação
em tempo real ampliou a irracionalidade das massas, estimuladas por
manifestações de ódio e intolerância emanadas do entorno familiar do presidente
da República. A volatilidade das informações transmitidas pela internet não
apenas passou a propiciar desordem, como também criou as condições de
instabilidade que alimentam crises de governabilidade.
Na
democracia digital, tudo dura pouco, o que abre caminho para improvisações e
falsas promessas, declarações insensatas e mentiras. E quanto maior é a
velocidade com que esse lixo eletrônico é disseminado, mais a lógica da ação
política é corrompida. Afinal se por um lado as redes sociais extravasam ira e
indignação, por outro não são capazes de viabilizar políticas proativas. Nos
espaços digitais, tudo é efêmero, o que acaba exigindo, como num círculo
vicioso, atos cada vez mais performáticos e discursos cada vez mais insensatos,
como se tem visto com os espetáculos circenses protagonizados por parlamentares
bolsonaristas. Graças à sua conectividade, as redes sociais muitas vezes
disseminam uma perigosa ideia de autogoverno e auto-organização, caminhando em
linha contrária à verticalidade das instituições do Estado de Direito, nas
quais as relações entre governantes e governados são mediadas por via
parlamentar. Outras vezes, disseminam uma não menos perigosa ideia de que
comandantes militares podem “pôr ordem no país”.
Além de não pensar, a internet e as redes sociais são parasitárias, na medida em que espalham os vírus das propostas autocráticas no ambiente que deveria ser o das liberdades públicas. Longe de ser o desdobramento evolutivo da democracia representativa, a democracia digital favorece a demagogia de políticos populistas, o que fica evidenciado pela forte semelhança das manifestações públicas – a começar pelas “motociatas” – do presidente Bolsonaro com as que eram feitas por Mussolini, na Itália, durante primeira metade do século 20.
A
internet propicia a expressão da opinião pública em tempo real, mas é
incompatível como práticas democráticas deliberativas, que operam em tempo
diferido, ou seja, de etapas que vão se sucedendo, uma a uma, até se chegar a uma
decisão legítima final. A internet também não elimina as relações de poder, mas
tende a transformá-las para pior. Ela pode ajudar a minar regimes autoritários,
é certo, mas não é suficientemente eficaz para manter uma democracia
consolidada. Ela derruba, mas não constrói, como tem dito o filósofo basco
Daniel Innerarity. Pelo modo como permite a disseminação de críticas
inconsequentes, de falas irresponsáveis e de narrativas mentirosas, o que se
tornou corriqueiro entre nós após a ascensão de Bolsonaro ao poder, a internet
gera expectativas infundadas. E também exagera possibilidades, expondo cidadãos
a um sem-número de riscos e permitindo a ascensão ao poder pelo voto direto de
ditadores que se valem das regras da democracia para miná-las, desgastá-las e
revogá-las.
Num
período histórico em que é difícil exercer uma cidadania crítica e responsável
em meio à multiplicação de lixo informático, não podemos jamais esquecer que o
funcionamento do Estado democrático de direito é vital para a preservação das
garantias fundamentais e das liberdades públicas – dentre elas a liberdade de
expressão. Mas em hipótese alguma se pode aceitar aventuras bizarras, como é o
caso, sob a justificativa de pedir que a população vá às ruas “em favor do
Brasil”, da apropriação das comemorações do feriado da Independência com o
objetivo de convertê-las numa antessala para o golpe.
_____________
Por José Eduardo Faria, professor da Faculdade de Direito da USP. Publicado originalmente no Jornal da USP. Reproduzido na RBA.








