24 de junho de 2026

Davi Contra Golias: há raivas que nascem do espanto diante da injustiça

 

Professor Gauberto Barros. (FOTO | Reprodução).

Por Gauberto Barros, Colunista

Há raivas que diminuem as pessoas. E há raivas que nascem do espanto diante da injustiça. A minha, confesso, é dessa segunda espécie.

Vivemos num país que gosta de repetir, quase como oração cívica, que é um Estado laico. A Constituição diz que nenhuma fé deve ser tratada como oficial e que todas merecem respeito. No papel, é bonito. Na vida real, nem sempre.

Bíblias são compradas com recursos públicos para projetos em escolas. Portas de presídios se abrem para a catequese cristã. Crianças aprendem, nos livros didáticos, sobre deuses gregos, nórdicos e mitologias diversas sem que isso provoque escândalo. E está certo que aprendam. Conhecer não é converter. Educação não é catequese.

Mas basta mencionar os orixás, falar das religiões de matriz africana, cumprir as Leis nº 10.639 e nº 11.645, que determinam o ensino da história e da cultura afro-brasileira e indígena, para que o medo apareça vestido de indignação moral. O conhecimento passa a ser tratado como ameaça. O professor vira suspeito. A escola, alvo.

Recentemente, uma notícia correu o país: policiais entraram numa escola para intimidar gestores e professores por causa de uma aula sobre religiões de matriz africana. Não estavam combatendo um crime. A escola fazia aquilo que a lei manda fazer: educar. Ainda assim, o peso do Estado caiu sobre quem ensinava.

E então a gente entende que o racismo religioso não é apenas um preconceito individual. Ele ganha farda, microfone, púlpito e aplauso. Torna-se estrutura. "Torna-se estrutura. E estrutura não precisa de mandado para entrar."

O sentimento que sobra é de impotência. De ser Davi diante de Golias. De perceber que a luta pelo direito de existir, de ensinar e de aprender continua sendo travada com pedras recolhidas do chão da coragem.

Mas há uma diferença importante nessa velha história. Davi venceu não porque era mais forte, mas porque se recusou a aceitar que a força definisse o que era justo.

Talvez seja essa a nossa tarefa: continuar dizendo, mesmo com a voz trêmula, que ensinar sobre a diversidade religiosa não é doutrinar. É formar cidadãos. Que respeitar religiões de matriz africana não é privilégio; é cumprir a Constituição. E que não haverá verdadeira liberdade religiosa enquanto algumas crenças forem tratadas como cultura e outras como caso de polícia.

A raiva permanece. Mas que ela não nos paralise. Que ela nos lembre, todos os dias, de que o silêncio também escolhe um lado.

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