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| Professor Gauberto Barros. (FOTO | Reprodução). |
Por Gauberto Barros, Colunista
Há raivas que diminuem as pessoas. E há raivas que nascem do espanto diante da injustiça. A minha, confesso, é dessa segunda espécie.
Vivemos
num país que gosta de repetir, quase como oração cívica, que é um Estado laico.
A Constituição diz que nenhuma fé deve ser tratada como oficial e que todas
merecem respeito. No papel, é bonito. Na vida real, nem sempre.
Bíblias
são compradas com recursos públicos para projetos em escolas. Portas de
presídios se abrem para a catequese cristã. Crianças aprendem, nos livros
didáticos, sobre deuses gregos, nórdicos e mitologias diversas sem que isso
provoque escândalo. E está certo que aprendam. Conhecer não é converter.
Educação não é catequese.
Mas
basta mencionar os orixás, falar das religiões de matriz africana, cumprir as
Leis nº 10.639 e nº 11.645, que determinam o ensino da história e da cultura
afro-brasileira e indígena, para que o medo apareça vestido de indignação
moral. O conhecimento passa a ser tratado como ameaça. O professor vira
suspeito. A escola, alvo.
Recentemente,
uma notícia correu o país: policiais entraram numa escola para intimidar
gestores e professores por causa de uma aula sobre religiões de matriz
africana. Não estavam combatendo um crime. A escola fazia aquilo que a lei
manda fazer: educar. Ainda assim, o peso do Estado caiu sobre quem ensinava.
E
então a gente entende que o racismo religioso não é apenas um preconceito individual.
Ele ganha farda, microfone, púlpito e aplauso. Torna-se estrutura.
"Torna-se estrutura. E estrutura não precisa de mandado para entrar."
O
sentimento que sobra é de impotência. De ser Davi diante de Golias. De perceber
que a luta pelo direito de existir, de ensinar e de aprender continua sendo
travada com pedras recolhidas do chão da coragem.
Mas
há uma diferença importante nessa velha história. Davi venceu não porque era
mais forte, mas porque se recusou a aceitar que a força definisse o que era
justo.
Talvez
seja essa a nossa tarefa: continuar dizendo, mesmo com a voz trêmula, que
ensinar sobre a diversidade religiosa não é doutrinar. É formar cidadãos. Que
respeitar religiões de matriz africana não é privilégio; é cumprir a
Constituição. E que não haverá verdadeira liberdade religiosa enquanto algumas
crenças forem tratadas como cultura e outras como caso de polícia.
A raiva permanece. Mas que ela não nos paralise. Que ela nos lembre, todos os dias, de que o silêncio também escolhe um lado.
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