20 de junho de 2026

Educação é vida que se reorganiza diante da possibilidade de aprender, diz professor Gauberto Barros

 

Professor Gauberto Barros. (FOTO | Reprodução | Instagram).

Duas Vitórias

Saí do Crato às seis da manhã e voltei às vinte e uma horas. Seriam quinze horas de estrada, de sol forte, de banca, de pranchetas e fichas de avaliação, de espera — o tipo de dia que devolve a gente em casa com o corpo pedindo descanso. Mas voltei leve. Levíssimo. Porque hoje, dezenove de junho de dois mil e vinte e seis, eu vi a educação acontecer de verdade.

Fui convidado para compor a banca avaliadora do Salitre Científico 2026, em um município do Cariri cearense. Um evento que reúne, na fase municipal, trabalhos de pesquisa produzidos por estudantes de todas as modalidades de ensino. Salitre é um município de muitas comunidades quilombolas, e as crianças,  jovens e adultos  se apresentaram com aquele brilho nos olhos que não se finge, que não se ensaia — o brilho de quem fez por acreditar, não por obrigação.

Avaliei, entre outros, os projetos da educação escolar quilombola e EJA e me surpreendi a cada apresentação: entrevistas, rodas de conversa, pesquisas,  valorização do saber-fazer do artesanato, do esporte, da matemática,da memória  e ancestralidade contada pelos mais velhos das comunidades. Não eram projetos de prateleira que ficam armazenados e nãotem aplicabilidade social. Eram projetos com chão, com gente, com capacidade real de mudar a vida de quem os fez e de quem com eles convive.

Mas foi um único trabalho, no fim do dia, que me atravessou.

Era da Educação de Jovens e Adultos. Duas mulheres, por volta dos trinta/quarenta anos, que tinham deixado a escola há dez, quinze anos, e que um dia voltaram a acreditar que ainda havia tempo para o sonho. Sob a orientação de um professor, desenvolveram um projeto de inclusão digital: ensinar seus colegas de turma a usar o celular e o computador com segurança, a se proteger de golpes, a reconhecer fake news, a ter autonomia para fazer um Pix, marcar uma consulta, resolver sozinhas o que o mundo de hoje exige e que, por tanto tempo, pareceu distante demais para elas.

Apresentaram diante da banca com uma segurança que as emocionava. Dava para ver: não era só o trabalho que as orgulhava, era a descoberta de que eram capazes. Capazes de pesquisar, de escrever, de falar, de ensinar.

No fim da apresentação, uma delas chorava. Perguntamos por quê. E ela respondeu que comemorava duas vitórias. A primeira, estar ali, apresentando um projeto que ela mesma, até pouco tempo, não acreditava que tivesse capacidade de fazer. A segunda — e aqui a voz dela tremeu mais — estar comemorando, viva, uma vitória sobre um câncer maligno.

Não nos contivemos. Quebramos o protocolo de banca avaliadora e a abraçamos. Um abraço forte, sem cerimônia, do tipo que não cabe em ficha de avaliação nenhuma. Foi um instante que nos marcou não como avaliadores, mas como seres humanos diante de outro ser humano que venceu duas vezes no mesmo dia.

Elas levaram o prêmio. Mas o prêmio maior já estava dado antes mesmo do resultado.

No final da tarde, olhei ao redor e vi a felicidade estampada no rosto de cada professor, de cada técnico, de cada gestor, de cada familiar que ali estava. Eram rostos de quem viu, com os próprios olhos, o trabalho de meses tomar corpo, ganhar voz, virar gente transformada. Professores agradecidos por testemunhar, no chão da própria escola, a concretização daquilo que de fato importa: a análise crítica, a escrita, a ação — tudo a serviço de melhorar a vida do estudante e da comunidade onde ele vive.

É isso que significa educação. Não é o conteúdo decorado, nem a nota na ficha de avaliação. É  vida que se reorganiza diante da possibilidade de aprender. É a mulher que volta a acrediatar no sonho. É a lágrima que é, ao mesmo tempo, luto e vitória.

Voltei para o Crato cansado do corpo. Mas com o coração — esse, sim — inteiro.

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