![]() |
| Professor Gauberto Barros. (FOTO | Reprodução | Instagram). |
Duas
Vitórias
Saí do Crato às seis da manhã e voltei às vinte e uma horas. Seriam quinze horas de estrada, de sol forte, de banca, de pranchetas e fichas de avaliação, de espera — o tipo de dia que devolve a gente em casa com o corpo pedindo descanso. Mas voltei leve. Levíssimo. Porque hoje, dezenove de junho de dois mil e vinte e seis, eu vi a educação acontecer de verdade.
Fui
convidado para compor a banca avaliadora do Salitre Científico 2026, em um
município do Cariri cearense. Um evento que reúne, na fase municipal, trabalhos
de pesquisa produzidos por estudantes de todas as modalidades de ensino.
Salitre é um município de muitas comunidades quilombolas, e as crianças, jovens e adultos se apresentaram com aquele brilho nos olhos
que não se finge, que não se ensaia — o brilho de quem fez por acreditar, não
por obrigação.
Avaliei,
entre outros, os projetos da educação escolar quilombola e EJA e me surpreendi
a cada apresentação: entrevistas, rodas de conversa, pesquisas, valorização do saber-fazer do artesanato, do
esporte, da matemática,da memória e
ancestralidade contada pelos mais velhos das comunidades. Não eram projetos de
prateleira que ficam armazenados e nãotem aplicabilidade social. Eram projetos
com chão, com gente, com capacidade real de mudar a vida de quem os fez e de
quem com eles convive.
Mas
foi um único trabalho, no fim do dia, que me atravessou.
Era
da Educação de Jovens e Adultos. Duas mulheres, por volta dos trinta/quarenta
anos, que tinham deixado a escola há dez, quinze anos, e que um dia voltaram a
acreditar que ainda havia tempo para o sonho. Sob a orientação de um professor,
desenvolveram um projeto de inclusão digital: ensinar seus colegas de turma a
usar o celular e o computador com segurança, a se proteger de golpes, a
reconhecer fake news, a ter autonomia para fazer um Pix, marcar uma consulta,
resolver sozinhas o que o mundo de hoje exige e que, por tanto tempo, pareceu
distante demais para elas.
Apresentaram
diante da banca com uma segurança que as emocionava. Dava para ver: não era só
o trabalho que as orgulhava, era a descoberta de que eram capazes. Capazes de
pesquisar, de escrever, de falar, de ensinar.
No
fim da apresentação, uma delas chorava. Perguntamos por quê. E ela respondeu
que comemorava duas vitórias. A primeira, estar ali, apresentando um projeto
que ela mesma, até pouco tempo, não acreditava que tivesse capacidade de fazer.
A segunda — e aqui a voz dela tremeu mais — estar comemorando, viva, uma
vitória sobre um câncer maligno.
Não
nos contivemos. Quebramos o protocolo de banca avaliadora e a abraçamos. Um
abraço forte, sem cerimônia, do tipo que não cabe em ficha de avaliação
nenhuma. Foi um instante que nos marcou não como avaliadores, mas como seres
humanos diante de outro ser humano que venceu duas vezes no mesmo dia.
Elas
levaram o prêmio. Mas o prêmio maior já estava dado antes mesmo do resultado.
No
final da tarde, olhei ao redor e vi a felicidade estampada no rosto de cada
professor, de cada técnico, de cada gestor, de cada familiar que ali estava.
Eram rostos de quem viu, com os próprios olhos, o trabalho de meses tomar
corpo, ganhar voz, virar gente transformada. Professores agradecidos por
testemunhar, no chão da própria escola, a concretização daquilo que de fato
importa: a análise crítica, a escrita, a ação — tudo a serviço de melhorar a
vida do estudante e da comunidade onde ele vive.
É
isso que significa educação. Não é o conteúdo decorado, nem a nota na ficha de
avaliação. É vida que se reorganiza
diante da possibilidade de aprender. É a mulher que volta a acrediatar no
sonho. É a lágrima que é, ao mesmo tempo, luto e vitória.
Voltei para o Crato cansado do corpo. Mas com o coração — esse, sim — inteiro.

Nenhum comentário:
Postar um comentário
Ao comentar, você exerce seu papel de cidadão e contribui de forma efetiva na sua autodefinição enquanto ser pensante. Agradecemos a sua participação. Forte Abraço!!!