5 de junho de 2026

O maior desafio do professor: ensinar quem não quer

 

(FOTO | Pixabay| Reprodução).

“Você pode levar o cavalo até a água, mas não pode obrigá-lo a beber.” — Provérbio inglês (claramente escrito por alguém que nunca tentou dar aula para uma turma de segundo ano do ensino médio numa sexta-feira à tarde).

Vamos combinar uma coisa logo de início: ninguém entra na faculdade de Letras ou Pedagogia pensando “quero passar os próximos trinta anos da minha vida convencendo adolescentes de que o pretérito imperfeito do subjuntivo é relevante para a existência humana.” A vocação docente nasce de um lugar bonito — aquela crença ingênua e necessária de que o conhecimento transforma, que a palavra abre mundos, que a escola é o grande equalizador social. E é. Só que ninguém avisou que, antes de transformar, você precisa primeiro chamar a atenção de alguém que está com o fone no ouvido, a cabeça na mesa e a alma no TikTok.

Este é o desafio que não aparece nos livros de pedagogia com a devida brutalidade: ensinar quem não quer aprender. Não o aluno que tem dificuldade — esse a escola até sabe lidar, às vezes mal, mas sabe. O desafio real é o aluno que pode e não quer. O que olha para você com aquela expressão de quem está fazendo um enorme favor à humanidade por estar sentado naquela cadeira. O que suspira fundo quando você abre o livro, como se a abertura de um livro fosse, em si, um ato de violência contra a juventude.

John Dewey, o filósofo americano que pensou a educação com mais seriedade do que a maioria dos secretários de educação que já existiram, dizia que “a educação não é preparação para a vida; a educação é a própria vida.” Bonito. Inspirador. O problema é que o aluno desengajado não leu Dewey — e mesmo que tivesse lido, provavelmente teria cochilado na página três.

O desengajamento estudantil não é fenômeno novo, mas ganhou musculatura nas últimas décadas com uma força que merece análise honesta. Vivemos numa época de estímulos instantâneos e recompensas imediatas — o like que aparece em segundos, o vídeo que entretém em quinze, a resposta que o algoritmo entrega antes mesmo de você terminar a pergunta. E aí entra o professor, ser do século passado por definição institucional, com sua lousa, seu plano de aula e sua proposta ousada de que você passe quarenta e cinco minutos pensando sobre a Revolução Francesa sem receber nenhuma notificação. A concorrência é, no mínimo, desleal.

Mas seria fácil demais colocar a culpa na tecnologia e ir embora. A questão é mais antiga e mais profunda. Sócrates já reclamava — e aqui vale lembrar que o homem ensinava em praças públicas de Atenas sem wi-fi e ainda assim conseguia irritar o suficiente para ser condenado à morte, o que diz muito sobre o poder perturbador do ensino genuíno. O desinteresse pelo aprendizado tem raízes que passam pela família, pela cultura, pela estrutura econômica, pela ausência de pertencimento e, sim, às vezes, pela própria escola que ao longo dos anos tratou o conhecimento como punição e a nota como moeda de medo.

Lev Vygotsky, o psicólogo soviético que entendia de aprendizagem antes de ser moda entender de aprendizagem, desenvolveu o conceito de zona de desenvolvimento proximal — a ideia de que o aluno aprende melhor naquele espaço entre o que já sabe e o que ainda não consegue sozinho, com a mediação certa. O que Vygotsky talvez não tivesse contabilizado é que, para chegar à zona de desenvolvimento proximal, o professor precisa antes vencer a zona de desinteresse total, que fica bem antes e é consideravelmente maior.

E aqui mora o verdadeiro heroísmo docente — não o heroísmo cor-de-rosa dos filmes americanos onde o professor carismático transforma toda a turma com um discurso de três minutos e uma música de fundo emocionante. O heroísmo real é mais sujo e mais silencioso. É o professor que chega na quinta aula consecutiva com a mesma turma difícil e tenta de novo. Com outra abordagem. Com outro exemplo. Com outro ângulo. Que pesquisa o que aquele aluno gosta fora da escola para encontrar uma porta de entrada. Que erra, ajusta, erra de novo e não desiste — não porque é super-humano, mas porque acredita, mesmo com a voz rouca e o salário atrasado, que o conhecimento vale o esforço de ser oferecido mesmo quando recusado.

O filósofo Martin Buber tinha uma distinção preciosa entre duas formas de relação humana: a relação Eu-Isso, onde o outro é objeto, e a relação Eu-Tu, onde o outro é sujeito pleno. A educação bancária que Paulo Freire criticou com tanta precisão — aquela que deposita conteúdo no aluno como se ele fosse um cofre vazio — é uma relação Eu-Isso por excelência. E é exatamente ela que produz o aluno que não quer: aquele que aprendeu, ao longo de anos de escola, que sua função é receber, calar e reproduzir. Não é à toa que ele resiste. A resistência, nesse caso, é quase um sinal de saúde.

Isso não absolve o desinteresse. Mas contextualiza. E professor que contextualiza ensina melhor do que professor que apenas condena.

O dado que mais deveria incomodar qualquer pessoa minimamente comprometida com o futuro do país está no relatório PISA 2022, da OCDE: o Brasil ocupa posições constrangedoras em leitura, matemática e ciências entre os países avaliados, mas o dado mais revelador não é o ranking — é que uma parcela significativa dos estudantes brasileiros relata baixo senso de pertencimento à escola. Eles estão lá. Mas não se sentem parte. E quem não se sente parte não aprende — aprende a fingir que aprende, que é bem diferente e muito mais perigoso.

O professor que enfrenta esse cenário diariamente faz algo que nenhuma inteligência artificial ainda consegue replicar com autenticidade: cria vínculo. Não porque seja obrigação burocrática — embora apareça nos documentos pedagógicos com aquela linguagem de formulário que é uma violência à parte. Mas porque o vínculo é a única ponte que existe entre o conhecimento e alguém que decidiu, conscientemente ou não, que não quer atravessá-lo.

Rubem Alves, que escrevia sobre educação com a poesia que o tema merece e raramente recebe, disse uma vez que “o professor que não aprende mais não tem nada para ensinar.” Verdade. Mas há um corolário não escrito que todo docente em sala de aula conhece na pele: o professor que não aprende a lidar com quem não quer aprender também não tem como ensinar — porque vai passar a vida inteira falando para as paredes e achando que o problema é acústico.

Ensinar quem não quer é, no fundo, uma questão filosófica antes de ser pedagógica. É a pergunta sobre o que significa respeitar a autonomia do outro enquanto se acredita que ele precisa do que você tem. É a tensão permanente entre a liberdade do aluno de recusar e a responsabilidade do professor de insistir. É, em alguma medida, o problema de toda relação humana significativa: como você oferece algo genuíno a alguém que ainda não sabe que precisa dele?

Não há resposta fácil. Há método, sim — diferenciação pedagógica, aprendizagem ativa, avaliação formativa, toda aquela lista que os especialistas em educação apresentam em congressos com entusiasmo genuíno e que chega à escola pública com atraso de dez anos e verba de cinco. Mas antes do método, há a pessoa. O professor que olha para o aluno desinteressado e ainda consegue enxergar alguém que vale o esforço — não por ingenuidade, mas por uma escolha diária, consciente e cansativa de acreditar que a educação ainda é o único projeto civilizatório que temos de pé.

Na próxima vez que você ver um professor, não diga que ele tem paciência de santo. Santos não pagam aluguel e não têm vinte e oito provas para corrigir até segunda. Diga que ele tem coragem. Porque ensinar quem não quer é, talvez, o ato de fé mais racional que existe — aquele que não espera a certeza do resultado para começar o trabalho.

E o trabalho começa amanhã. Com a mesma turma. Na mesma sala. Com o mesmo marcador de quadro quase no fim.

— Escrito com profundo respeito por quem entra em sala todos os dias sabendo que vai perder algumas batalhas e entra assim mesmo.

Referências: Dewey, J. Experience and Education (1938) — Vygotsky, L. A Formação Social da Mente (1984) — Freire, P. Pedagogia do Oprimido (1968) — Buber, M. Eu e Tu (1923) — Alves, R. A Alegria de Ensinar (1994) — OCDE, PISA 2022 Results — Sócrates apud Platão, A República.

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Por Fernando Maciel Vieira, jo Jornal Opção Tocantins 

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