Reforma Trabalhista: Saiba como votaram os senadores na destruição da CLT


Prioridade do governo e do mercado, mas rechaçada pela maioria da população, a reforma trabalhista foi aprovada pelo plenário do Senado nesta terça-feira 11 e segue agora para a sanção presidencial. O projeto que altera mais de 100 artigos da Consolidação das Leis do Trabalho recebeu 50 votos favoráveis e 26 contra. Houve apenas uma abstenção.

Da CartaCapital - De volta ao cargo e com denúncia no Conselho de Ética arquivada, Aécio Neves encabeça a lista dos votos favoráveis ao projeto que flexibiliza a jornada, regulamenta contratos de trabalho parciais, intermitentes e temporários e limita a atuação da Justiça do Trabalho e seu acesso pelos trabalhadores.

A base do PSDB e do PMDB votou majoritariamente a favor da reforma, com exceção ao tucano Eduardo Amorim e aos peemedebistas Roberto Requião, Eduardo Braga, Kátia Abreu e Renan Calheiros.

No campo dos senadores que votaram contra a proposta, incluem-se principalmente integrantes do PT e dos partidos do campo progressista, além de nomes como ex-presidente Fernando Collor e Romário.

Saiba como votaram os senadores na sessão plenária:

Aécio Neves (PSDB-MG): SIM

Airton Sandoval (PMDB-SP): SIM

Alvaro Dias (PODE-PR): NÃO

Ana Amélia (PP-RS): SIM

Ângela Portela (PDT-RR): NÃO

Antonio Anastasia (PSDB-MG): SIM

Antonio Carlos Valadares (PSB-SE):  NÃO

Armando Monteiro (PTB-PE): SIM

Ataídes Oliveira (PSDB-TO): SIM

Benedito de Lira (PP-AL): SIM

Cássio Cunha Lima (PSDB-PB): SIM

Cidinho Santos (PR-MT): SIM

Ciro Nogueira (PP-PI): SIM

Cristovam Buarque (PPS-DF): SIM

Dalirio Beber (PSDB-SC): SIM

Dário Berger (PMDB-SC): SIM

Davi Alcolumbre (DEM-AP): SIM

Edison Lobão (PMDB-MA): SIM

Eduardo Amorim (PSDB-SE): NÃO

Eduardo Braga (PMDB-AM): NÃO

Eduardo Lopes (PRB-RJ): SIM

Elmano Férrer (PMDB-PI): SIM

Fátima Bezerra (PT-RN): NÃO

Fernando Bezerra Coelho (PSB-PE): SIM

Fernando Collor (PTC-AL): NÃO

Flexa Ribeiro (PSDB-PA):  SIM

Garibaldi Alves Filho (PMDB-RN): SIM

Gladson Cameli (PP-AC): SIM

Gleisi Hoffmann (PT-PR): NÃO

Humberto Costa (PT-PE): NÃO

Ivo Cassol (PP-RO): SIM

Jader Barbalho (PMDB-PA): SIM

João Alberto Souza (PMDB-MA): SIM

João Capiberibe (PSB-AP): NÃO

Jorge Viana (PT-AC): NÃO

José Agripino (DEM-RN): SIM

José Maranhão (PMDB-PB): SIM

José Medeiros (PSD-MT): SIM

José Pimentel (PT-CE): NÃO

José Serra (PSDB-SP): SIM

Kátia Abreu (PMDB-TO): NÃO

Lasier Martins (PSD-RS): SIM

Lídice da Mata (PSB-BA): NÃO

Lindbergh Farias (PT-RJ): NÃO

Lúcia Vânia (PSB-GO): ABSTENÇÃO

Magno Malta (PR-ES): SIM

Maria do Carmo Alves (DEM-SE): SIM

Marta Suplicy (PMDB-SP): SIM

Omar Aziz (PSD-AM): SIM

Otto Alencar (PSD-BA): NÃO

Paulo Bauer (PSDB-SC): SIM

Paulo Paim (PT-RS): NÃO

Paulo Rocha (PT-PA): NÃO

Pedro Chaves (PSC-MS: SIM

Raimundo Lira (PMDB-PB): SIM

Randolfe Rodrigues (REDE-AP): NÃO

Regina Sousa (PT-PI): NÃO

Reguffe (S/Partido-DF): NÃO

Renan Calheiros (PMDB-AL): NÃO

Ricardo Ferraço (PSDB-ES): SIM

Roberto Muniz (PP-BA): SIM

Roberto Requião (PMDB-PR): NÃO

Roberto Rocha (PSB-MA): SIM

Romário (PODE-RJ): NÃO

Romero Jucá (PMDB-RR): SIM

Ronaldo Caiado (DEM-GO): SIM

Rose de Freitas (PMDB-ES): SIM

Sérgio Petecão (PSD-AC): SIM

Simone Tebet (PMDB-MS): SIM

Tasso Jereissati (PSDB-CE): SIM

Telmário Mota (PTB-RR): NÃO

Valdir Raupp (PMDB-RO): SIM

Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM): NÃO

Vicentinho Alves (PR-TO): SIM

Waldemir Moka (PMDB-MS): SIM

Wellington Fagundes (PR-MT): SIM

Wilder Morais (PP-GO): SIM

Zezé Perrella (PMDB-MG): SIM


Senadoras da oposição ocuparam a Mesa da Casa  na sessão desta terça, 11. Foto: Lula Marques/ AGPT.

Ex-presidente Lula é condenado por Moro a nove anos e meio de prisão


O juiz Sergio Moro proferiu nesta quarta-feira 12 a sentença contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva no caso do triplex do Guarujá (SP). Moro condenou Lula a nove anos e seis meses de prisão pelos crimes de corrupção passiva e lavagem de dinheiro. A condenação se deu pouco menos de dez meses após a acusação formal feita pelos procuradores da Lava Jato.

Da Agência Brasil - Lula é acusado pelo Ministério Público Federal de ter recebido R$ 3,7 milhões em propina por conta de três contratos entre a OAS e a Petrobras. O MPF sustenta que os valores foram repassados a Lula por meio da reforma de um apartamento no Guarujá e do pagamento do armazenamento de bens de Lula, como presentes recebidos no período em que era presidente.

No último dia 20 de junho, a defesa de Lula apresentou as alegações finais do processo, nas quais sustentou, com documentos inéditos, que OAS não tinha direitos para repassar o triplex a Lula. Segundo a defesa, apesar de o apartamento 164 A do edifício Solaris estar em nome da OAS Empreendimentos S/A, em 2010, todos os direitos econômicos e financeiros sobre o imóvel foram passados para um fundo gerido pela Caixa Econômica Federal.

"A acusação do Ministério Público Federal diz que, no dia 8 de outubro de 2009, o ex-presidente teria recebido a propriedade desse triplex. A denúncia diz ainda que os recursos para a compra e reforma do imóvel são provenientes de três contratos firmados entre Petrobras e OAS. Mas com a OAS transferindo o imóvel para a Caixa Econômica Federal, nem Leó Pinheiro [ex-presidente da construtora] nem a OAS tinham a disponibilidade deste imóvel para dar ou para prometer para quem quer que seja sem que fosse feito o pagamento para a Caixa Econômica Federal", disse um dos advogados, Cristiano Zanin.

Os advogados afirmaram ainda que os diretos econômicos sobre os imóveis foram cedidos quando a OAS buscou um empréstimo no mercado por meio de debêntures. De acordo com Zanin, o depósito de valores em uma conta da Caixa passou a ser condição para a negociação de qualquer unidade do edifício. A defesa diz que não há nenhum documento que mostre esse tipo de depósito, e, por isso, não houve a liberação do imóvel para o ex-presidente.

"Há um documento que indica uma conta e uma agência na qual os valores dos apartamentos do edifício Solaris devem ser depositados para que haja a liberação do imóvel. Essa conta foi mantida no terceiro aditamento feito em 2011".

De acordo com Zanin, ao contrário do que o Ministério Público Federal alega no processo, Luiz Inácio Lula da Silva também não pode ser responsabilizado ou acusado de ter envolvimento ou conhecimento sobre os desvios de recursos ocorridos na Petrobras. Segundo o advogado, há na empresa diversos sistemas de auditoria para cuidar da lisura dos procedimentos e apurar fraudes.

"As auditorias não identificaram atos ilícitos ou de corrupção por parte de Lula. Isso também foi dito à Justiça pelos auditores. Durante o governo do ex-presidente houve reforço desse sistema de controle sobre a Petrobras dando à Controladoria-Geral da União a atribuição legal de fiscalizar a Petrobras junto com o Tribunal de Contas da União", afirmou Zanin.

Em depoimento a Moro em maio, Lula disse que "nunca houve a intenção de adquirir triplex"

Em interrogatório ao juiz federal Sérgio Moro, em maio desse ano, Lula afirmou que nunca houve intenção de adquirir o triplex. Ele contou que a ex-primeira-dama Marisa Letícia comprou uma cota da Cooperativa Habitacional dos Bancários (Bancoop) - que era dona do prédio - de um apartamento simples.

Questionado por Moro se havia intenção desde o início de adquirir um triplex no empreendimento, Lula respondeu: "Não havia no início e não havia no fim. Nunca houve a intenção de adquirir um triplex".

No início do depoimento, Moro afirmou a Lula que ele seria tratado com respeito e qualquer decisão será tomada apenas ao final do processo. "Eu queria deixar claro em que pesem algumas alegações nesse sentido, da minha parte eu não tenho qualquer desavença pessoal em relação ao senhor ex-presidente. O que vai determinar o resultado desse processo no final deste processo são as provas que vão ser colecionadas e a lei. E vamos deixar claro que quem faz a acusação neste processo é o Ministério Público e não o juiz. Eu estou aqui para ouvi-lo e para proferir um julgamento ao final do processo". Em depoimentos de outras pessoas no processo,foram registrados desentendimentos entre o juiz e a defesa do ex-presidente.

Moro também comentou dos boatos de uma eventual prisão de Lula durante depoimento. "São boatos que não tem qualquer fundamento. Imagino que seus advogados já tenham lhe alertado que não haveria essa possibilidade. E para deixá-lo tranquilo lhe asseguro de pronto e expressamente que isso não vai acontecer." E Lula afirmou: "Eu já tinha consciência disso."

O depoimento começou com perguntas do juiz, seguido da assistência da acusação e dos procuradores do Ministério Público Federal. Em seguida, houve um intervalo. O interrogatório foi retomado e Moro voltou a fazer perguntas. Depois, os advogados de Lula apresentaram alguns questionamentos. E por último, o ex-presidente fez suas alegações finais. Após depor, o ex-presidente participou de ato na Praça Santos Andrade, no centro de Curitiba, onde estavam concentrados manifestantes que apoiam Lula.


Cem anos depois, país pode ter recuo histórico de 1 século


Ao som de A Internacional, clássico das esquerdas cantado com entusiasmo por aproximadamente 100 pessoas, terminou um evento que celebrava o centenário da primeira greve geral no país. Mas o ato desta segunda-feira (10) no Cemitério do Araçá, região oeste de São Paulo, teve caráter de atualidade, pela proximidade da votação de um projeto que pode atingir direitos que ainda não existiam em 1917 e foram conquistados nas décadas seguintes. A ligação entre os períodos históricos foi feita por todos os manifestantes, na véspera de votação do projeto de "reforma" trabalhista (PLC 38) no Senado.

Placa homenageia José Martinez, militante anarquista de
21 anos assassinado durante a greve de 1917. Foto: CUT.
Da RBA - É no Araçá que está enterrado, na quadra 132, o espanhol José Iñeguez Martinez, sapateiro e militante anarquista de 21 anos assassinado durante a greve de 1917. Uma placa foi descerrada em homenagem a ele, com assinaturas da CUT, do PT e da Fundação Perseu Abramo. Texto lido pelo secretário nacional de Cultura da central, José Celestino Lourenço, o Tino, faz referência às "jornadas de trabalho desumanas", ao trabalho infantil e às condições degradantes dos trabalhadores daquela época. "A greve de 1917 foi fundamental não só para o fim da República Velha, mas para as leis de proteção social" que surgiriam a partir dos anos 1930 e culminariam com a CLT, em 1943.

"Estamos fazendo um resgate histórico de um momento de bravura", afirmou o presidente da CUT São Paulo, Douglas Izzo. "Infelizmente, a luta dos trabalhadores continua sendo tratada pelas autoridades policiais e pelo Estado como uma transgressão. Temos muito ainda o que lutar. O que estão apontando para o Brasil é acabar com todo o avanço civilizatório que conseguimos com a luta de José Martinez e outros companheiros", acrescentou Douglas, segurando uma edição fac-símile do jornal A Plebe, lançado em 1917 por inspiração de Edgard Leuenroth, militante anarquista que dá nome a um arquivo mantido pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Não precisamos só do remendo,precisamos do casaco inteiro.Não precisamos de pedaços de pão,precisamos de pão verdadeiro.Não precisamos só do emprego,de toda a fábrica precisamos.

Integrantes do grupo teatro Ouro Velho recita poesias. A primeira é a Canção do Remendo e do Casaco, do alemão Bertolt Brecht. Um representante do Centro de Cultura Social – criado em 1993 e dedicado ao estudo e preservação do pensamento anarquista –, lembra que 10 mil pessoas estavam naquele mesmo Araçá em 10 de julho de 1917, no enterro de Martinez. A greve deixou outras vítimas, como o pedreiro Nicolau Salerno, e a jovem Edoarda Binda, de 12 anos. Mas o número de mortos é presumivelmente maior.

O pesquisador e ativista José Luiz Del Roio, autor de um livro sobre a greve de 1917, faz referência aos desaparecidos daquele período e da ditadura instalada a partir de 1964. "Onde foram parar os nossos companheiros?", questiona, destacando a importância do ato de hoje. "Isto aqui não é o final, mas o início ou a continuação de uma história."

Del Roio também cita o histórico das ossadas de Perus, encontradas em 1990 em uma vala clandestina no Cemitério Dom Bosco e que permaneceram durante certo período no Araçá. Agora, estão sob análise do Centro de Arqueologia e Antropologia Forense, da Universidade Federal de São Paulo. Sua companheira Isis, desaparecida em 1972, pode estar entre as vítimas.

Ao lado de Del Roio, o líder ferroviário Raphael Martinelli, que completará 93 anos em outubro, fala de suas origens operárias – o pai tinha 24 anos em 1917. O jornalista Sérgio Gomes comunica a morte da professora Ecléa Bosi, que ganha uma rápida homenagem.

Diretor da Fundação Perseu Abramo, ex-presidente da CUT e ex-secretário municipal do Trabalho em São Paulo, Artur Henrique vê a greve de 1917 como "uma mobilização contra a exploração do capital" e acrescenta que, passado um século, os trabalhadores organizam uma greve geral contra o "desmonte" da legislação trabalhista. Ressalta a importância da preservação da memória.

Neste ano, foi aprovado projeto do vereador paulistano Antonio Donato (PT) que deu origem à Lei 16.634, de abril. A lei inclui no calendário oficial da cidade o 9 de julho como Dia da Luta Operária.

O presidente da CUT, Vagner Freitas, observa que a esquerda foi mudando sua organização conforme a época – mas com os mesmos objetivos. "Desde o golpe (referência ao impeachment de Dilma Rousseff), as centrais e as frentes que formamos vêm combatendo de todas as formas. E a principal é a rua."

 "Do que são feitos nossos direitos? Em 100 anos tombaram quantos? Quantas mulheres foram estupradas, quantos jovens foram calados, quantos trabalhadores foram mortos?", questiona a vice-presidenta da CUT, Carmen Foro, destacando a violência ainda presente no meio rural – 600 mortos em 30 anos, conforme a Comissão Pastoral da Terra (CPT), diz a sindicalista, paraense de origem. "A consciência da classe trabalhadora precisa estar conectada com seu passado, com sua história."

Artistas lançam site para afastar e julgar Temer


O Brasil está prestes a dar um passo para começar a superar a crise política: tirar Temer do poder.

Do Mídia Ninja - O trâmite legal para seu afastamento se dará na Câmara dos Deputados, em uma votação que irá definir se será ou não julgado por seus crimes, após acontecimento inédito, em que um presidente é acusado por crimes comuns como formação de quadrilha, obstrução da justiça e corrupção passiva.

São necessários 342 votos dos 513 deputados para que Temer seja julgado e – consequentemente – afastado temporariamente da presidência, o que, na prática, o tiraria de vez do poder já que não poderia mais usufrir da máquina pública do Estado para conquistar apoio político.

Artistas e comunicadores de todo país se organizaram e construíram uma plataforma de interesse público que permite monitorar a intenção de voto de cada deputado e, em poucos cliques, mandar emails, tuítes, mensagens, alem de acessar a rede social de cada parlamentar para cobrar seu posicionamento.   

Caetano Veloso, Sônia Braga, Sandra de Sá, Frejat, Leandra Leal, Camila Pitanga, Letícia Sabatella, Seu Jorge, Aline Moraes, Claudia Ohana, Nando Reis são alguns dos quase 100 nomes que apoiam a campanha. “Uma ação suprapartidária, que usa o poder da comunicação coletiva e das redes para gerar pressão nos deputados a favor da investigação do governo”, conforme afirma o manifesto do grupo, postado nas redes.

A plataforma com os 513 deputados permite a pesquisa por nome e por estado dos políticos, além de indicar a intenção de voto de cada um e o link direto de suas redes sociais. Serve também como repositório para as centenas de vídeos de apoio a iniciativa que são gravados todos os dias. Acesse: www.342agora.org.br


A meritocracia é o paradigma da ingenuidade


O Conselho Universitário da USP aprovou, na terça-feira 4, a criação de cotas sociais e raciais. A partir de 2018, 37% das vagas serão destinadas a alunos da escola pública, número que deve subir para 40% em 2019 e atingir 50% em 2021. Dentro dessa cota, 37% das vagas serão reservadas para pretos, pardos e indígenas.

Por Guilherme Boulos, na CartaCapital - Apesar de a proposta inicial prever apenas cotas para estudantes da escola pública, a forte mobilização do Movimento Negro, dos estudantes e de 300 professores que apresentaram manifesto favorável às cotas etnorraciais foi decisiva para o desfecho positivo.

Há pouco mais de um mês, a Unicamp também aprovou cotas em seu Conselho Universitário. Lá, além de 50% das vagas reservadas para alunos de escolas públicas, até 37,5% do total será progressivamente reservado para pretos, pardos e indígenas.

Foi o suficiente para iniciar um desfile de chorume nas redes sociais. Não adianta relembrar que, nas universidades onde as cotas foram implantadas, diversas pesquisas apontam que o desempenho desses estudantes é igual e, em muitos casos, superior ao dos estudantes não cotistas. Não adianta. O preconceito fala mais alto.

É impressionante a naturalidade com que repetem discursos meritocráticos, sem qualquer sustentação nos fatos. A meritocracia pretende-se uma visão realista, antiutópica, quando na verdade é o paradigma da ingenuidade. Honoré de Balzac fez de um de seus principais romances, Ilusões Perdidas, um libelo contra essa falácia.

Corria o século XIX e o mito de Napoleão ainda estava em alta. Toda uma legião de jovens europeus inspirava-se na ascensão daquele soldado a general, por seu mérito, e acreditava poder reeditar o feito, cada um a seu modo. No romance, o genial Balzac conta a saga de Lucien de Rubempré, jovem que sai do interior da França acreditando que conquistaria Paris com seus versos.

A história mostra como o sistema tritura os sonhos e os versos do rapaz. Os poemas até que eram bons, mas isso estava longe de ser o principal. Era preciso oportunidade, contatos, status social. Assim, nos diz Balzac, o sistema impõe um filtro capaz de matar talentos e elevar medíocres. O “mérito” aqui depende muito mais do berço e da classe do que do merecimento propriamente dito. É preciso boas doses de ilusão e ingenuidade para crer que os melhores vencem no final.

Voltemos então às cotas raciais. A desigualdade no acesso à educação, ao trabalho e à renda entre negros e brancos é inequívoca. Vamos aos dados da Pnad de 2015. Na educação, 25,9% da população branca tem 12 ou mais anos de estudo. Entre a população negra, somente 12% tem a mesma escolaridade, menos da metade. Entre os brasileiros com menos de um ano de estudo, os negros atingem 14,4%, enquanto os brancos chegam a 7,4 %.

No mercado de trabalho, enquanto o homem branco tinha, em 2015, uma taxa de desocupação de apenas 6,8%, a mulher negra chegava a 13,3%. Quando o assunto é renda, a desigualdade salta aos olhos. O homem branco tem renda média de 2.509 reais, enquanto o homem negro ganha 1.434 e a mulher negra, somente 1.027.

É possível interpretar esses dados de duas formas. Pode-se dizer que os negros e negras têm menos escolaridade e menores ganhos por falta de mérito e esforço próprio. Ou se constata o óbvio: tal cenário é resultado da brutal disparidade de oportunidades sociais.

O Estado brasileiro guarda uma dívida histórica com o povo negro, desde a escravidão. As cotas representam uma iniciativa de reparação tardia e ainda tímida de séculos de desigualdade racial. Devem ser saudadas como um avanço. E aos fanáticos da meritocracia, que vivem no mundo da fantasia em que o esforço se sobrepõe às engrenagens sociais, não lhes peço que leiam Marx, Simone de Beauvoir ou Malcolm X. Isso seria demais. Leiam apenas Balzac, insuspeito de comunismo.

Parabéns ao Movimento Negro, grande responsável por pautar a questão na sociedade brasileira.

 
"E aos fanáticos da meritocracia, leiam apenas Balzac, insuspeito de comunismo". Foto: Oswaldo Corneti/ Fotos Públicas.

7 de julho de 1978: ato reorganiza o Movimento Negro


Militantes de grupos negros, estudantes, atletas, artistas e representantes de organizações culturais realizam em São Paulo uma grande manifestação contra o racismo. Em frente às escadarias do Teatro Municipal, mais de 2 mil pessoas protestaram indignadas contra episódios recentes de violência contra negros. O ato foi o marco da criação do Movimento Negro Unificado Contra a Discriminação Racial (MNUCDR), depois rebatizado simplesmente de MNU.

Manifestantes marcham por igualdade racial em frente ao viaduto do Chá, no centro do São Paulo.
Foto: Memorial da Democracia.

Do Memorial da Democracia - Em maio, a polícia militar assassinara sob tortura Robson Silveira da Luz, um jovem de 22 anos. Robson havia sido preso, acusado de roubar frutas numa feira em Guaianazes, na zona leste de São Paulo. À sua mulher grávida, a polícia disse que ele sofrera um acidente. Em outro acontecimento, quatro jogadores de vôlei negros foram impedidos de entrar no Clube Tietê por sua cor. O caso de Robson, a discriminação aos atletas e o assassinato de outro cidadão negro, o operário Newton Lourenço, morto pela polícia no bairro da Lapa, causaram forte comoção entre os militantes negros.

Desde o fim da escravatura os negros brasileiros vinham buscando se organizar em defesa de seus direitos e no combate à discriminação racial. Entretanto, durante a ditadura militar, todos os esforços nesse sentido foram reprimidos e esvaziados pela propaganda do regime, que exaltava a “democracia racial brasileira” e estigmatizava os ativistas como imitadores dos negros americanos.

A manifestação histórica do dia 7 de julho rompeu o silêncio do movimento negro. Foi distribuída no ato uma carta aberta que denunciava as condições de vida dos negros no Brasil. O protesto teve o apoio de entidades de São Paulo, Bahia, Minas Gerais, Pará, Pernambuco e Rio de Janeiro. Prisioneiros da Casa de Detenção enviaram um documento de apoio ao movimento. Desde então a data entrou para o calendário das lutas contra a discriminação racial.

O militante e jornalista Hamilton Bernardes Cardoso narrou os acontecimentos daqueles meses de 1978 nas páginas da seção afro-latino-América do jornal “Versus”. Em novembro, o MNUCDR participaria do 1º Congresso Nacional pela Anistia, denunciando a violência policial contra os negros no Brasil, as condições subumanas da população carcerária e as torturas nos presídios.

Depois da redemocratização, o delegado Alberto Abdalla, responsável pela prisão de Robson da Luz, foi condenado pela morte do jovem, juntamente com outros policiais. O delegado, porém, jamais foi punido.

O MNU tornou-se uma organização nacional e continua sendo um movimento social atuante em defesa da igualdade racial.

Documentos Extras



Programa #Partiu, da TV Verdes Mares, demonstra pontos turísticos do município de Altaneira


A estudante do curso de História, Francilene Oliveira, explicando a prática do rapel. Imagem capturada do vídeo do #PartiuAltaneira.

O Programa #Partiu, da TV Verdes Mares, afiliada da Rede Globo, visitou o município de Altaneira e mostrou as belezas naturais, os pontos turísticos, as práticas de esportes de aventura e o trabalho desenvolvido com crianças, jovens e adolescentes pela Associação e Fundação ARCA.

No primeiro bloco do programa, o apresentador Tep Rodrigues inicia sua passagem por Altaneira que fica a 600 km da capital do Estado e é a cidade mais alta da região do cariri (670 metros acima do nível do mar), demonstrando as vias de acesso a este localidade, como a CE 060, CE 386, CE 292 e CE 388, além da BR 230, conta um pouco acerca da ocupação deste território à margem da Lagoa Santa Tereza (1870) até a sua emancipação em 18 de Dezembro de 1958. 

Programa #Partiu, da TV Verdes Mares, em visita a ARCA. Imagem capturada do vídeo do programa.
Ainda no primeiro bloco, o programa visita à sede da Associação e Fundação ARCA onde outrora funcionava o Hospital. Nesta instituição é recebido pela sindicalista e atual presidenta, a professora Maria Lúcia de Lucena que conta em detalhes as ações que são desenvolvidas tanto pela Associação, que cuida da geração de renda e da economia solidária, quanto pela Fundação, que trabalha com projetos educativos. Lucena demonstrou alguns destes, como o Inclusão Digital (um dos projetos mais antigos), Sala de Leitura, Sala de Música e a Biblioteca Comunitária ARCA da Leitura que, segundo ela, 90% do acervo são provenientes de doação. Já na sala de música, Tep Rodrigues foi recepcionado pelos instrutores Cícero e Charles. “A gente trabalha muito com a questão da qualidade musical, porque o Brasil hoje está vivendo de pornografia na música e a gente passa para esses adolescentes outra forma de ver a música. A gente passa para eles o poder que a música tem”, disse Cícero.

No final do primeiro bloco e no segundo, o apresentador colocou adrenalina na sua passagem pela cidade alta ao conversar com os praticantes de esportes de aventura e membros da Associação dos Condutores de Trilha (Acontrial), Francilene Oliveira e João Paulo. O primeiro destino foi a Pedra dos Dantas, no Sítio Tabocas. Lá os jovens explicaram como e quando decidiram praticar o rapel. Segundo Francilene, o espaço é utilizado para o rapel desde 2014 quando houve um curso proporcionado pela Rede de Educação Cidadã (RECID) e ministrado pelo professor Erick Agato. João Paulo, por sua vez, arguiu que a Acontrial está sempre mobilizando a cidade para a prática do esporte e que vem recebendo de forma constante visitas de alunos da rede pública e universitários.

O Sítio Poças também foi alvo do Programa #Partiu. Aqui o grupo conheceu os produtos do agricultor João Bel e almoçaram e experimentaram os ingredientes da horta orgânica dois irmãos. Segundo João Bel, o cultivo dos produtos vem desde 2011. Na Poças, João Paulo e Francilene também expuseram outra prática de esporte de aventura, o arborismo. A prática foi explicada pelo professor Erick Agato. Segundo ele, “o arborismo consiste em uma técnica desenvolvida pelo pessoal da botânica para que você pudesse andar pela copa das árvores causando o mínimo de impacto e aproveitando as belezas naturais”. Para Francilene, que é estudante do curso de História na URCA, quem vem ao Sítio Poças, tem a oportunidade de fazer trilha, praticar o arborismo e ainda conhecer a Horta Dois Irmãos.

O terceiro e último bloco foi feito no Distrito do São Romão, distante cerca de 10 km da sede. Neste local, a trilha da pedra grande foi o alvo dos holofotes.  A trilha tem um percurso de 1, 200 km e é usada pelo povoado para ter, segundo Francilene, uma vista privilegiada do Vale.

O Programa #Partiu foi exibido às 8h30 deste sábado na TV Verdes Mares.


 Abaixo registro de captura de imagens registrando os principais momentos.

Cícero, Instrutor e voluntário do Projeto ARCA, fala da importância da música na vida dos adolescentes.
Francilene discorre acerca da prática do Rapel no Sítio Tabocas.
Agricultor João Bel explica quando começou a produção na Horta Orgânica Dois Irmãos.

Programa #Partiu na Pedra Grande, no Distrito do São Romão.