A gravidade do PL de José Serra sobre o pré-sal em seis motivos



Por 33 votos a 31, o Senado votou ontem à noite para manter o regime de urgência na tramitação do PL de autoria do senador José Serra que permite às petrolíferas estrangeiras explorar o pré-sal sem fazer parceria com a Petrobras.

O voto "SIM" foi pela anulação do projeto do José Serra..
Dezesseis senadores estavam ausentes, dentre eles os petistas Walter Pinheiro e Jorge Viana. A senadora Lidice da Mata, do PSB, também poderia ter ajudado a reverter o resultado. Eram os três votos que faltaram.

O governo Dilma assistiu ao desastre à distância.

Milhares de brasileiros, enquanto isso, debatiam no twitter o destino dos integrantes do BBB.
Uma coisa, como notamos, está umbilicalmente ligada à outra.

Só um país idiotizado aceita a entrega de seu patrimônio a preço de banana. É uma decisão que dilapida a soberania nacional ao tirar poder da Petrobras.

O argumento de Serra é de que a estatal brasileira não dispõe de fundos para tocar a exploração do petróleo no ritmo em que deveria fazê-lo.

Portanto, segundo o tucano, é preciso acabar com a exigência de que a Petrobras tenha participação de ao menos 30% na exploração de cada uma das áreas do pré-sal.

Em discurso recente no Senado, o senador Roberto Requião (PMDB-Paraná) elencou seis motivos para sua oposição ao projeto de Serra.

Primeiro: Este é o pior momento para se vender uma grande reserva de petróleo extraído a baixo custo.

Segundo: Sem o Pré-Sal a Petrobras entraria em falência.

Terceiro: A Petrobras é fundamental para a segurança estratégica do Brasil.

Quarto: O desemprego avança no país. A Petrobras e suas operações no pré-sal são de extrema importância para a retomada do desenvolvimento e para combater o desemprego.

Quinto: A Petrobras e o Brasil devem reservar-se o direito de propriedade, exploração e de conteúdo nacional sobre o pré-sal, porque foram conquistas exclusivamente brasileiras após décadas de pesado esforço tecnológico, político e humano.

Sexto: O projeto Serra, que já era inconveniente e anti-nacional, com os baixos preços do petróleo passou a ser lesivo, um crime contra a pátria.

Requião, no discurso, estranhou a pressa para aprovar o projeto de Serra num momento em que alguns países praticam dumping de petróleo, numa guerra geopolítica. Fez a seguinte comparação: é como vender a própria casa a preço baixo com a garantia de que nossa mãe será mantida no cargo de cozinheira.

O senador paranaense também observou que o projeto de Serra está sendo tocado às pressas, sem passar por comissões, enquanto lobistas frequentam os gabinetes em nome de multinacionais como a Shell e a British Petroleum.

Repete-se, aqui, de forma atenuada, o caso da mineradora Vale, vendida a preço de banana por FHC: o ritmo de exploração do minério de ferro passou a ser ditado exclusivamente pela conveniência dos compradores e do “mercado”. Como denuncia o jornalista Lúcio Flávio Pinto, a demolição rápida de Carajás é um crime de lesa-Pátria.

O PL patrocinado pelo tucano Serra — e apoiado por Renan Calheiros, do PMDB — é visto como o primeiro passo para a entrega completa do pré-sal.

Em seguida viriam a volta do regime de concessão, aquele em que a petrolífera paga um valor adiantado ao Tesouro e fica com 100% dos lucros do petróleo extraído. É um regime que beneficia extraordinariamente as empresas estrangeiras, já que o risco de não encontrar petróleo nos campos do pré-sal é zero!

O governo Dilma já está patrocinando o desmantelamento da Petrobras, com a venda parcial ou total de vários negócios da empresa.

Não há dúvida de que a privatização da Petrobras, que Fernando Henrique Cardoso não conseguiu conduzir em seu governo, está no horizonte.

O senador Roberto Requião, no twitter, observou: “Teria o Brasil perdido a maioria no plenário do Senado para as multinacionais do petróleo? Ainda espero que não”.

Por sua vez, a Carta Maior escreveu, na mesma rede social: “Não é sugestivo destes tempos que o responsável pela funcionária-fantasma não tenha sido arguido pela mídia e lidere a entrega do pré-sal?”.

É uma referência ao fato de que José Serra emprega em seu gabinete a irmã da ex-amante de FHC, Mirian Dutra. “Meg” Dutra Schmidt bate o ponto no Senado mas não trabalha. Segundo Serra, está envolvida em um “projeto secreto”.

Com o resultado de ontem, a votação do PLS 131 segue em regime de urgência.

Como notou Paulo Henrique Amorim, a ação pública de Dilma em defesa dos direitos da 
Petrobras resumiu-se a publicar uma nota no Facebook.

Marta Suplicy, agora no PMDB, votou com Renan, Serra e Aécio.

Fundação Palmares lança nota sobre transformação da capoeira em esporte


A capoeira é mandinga, é manha,
é malícia, é tudo o que a boca come”.
– Mestre Pastinha

Na semana passada (16/02), em sua primeira reunião do ano de 2016, o Conselho Nacional de Esporte (CNE), presidido pelo ministro do Esporte, George Hilton, formalizou a resolução, aprovada nessa mesma instância, em 2011, que reconhece a capoeira como esporte.



A questão da regulamentação e esportização da capoeira é antiga e polêmica. Entidades que representam os capoeiristas e mestres de capoeira reagem ora com cautela, ora com firme oposição, haja visto que a regulamentação e profissionalização da capoeira pode representar a deslegitimação daqueles que foram responsáveis pela invenção, manutenção, transmissão e disseminação dos conhecimentos relativos à capoeiragem, em prol da figura do instrutor com formação em educação física. Tal ameaça foi inaugurada pelo Projeto de Lei da Câmara nº 31, de 2009.

Essa distorção reforçaria a desequilibrada relação entre os saberes, a qual reconhece e sustenta o conhecimento acadêmico como o portador da verdade e da precisão, descartando ou relegando os saberes tradicionais, populares e baseados na oralidade a condições inferiores de qualidade e técnica.

Para Mestre Suassuna, a transformação da capoeira em esporte de rendimento representaria um genocídio dos velhos capoeiristas e seus mestres. Em uma linha interpretativa mais moderada, os mestres Mão Branca e Antônio Dias, embora comemorem o reconhecimento, ponderam e são categóricos ao defender que a “capoeira é dos capoeiristas” e são eles que devem geri-la e definir seus rumos.

Dado ao fato da decisão ter sido oficializada recentemente, o Ministério do Esporte ainda não definiu qual entidade ficará responsável pela representação da capoeira. Praticantes e mestres temem que esta função seja atribuída ao Conselho Federal de Educação Física e suas regionais (Sistema Confef/Crefs), entidade, segundo os quais, não teria sensibilidade para lidar com uma prática tão multifacetada.

A capoeira como luta/arte marcial é apenas uma de suas expressões, a qual somam-se: a música, a dança e a cultura. A capoeira mescla resistência com ludicidade, força com leveza. Ademais, a capoeira, que surgiu como forma e espaço de sociabilidade para os negros vindos de África e aqui escravizados, é hoje elemento que remete seus praticantes a uma ancestralidade fundante e está consolidada como um dos símbolos mais relevantes do que chamamos brasilidade.

Na edição dos Diálogos Palmares, acontecida na cidade do Rio de Janeiro, em outubro de 2015, o ministro da Cultura, Juca Ferreira, afirmou que a capoeira “é, de fato, luta, mas ela é cultura, ela é lógica, é música, ela é sentimento de pertencimento [...] E uma coisa bonita da capoeira é que o bom capoeirista não é aquele que bate no outro, mas sim o que mostra que poderia bater, mas que, por civilidade, apenas encena a sua superioridade, enquanto o outro acolhe e tenta superar. Com isso, cria-se um processo positivo de disputa e de amabilidade dentro daquele processo.

A presidenta Cida Abreu, da Fundação Cultural Palmares (FCP), entidade responsável pela promoção e preservação da arte e da cultura afro-brasileira, posicionou-se em relação ao caso e garantiu que a “defesa da autonomia dos Mestres e a salvaguarda da capoeira fazem parte da missão desta Fundação, que está comprometida com essa importante manifestação cultural brasileira”.

“Uma proposta de profissionalização ou de conceituação da capoeira como modalidade esportiva põe em risco toda simbologia, referência e propriedade histórica desta matriz cultural ancestral.” – acrescentou a presidenta Cida.

Os defensores da medida, por seu turno, destacam que com isso as confederações e atletas da capoeira poderão ser beneficiados por programas e recursos disponibilizados pelo Ministério do Esporte, como o Bolsa Atleta.

Enquanto isso, Mestre Paulão Kikongo ressalta que essa iniciativa foi unilateral, autoritária e que envolve interesses que não os dos capoeiristas. O representante da Rede Nacional Ação pela Capoeira alerta ainda para o risco de transformar o capoeirista livre em um produto descartável para o mercado esportivo . (Acesse o abaixo-assinado organizado pela Rede)

Nós, da Fundação Cultural Palmares, acreditamos que classificar a capoeira como esporte de rendimento é aprisioná-la a um rótulo, que a desvirtua e descaracteriza tanto quanto os processos de folclorização.


Capoeira, patrimônio cultural

A complexidade e expressividade da capoeira levaram o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) a registrar a Roda de Capoeira e o Ofício dos Mestres de Capoeira como Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro, em 2008, estando inscritos, no Livro de Registro das Formas de Expressão e no Livro de Registro dos Saberes, respectivamente.

Seis anos depois, a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) conferiu à Roda de Capoeira o título de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. Para Jurema Machado, presidenta do IPHAN, o reconhecimento internacional serve, sobretudo, para colocar a todas as instâncias de governo do Brasil a “necessidade de assumir compromissos para com a salvaguarda desse bem, desde ações de promoção, valorização dos mestres, a preservação das características identitárias da capoeira, a formação de redes de cooperação, de transmissão desse conhecimento”.

Porque a professora e historiadora recusou o convite de Luciano Huck?



Luana Tolentino, historiadora, professora e ativista do movimento negro reusou um convite do programa Caldeirão do Huck para participar de um quadro sobre o Dia Internacional da Mulher.

A professora e historiadora Luana (esq) se recusou a participar do programa de Luciano Huck.
Em seu perfil no Facebook, Luana, que já colaborou para Pragmatismo Político, diz ser contra a conduta do programa de “espetacularizar pessoas que têm histórias de superação” e em “objetificar o corpo da mulher negra”.

A professora também lembrou do polêmico episódio em que Luciano Huck, durante a Copa do Mundo, “usou o programa para oferecer brasileiras aos gringos (relembre aqui)”.

Leia a seguir a resposta de Luana:

Hoje [18 de fevereiro] à tarde fui surpreendida com um telefonema da produção do Caldeirão do Huck. Em março, o programa fará uma homenagem ao Dia Internacional da Mulher. Segundo a produtora do programa “sou uma mulher inspiradora”. Por isso eles acharam que o Luciano Huck deveria me entrevistar.

Não aceitei. Minha decisão não se deu pelo fato do Caldeirão do Huck fazer parte da programação da Rede Globo, emissora pela qual tenho uma infinidade de críticas e há muito tempo não assisto. Longe disso. Não aceitei porque não me agrada a espetacularização que é feita com a vida das pessoas que tem uma “história de superação”.

Não aceitei porque não vou me prestar ao papel de reforçar o discurso da meritocracia, que discordo e combato com veemência.

— Luana, você é a prova de que quando as pessoas realmente querem, elas conseguem! — Foi o que a produtora me disse.

Mas não é bem assim. De fato, desejei estudar, desejei escrever, desejei ser professora. Me sinto grata, rica, realizada em poder fazer tudo o que eu sempre quis. Porém, provavelmente tudo teria sido muito diferente não fosse a estrutura desigual, racista e machista do nosso país.

Para chegar até aqui tive que romper barreiras visíveis e invisíveis. Nesse percurso fui me arrebentando de tal maneira que às vezes tenho a sensação de que sou toda quebrada por dentro. São questões que precisam ser ditas, mas a produção e o Luciano Huck não têm o menor interesse em debatê-las ou enxergá-las.

Concordo que nós negras e negros devemos ocupar espaços, que as nossas vozes devem ir para além da internet, da Academia, e no meu caso, da sala de aula, mas não acho que seja necessário perder de vista os compromissos assumidos: comigo mesma e com aqueles que represento através da minha fala e da minha escrita.

Respeito o trabalho da profissional que entrou em contato comigo. Por isso agradeci imensamente o convite. Por outro lado, não vejo o menor sentido em ser homenageada no dia 8 de Março pelo Luciano Huck, que durante a Copa usou o programa para oferecer brasileiras aos gringos, como se fôssemos mercadoria.

Museu da África: A história contada pelos protagonistas



Continente com maior número de países, a África abriga ao todo 54 nações e é considerada o berço da humanidade. O local ainda possui uma das maiores diversidades étnicas de todo o planeta, que pode ser percebia nas mais diferentes culturas adotadas pelos povos que habitam suas cinco regiões.

O que não falta em África é história, esta que segue uma linha cronológica de milhares de anos até contemporaneidade, ao mesmo tempo em que planeja um futuro com ainda mais protagonismo. Para conhecer esta bela e profunda história da maneira mais interessante possível nada melhor do que pelo ponto de vista africano. Por isso indicamos os 10 museus mais interessantes que os viajantes não podem deixar de visitar no continente:

Popularmente chamado de Museu do Cairo, o prédio inaugurado em 1902 o prédio possui ao todo 120 mil itens que contam a história do Egito Antigo. Foto: Reprodução.
Museu egípcio – Cairo, capital do Egito, é um dos lugares mais misteriosos e intrigantes do mundo. Terra de lendas, mitos e mercados movimentados, a cidade abriga em suas ruas estreitas e de tráfego pesado um dos museus mais interessantes do continente. Popularmente chamado de Museu de Cairo, o prédio, inaugurado em 1902, possui ao todo 120 mil itens que contam a história do Egito antigo e é o lar do maior número de peças da era faraônica. O catálogo conta com tesouros do Rei Tutankhamon, faraó do Egito antigo, que fascinam os pesquisadores pelo fato de ter morrido precocemente (c. 1346 a.C. – 1327 a.C), ser enterrado e um túmulo relativamente simples e principalmente por ser uma das poucas sepulturas reais encontradas quase intactas.

Locado em Gana, o espaço tem como objetivo
criar uma nova era no meio cultural ganense.
Nubuke Foundation – Localizado em Gana, o espaço tem como objetivo criar uma nova era no meio cultural ganense. Em Ewe, uma das línguas oficiais do país, ‘nubuke’ significa ‘novo amanhecer’, título que ilustra bem este intuito. Estabelecido em uma charmosa casa cercada por árvores, o centro cultural não está na lista de suntuosos museus africanos, contudo marca presença aqui por incentivar, usando como trunfo práticas artísticas de um ponto de vista local sobre a história e a arte de Gana, evitando o clichê das versões contadas e curadas majoritariamente por estrangeiros. Entre obras que unem a arte do barro com as novas técnicas de esculturas, exposições que propõem o encontro entre videoarte e fotografia e galerias de artes plásticas, a fundação artística está sempre presenteando o mundo com os novos olhares africanos.

Concretizado a partir de doações de clientes e artistas, o museu contribuiu para o desenvolvimento social e cultural do país. Foto: Divulgação.
Museu Zinsou – Localizado na parte ocidental da África, o Benim tem pouco mais de oito milhões de habitantes e forte ligação com o Brasil. Hoje, o país é dono de um dos museus mais interessantes de toda a África. Criado há pouco mais de um ano pela Fundação Zinsou, o Museu Ouidah se tornou o maior museu de arte contemporânea do continente. Localizado na cidade de mesmo nome, o prédio traz ainda mais brilho para a já charmosa vila portuária, conhecida no Brasil por sua arquitetura que lembra muito Salvador e pela forte presença de afro-brasileiros que voltaram em busca de suas raízes, trazendo consigo sua cultura e tradições aprendidas no Brasil. Concretizado a partir de doações de clientes e artistas, o museu está se tornando referência no segmento e contribuindo para o desenvolvimento cultural e social da região, por meio da educação e do incentivo a criação artística e expositiva.

Referência em artes visuais no leste da África, a galeria se dedica a promoção das práticas artísticas inovadoras e contemporâneas do Quênia. Foto: Divulgação.
Kuona Trust – Referência em artes visuais no Leste da África, a galeria se dedica a promoção das práticas artísticas inovadoras e contemporâneas do Quênia. Organização sem fins lucrativos, o Kuona foi fundado em 1995 e promove o trabalho de cerca de 500 artistas, além de capacitar outros milhares.

Com o quê de abstrato, as milhares de estátuas formam o Museu Tengenenge, criado em 1996 e que já recebeu
obras de três gerações de artistas. 
Tengenenge – Em uma pequena vila do Zimbabwe entre o centro e o norte está localizado um lugar mágico e repleto de esculturas de pedra serpentina que podem chegar até dois metros de altura. Com um quê de abstrato, os milhares de estátuas formam o Museu Tengenenge, criado em 1996 e que conta com obras de três gerações de artistas. Tengenenge é fruto da criatividade de 150 famílias artistas. O local, uma verdadeira plantação de esculturas, é um dos mais renomados do país e possui como filosofia o não uso de aparelhos elétricos na confecção das obras e a autoaprendizagem. Vale a pena conhecer.

Situado na segunda maior cidade de Burkina Faso, Bobo - Dialasso, um pequeno e rico museu conta a história da música tradicional do país. 
Museu da Música – Inegavelmente a música é um dos pontos fortes da África, isso pela sua diversidade e variação de gêneros. Pois em Burkina Faso toda esta efervescência está documentada no Musée de La Musique. Situado na segunda maior cidade de Burkina, Bobo-Dioulasso, este pequeno museu, com cinco salas acanhadas é dono de uma coleção de mais de 40 tipos de instrumentos tradicionais.

Para explicar os caminhos percorridos pela música no país, os visitantes têm acesso a um documentário e complementam o aprendizado quando entram em contato com instrumentos únicos como tambores, flautas e os famosos djembes. Em sua humildade, o Museu da Música de Burkina Faso brinda o público com uma rica e valiosa coleção.

Museu do Apartheid – Durante muito tempo Joanesburgo, maior cidade da África do Sul, viveu momentos tristes de racismo e intolerância onde brancos e negros eram proibidos de se “misturarem”. Este tempo que perdurou por 40 anos ficou conhecido como apartheid (vidas separadas em africâner), período que é documentado em um museu homônimo e parada obrigatória para os que querem entender melhor a história.

No museu, a linha do tempo da segregação racial é contada de forma didática e interativa. Tudo é muito real e forte. Logo na chegada, para sentir o que era ser negro ou branco naquele tempo, o visitante recebe um bilhete que levando em consideração sua cor de pele, lhe dá acesso a entradas diferentes. Com inúmeras referências a Nelson Mandela, símbolo da luta contra o regime, o museu é extenso e exige bastante disposição, pois há muito que se ver, sentir e refletir.

Village Museum – Formado com o objetivo de demonstrar e preservar a cultura dos grupos étnicos da Tanzânia, o museu localizado na cidade de Dar Es Salaam apresenta um importante registro histórico da arquitetura do país. Pensado para abrigar as artes a céu aberto, o espaço reconstituiu as variadas habitações de cada uma das populações nacionais, revelando as tecnologias indígenas utilizadas durante sua construção.

Integram o acervo as seguintes comunidades tradicionais: os Wazaramo, predominantemente islâmicos e habitantes da costa de Dar Es Saalam, os Nayambo, pessoas de língua Bantu, conhecidos pelas habilidades de confecção de cerâmica, os Maasai, grupo étnico Nilotas seminômade e original da região no Nilo, os Gogo, que vivem na região de Dodoma, no centro da Tanzânia, em casas sustentadas por estacas de madeira e suplementadas por galhos mais finos e por fim os Fipa, também de língua Bantu e habitantes do sudoeste do planalto da Tanzânia.

Museu Maropeng – Como foi abordado no início, o continente africano é considerado o berço da humanidade. Precisamente em Sterkfontein está um museu que dá aos visitantes a chance de reviver a história desde o nascer da primeira célula até o desenvolvimento das 1.3 milhões de espécies em todo o mundo. Interativo e com toques de modernidade (com direito a passeio de parco dentro da exibição) o espaço é casa do mais antigo fóssil do mundo, Little Foot, que habitou as cavernas da região e acabou desbancando Lucy, da Etiópia na corrida de “precursor” da raça humana.

Galeria de Arte Matisse – O espaço que fica em Marrakech, no Marrocos, possui 12 anos de vida e é uma instituição reconhecida dentro e fora do país. O local foi fundado com o objetivo de promover a arte marroquina e desenvolve trabalhos que servem de plataforma para artistas contemporâneos. Os ambientes são tomados por quadros, poltronas e obras diversificadas que ilustram a riqueza da cultura local.





Conheça a professora Angela Davis – A Pantera Negra



Angela Davis é uma mulher muito digna, e também muito bonita, uma mulher de 70 anos. É professora de filosofia na Universidade de Santa Cruz, que fica entre São Francisco e Monterey, na Califórnia. Está tranquila. Ensina a seus estudantes as teorias de Karl Marx, Herbert Marcuse, Mikhail Bakunin. Quando substituímos o penteado comportado de hoje pelo black power, que se parece com uma formidável auréola negra no meio da qual estava encaixado um rosto bastante puro, então lembramo-nos de seu nome. Essa professora já idosa de Santa Cruz chama-se Angela Davis. Há 40 anos, ela foi uma das pessoas mais célebres do mundo. Uma das mais detestadas. Uma das mais admiradas.

Ela adotou o penteado dos rebelados no Quênia e fez do penteado Afro um simbolo do orgulho negro. Foto: Melloul/Corbis/Latinstock.
Deus ou Diabo

O mundo se dilacerava em torno de Angela. Em Paris, 100 mil pessoas desfilavam na rua gritando seu nome, atrás de Jean-Paul Sartre e do poeta Louis Aragon. Na Inglaterra, os Beatles e os Stones entusiasmavam as multidões cantando "a pantera negra". Na mesma época, nos Estados Unidos, o presidente Richard Nixon a amaldiçoava. Ronald Reagan, governador da Califórnia, tentou expulsá-la para sempre de qualquer universidade do estado. O chefe do FBI, Edgar J. Hoover, lançava suas tropas para caçá-la e jogá-la em uma prisão de isolamento absoluto. Essa era Angela Davis: um Diabo ou um Bom Deus. Hoje, quase meio século depois, ela não renegou nada. Está intacta.

Ela nasceu em 1944, em Birmingham, no Alabama. Não é um bom lugar para nascer quando se é negra. A América daquela época, pelo menos o sul, odiava os negros: rixas, linchamentos, Ku Klux Klan. Os pais de Angela faziam parte da pequena burguesia - o pai era professor de história na escola secundária, mas recebia tão pouco que pediu demissão para abrir um posto de gasolina; a mãe ensinava na escola primária. Eram comunistas. Moravam no bairro de Dynamite Hill. Por que esse nome? Os brancos não aceitavam que negros se instalassem próximos a eles. De tempos em tempos, as casas explodiam.

Aos 12 anos, Angela participa do boicote a um ônibus que praticava segregação. Dois anos mais tarde, graças a uma bolsa, ela vai para Nova York e continua seus estudos em um liceu de esquerda chamado Little Red School House. A moça é brilhante. Radicaliza-se. Entra na Universidade de San Diego, na Califórnia, e ali começa a militar contra a Guerra do Vietnã. Primeira prisão.

Mas é um pouco solitária. Mesmo nos movimentos negros não encontra seu lugar. Eram duas as tendências dominantes: uns sonhavam com revoltas negras hiperviolentas, como as de Watts ou as de Detroit. Do outro lado, Martin Luther King, personagem suave e brilhante, preferia "o integracionismo". Angela rejeita as duas posições. A única saída que ela vê é o marxismo, a luta política cujo horizonte apenas o socialismo ilumina. Mas a maioria de seus amigos negros rejeita o marxismo, tido como "doutrina de homem branco". Além do mais, ainda que Angela Davis seja marxista, ela não deseja aderir ao comunismo oficial.


Black Panther

Finalmente, ela adere ao Black Panther Party, organização revolucionária que rejeita tanto o integracionismo quanto o separatismo. Criado em 1966 por Bobby Seale e Huey P. Newton, dois estudantes de Oakland, era para ser pacífico. No início, se chamavam de "os pombos". Mas o pombo, delicado e arrulhador, não estava dando certo. Influenciados por outro líder negro ilustre, Malcolm X, eles endurecem. Para responder com violência à violência dos brancos, adotam o símbolo da pantera negra.


Caçada

Em 1970, um pantera negra perigoso, George Jackson, estava encarcerado na prisão Soledad, na Califórnia, onde formava, com dois outros detentos, os "Irmãos de Soledad". Eram acusados de matar um guarda penitenciário branco em retaliação à execução de outros três detentos negros. Em agosto daquele ano, na alegada luta para denunciar os maus-tratos a negros nos presídios americanos, o irmão de 17 anos de George, Jonathan, invadiu o tribunal de Marin County e tomou o juiz Harold Haley como refém. Há luta. Quatro são mortos, inclusive Jackson e Haley. A polícia examina a arma. O relatório acusa: o fuzil de cano cortado cuja bala atingiu a cabeça do juiz pertencia a Angela Davis.

Estupor. O diretor do FBI, Edgar Hoover, lança seus exércitos à procura de Angela e a inscreve na lista das dez pessoas mais procuradas nos Estados Unidos, a famosa Lost Wanted List. Ela foge. Por quê? "Teria sido morta", diz ela hoje. Hoover manda prender centenas de mulheres que se parecem com ela. Sua foto está em todo lugar com a seguinte legenda de western: Armada e perigosa. Ela se disfarça. A polícia revista as comunidades negras. No sul do país, milhares de casas mostram este cartaz: Angela, nossa irmã, você é bem-vinda nesta casa. Mas o FBI tem mãos de ferro. Angela é presa em outubro em Nova York.


Reclusão

No exterior, um enorme movimento se ergue em seu favor, com as pessoas nas ruas. O poeta surrealista Jacques Prévert publica um texto belo com um choro: Angela em sua prisão escuta sem poder ouvi-las, e talvez sorrindo, as canções de seus irmãos de fé, de riso e de dor, e os refrões engraçados das crianças do gueto. Aqueles que enclausuram os outros sentem o enclausurado. Aqueles que estão enclausurados sentem a liberdade. (...) É preciso libertar Angela - enquanto não chega o dia em que serão condenadas todas as portas atrás das quais a vida negra está enclausurada.

Em Londres, Mick Jagger e Keith Richards cantam: Tem um doce anjo negro /Tem uma pin-up,/ Tem um doce anjo negro,/ Pregado na minha parede/ Bem, ela não é nenhuma cantora, ela não é nenhuma estrela/ Mas com certeza ela fala bem, com certeza ela se move rápido/ Mas essa garota está em perigo, ela está acorrentada (...) Não existe ninguém para libertá-la?/ Libertem a doce escrava negra/ Libertem a doce escrava negra.

Em Londres, outro canto é retomado por milhares de vozes. Este foi escrito por Yoko Ono: Irmã, você ainda é a professora do povo,/ Irmã, sua palavra chega longe/ Irmã, existem um milhão de raças diferentes,/ Mas todos nós dividiremos o mesmo futuro no mundo./ Eles te deram a luz do sol,/ Te deram o mar/ Te deram tudo menos a chave desta prisão,/ Sim, te deram café,/ Te deram chá/ Eles te deram tudo menos a igualdade.


Black is beautiful

Enquanto as multidões do mundo gritam seu nome, Angela permanece presa, em isolamento absoluto, durante 16 meses. "Eles queriam me quebrar, ela diria mais tarde. Me enlouquecer. Eu escrevi, refleti. Aprendi ioga nos livros. Vivi momentos muito duros, de angústia, de claustrofobia. E momentos de graça. Eu não podia desabar." Em 5 de janeiro de 1971, ela é acusada de assassinato, sequestro e conspiração pelo caso Marin County. Em 1972, é absolvida e, mais livre que nunca, se torna uma celebridade mundial. Em toda parte, aparece a longa silhueta da combatente, seu rosto de porcelana, a imensa cabeleira afro. Black is beautiful.

Às vezes imaginamos que Angela inventou esse penteado. Nada disso. O penteado afro lhe foi dado pela história. Ele vem das colônias italianas do Quênia, quando os negros rebelados rejeitam o cabelo liso europeu e criam o estilo afro, que, mais tarde, dará a volta ao mundo como um símbolo de orgulho negro, com o pente afro acabando em black fist colocado nos cabelos.

A prisão, o terror, o isolamento não destruíram Angela. Ela martela sua pregação mantendo-se distante tanto dos comunistas, que ela acha "psicorrígidos", quanto dos que defendiam o nacionalismo negro, com combates, criação de uma nação afro-americana ou mesmo a volta para a África.


Mulher e negra

A voz de Angela é quase única também por associar em uma mesma profecia a luta pela dignidade dos negros e a emancipação feminina. "Havia um machismo maciço, ela se lembra, tanto entre os comunistas quanto no nacionalismo negro. As mulheres não eram consideradas capazes de carregar a causa, de serem líderes." Seria não conhecer bem Angela acreditar que ela iria se limitar, nas organizações negras, à tarefa de passar o pano no chão ou preparar a marmita dos senhores.

Então será que ela vai adotar o combate das feministas americanas da década de 70? Meu Deus! "Mas essas mulheres eram burguesas demais para mim. Elas eram brancas e lutavam pelo direito ao trabalho e ao aborto. Mas as negras já tinham uma profissão. Elas eram domésticas. Minha concepção do feminismo é a de uma emancipação que vai além das fronteiras estabelecidas. As questões de sexualidade, de raça, de classe e de gênero estão intimamente ligadas."

E ela oferece esta bela fórmula: "Meu objetivo sempre foi encontrar pontos entre as ideias e derrubar os muros. E os muros derrubados se transformam em pontes". Inimigo, o raivoso Louis Farrakhan, chefe da Nação do Islã que organizou a Marcha do 1 Milhão em 1995, acusou Angela de ser lésbica. Por isso não. Em 1997, na revista Out, ela declara: "Sim, sou lésbica".


Longo caminho

A América mudou muito desde o tempo em que a menina de 12 anos boicotava um ônibus porque os negros não tinham o direito de andar ao lado dos brancos nos transportes públicos. Ângela reconhece os progressos. Em sua juventude, raros eram os negros no ensino superior. Hoje, eles são milhões. Mas a estrada é longa ainda, ela repete. Diante da observação de que uma coisa inacreditável aconteceu, a eleição de um negro para a Presidência dos Estados Unidos, ela modera o entusiasmo. "Hoje, ninguém na Casa Branca parece se preocupar com o fato de que 1 milhão de negros estão nas prisões americanas."

É assim que fala a mulher de Santa Cruz, em uma universidade dessa Califórnia que Nixon e Reagan juraram lhe proibir para sempre. Ela ensina Kant e Hegel, Platão, Merleau-Ponty e Theodore Adorno, Herbert Marcuse. Ela não usa mais o cabelo afro. Às vezes ela tem dreadlocks, essas mechas misturadas que se formam sozinhas quando os cabelos crescem naturalmente ou quando são antes trançados. Ela está ali, tranquila, resoluta, intratável. Ela foi um momento trágico da história dos Estados Unidos. Ela permanece um momento da história do mundo.