1 de março de 2026

“Se o racismo é sistêmico, o cuidado também deve ser”, afirma especialista sobre impactos na saúde mental

 

Tainara Ferreira aponta impacto cumulativo da discriminação na saúde emocional da população negra em todos os ambientes, atingindo até mesmo profissionais formados na área. (FOTO | Divulgação).

O impacto do racismo na saúde mental da população negra tem sido apontado por pesquisadores e especialistas como um dos efeitos menos visíveis, porém persistentes, das desigualdades estruturais no Brasil. A exposição recorrente a situações de discriminação, exclusão e violência simbólica pode gerar sobrecarga emocional, estresse crônico e adoecimento psíquico ao longo da vida.

Estudos nacionais e internacionais indicam que a vivência de racismo está associada a maiores índices de ansiedade, depressão e sofrimento psicológico. Dados do Atlas da Violência 2023, produzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública em parceria com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, mostram que a população negra está mais exposta a contextos de vulnerabilidade social e violência, fatores que também impactam a saúde mental.

Para a consultora em letramento racial e de gênero Tainara Ferreira, o racismo deve ser compreendido como um processo sistêmico, que atravessa instituições e relações cotidianas. “Se o racismo é sistêmico, o cuidado também deve ser”, afirma. Segundo ela, o enfrentamento do problema exige políticas estruturadas de acolhimento, formação continuada de equipes e protocolos claros para lidar com denúncias de discriminação.

A especialista destaca que ambientes públicos e privados, incluindo espaços de lazer e entretenimento, precisam incorporar o letramento racial como diretriz permanente de gestão. A ausência de preparo institucional, afirma, pode intensificar o sofrimento emocional de pessoas que já lidam com experiências acumuladas de discriminação.

O debate ganhou repercussão recente após a morte do psicólogo e mestrando Manoel Rocha Reis Neto, de 32 anos, no Recôncavo baiano. Dias antes, ele havia relatado nas redes sociais ter sofrido racismo em um camarote durante o Carnaval de Salvador. O caso é tratado como suspeita de suicídio pela Polícia Civil da Bahia. A situação reacendeu discussões sobre os efeitos do racismo na saúde mental, inclusive entre profissionais da área.

No campo normativo, a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 passa a exigir, a partir de 1º de maio, a gestão de riscos psicossociais pelas empresas. Para Tainara, a medida representa avanço, mas deve considerar também os impactos de violências estruturais como o racismo. Segundo ela, políticas de prevenção e acolhimento precisam dialogar com saúde, educação, cultura e atendimento ao público.

Especialistas apontam que reconhecer a dimensão estrutural do racismo é condição para formular respostas institucionais mais eficazes, capazes de reduzir danos e promover ambientes mais seguros para todos.

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Com informações do Notícia Preta.

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