26 de março de 2026

Julia Monteiro é a síntese da escola que queremos

 

Alexandre Lucas. (FOTO | Acervo pessoal).

Alexandre Lucas, colunista

Naquela sala se ensaiava o tempero da rebeldia e da revolução. O mundo via os rostos destemidos de quase 50 jovens que, ainda nem sabiam o gosto da universidade, armados de ideias e coragem, resistiam na sala cercada de militares e intolerância.

Apagaram as luzes. Impediram água e comida. Tentaram cansar os quase 50 jovens, que acendia naquela sala, sem nenhum molotov, um formigueiro chamado juventude.

Os celulares, as únicas armas, olhos e vozes do mundo, registravam a bravura dos quase cinquenta estudantes, das quase cinquenta crianças, dos quase homens e mulheres.

A menina negra, de cabelos mostrando as orelhas, com a cabeça e o corpo na porta, junto com suas companheiras e companheiros, tentava negociar a integridade física dos ocupantes, mas é impossível negociar com os cães de guarda do poder. Os dentes dos cães fardados estavam à mostra, esperando suas presas: quase mulheres e homens, armados exclusivamente de ideias e coragem.

Julia Monteiro, a menina negra, é arrastada no escuro pelas mãos de ferro do estado; do outro lado é abraçada pela ternura dos que não soltam as mãos diante da injustiça e do medo.

Júlia Monteiro é dessas que não se encontra em qualquer esquina, que não está em qualquer sala, que não bate continência para os generais, que não segue os padrões. Ela mexe os quadris, empunha microfones. Balança bandeiras e segura nas mãos a ciranda da esperança.

Estamos distantes e de mãos dadas. Júlia faz escola, onde me formei; os nossos livros não se encontram na sala de aula, e nossas canetas escrevem o que não nos ensinam nas escolas. Hoje queria estar com Júlia cuspindo rebeldia para dizer que os estudantes brasileiros não são lagartixas e que os nossos sonhos não cabem dentro do silêncio e de uma sala.

Júlia é a síntese da escola que queremos construir, e ela não está sozinha.

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