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| Alexandre Lucas. (FOTO | Acervo pessoal). |
Alexandre Lucas, colunista
Naquela sala se ensaiava o tempero da rebeldia e da revolução. O mundo via os rostos destemidos de quase 50 jovens que, ainda nem sabiam o gosto da universidade, armados de ideias e coragem, resistiam na sala cercada de militares e intolerância.
Apagaram
as luzes. Impediram água e comida. Tentaram cansar os quase 50 jovens, que
acendia naquela sala, sem nenhum molotov, um formigueiro chamado juventude.
Os
celulares, as únicas armas, olhos e vozes do mundo, registravam a bravura dos
quase cinquenta estudantes, das quase cinquenta crianças, dos quase homens e
mulheres.
A
menina negra, de cabelos mostrando as orelhas, com a cabeça e o corpo na porta,
junto com suas companheiras e companheiros, tentava negociar a integridade
física dos ocupantes, mas é impossível negociar com os cães de guarda do poder.
Os dentes dos cães fardados estavam à mostra, esperando suas presas: quase
mulheres e homens, armados exclusivamente de ideias e coragem.
Julia
Monteiro, a menina negra, é arrastada no escuro pelas mãos de ferro do estado;
do outro lado é abraçada pela ternura dos que não soltam as mãos diante da
injustiça e do medo.
Júlia
Monteiro é dessas que não se encontra em qualquer esquina, que não está em
qualquer sala, que não bate continência para os generais, que não segue os
padrões. Ela mexe os quadris, empunha microfones. Balança bandeiras e segura
nas mãos a ciranda da esperança.
Estamos
distantes e de mãos dadas. Júlia faz escola, onde me formei; os nossos livros
não se encontram na sala de aula, e nossas canetas escrevem o que não nos
ensinam nas escolas. Hoje queria estar com Júlia cuspindo rebeldia para dizer
que os estudantes brasileiros não são lagartixas e que os nossos sonhos não
cabem dentro do silêncio e de uma sala.
Júlia é a síntese da escola que queremos construir, e ela não está sozinha.

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