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| (FOTO | Reprodução | Mídia Ninja). |
A Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou, nesta sexta-feira (4), uma resolução que promove o uso de representações cartográficas capazes de retratar com maior precisão o tamanho relativo dos continentes. A iniciativa foi liderada pelo Togo, com apoio de países africanos e da União Africana, e teve ampla aprovação internacional: 164 países votaram a favor, seis se abstiveram e apenas os Estados Unidos votaram contra.
A resolução incentiva a utilização da projeção Equal Earth, desenvolvida para representar as áreas dos continentes de maneira proporcional. A proposta ganhou destaque especialmente por corrigir uma distorção histórica que afeta a percepção sobre o tamanho da África.
Um mapa que não mostra o mundo em suas proporções reais
Durante séculos, a projeção de Mercator, criada no século XVI, tornou-se uma das formas mais conhecidas de representar o planeta em uma superfície plana. Seu desenvolvimento esteve relacionado principalmente à navegação marítima.
O problema é que a projeção aumenta visualmente as regiões próximas aos polos. Como consequência, territórios como Groenlândia e Europa aparecem muito maiores em relação à África do que realmente são. A África possui aproximadamente 14 vezes a área da Groenlândia, embora, em muitos mapas baseados na projeção de Mercator, as duas regiões possam parecer semelhantes em tamanho.
A projeção Equal Earth procura preservar melhor a proporção das áreas continentais. Com ela, a África passa a ocupar no mapa uma dimensão visual mais compatível com sua extensão territorial.
A África no centro do debate
Mais do que uma discussão técnica sobre cartografia, a iniciativa abriu espaço para um debate sobre como os mapas influenciam a maneira como as sociedades enxergam o mundo.
O ministro das Relações Exteriores do Togo, Robert Dussey, argumentou que os mapas participam da formação do conhecimento, especialmente nas escolas, e podem contribuir para a reprodução de percepções equivocadas sobre determinadas regiões do planeta.
Nesse sentido, a campanha liderada pelo Togo está relacionada a uma discussão mais ampla sobre os efeitos históricos do colonialismo e sobre a necessidade de questionar representações que, durante gerações, ajudaram a construir uma determinada visão geográfica e política do mundo.
Para países africanos, portanto, corrigir o mapa também significa disputar a forma como a África é imaginada e ensinada.
Escolas e tecnologias estão entre os próximos alvos
A resolução aprovada pela ONU não determina que os países abandonem imediatamente a projeção de Mercator. O documento tem caráter de recomendação e não impede seu uso, especialmente em áreas como navegação, para as quais a projeção continua tendo utilidade.
O Togo, entretanto, pretende avançar rapidamente na mudança. O país anunciou a intenção de atualizar seus materiais escolares de geografia até o final de 2026 e pretende dialogar com outros governos, organizações internacionais e empresas de tecnologia sobre a utilização de representações mais proporcionais.
A discussão também alcança empresas responsáveis por mapas digitais, sistemas de localização e outras tecnologias que ajudam milhões de pessoas a visualizar o planeta diariamente.
Brasil também votou a favor
Entre os países que apoiaram a resolução está o Brasil, que se somou à ampla maioria da Assembleia Geral da ONU. O resultado demonstra que a discussão ultrapassou as fronteiras africanas e passou a envolver diferentes regiões do mundo.
A votação, entretanto, também revelou uma divisão política. Os Estados Unidos foram o único país a votar contra a resolução, enquanto seis países optaram pela abstenção. O governo norte-americano classificou a iniciativa como uma questão ideológica e afirmou que ela desviaria a atenção de problemas internacionais considerados mais urgentes.
Quando um mapa também é uma questão de poder
A discussão provocada pelo chamado “Corrigir o Mapa” mostra que mapas não são apenas instrumentos para localizar países, cidades e oceanos. Eles também são formas de representar o mundo.
Toda projeção cartográfica precisa fazer escolhas, porque é impossível transformar perfeitamente uma superfície esférica em uma folha de papel ou em uma tela plana. Algumas projeções privilegiam áreas, outras formas, distâncias ou direções.
O debate atual está justamente em questionar quais representações devem ocupar maior espaço nas escolas, nos livros, na mídia e nas tecnologias digitais.
Para a África, a mudança possui um significado simbólico importante: durante muito tempo, milhões de estudantes aprenderam geografia observando um continente que, em determinados mapas, parecia menor do que realmente é.
A adoção mais ampla da Equal Earth não muda o tamanho físico da África. Muda a forma como seu tamanho é percebido.
E talvez seja esse o aspecto mais importante dessa decisão da ONU: reconhecer que aquilo que vemos em um mapa também participa da construção daquilo que pensamos sobre o mundo.
com informações de Reuters, AFP, Associated Press e ONU.

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