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| (📸 | Imagem herada por IA de uma menina pequena e preta de perfil. FOTO | Reprodução | Freepi). |
“Uai, nunca vi isso. Preta e pobre com nome de rica?” Foi o que ouvi de uma pessoa branca, de classe média, formada em Moda, quando contei que a filha da minha prima havia nascido e que o nome dela era Meïve.
Por mais absurda que pareça, a afirmação não é nova. Pelo contrário. Está enraizada em um pensamento colonial que ainda organiza silenciosamente muitas práticas sociais do nosso cotidiano. Como se a condição social ou a falta de recursos fossem critérios legítimos para decidir como uma pessoa deveria se chamar. Se olharmos para a história da colonização no Brasil, veremos como o nome sempre esteve ligado a mecanismos de dominação da identidade das pessoas trazidas à força para cá. Foram os escravizadores que decidiram os nomes dos africanos escravizados.
Nomes que, em muitos casos, precisavam ser católicos, como forma de homenagear a religião que supostamente salvaria aquelas almas por meio do trabalho forçado. Um trabalho que, segundo a lógica racista da época, redimiria pecadores, criminosos e, pasmem, aqueles que eram chamados de preguiçosos.
Os sobrenomes também não eram escolha. Ficavam vinculados ao nome da família do senhor, que decidia como aquela pessoa seria identificada socialmente.
O nome funcionava como mais um instrumento de posse.
Nos Estados Unidos o processo não foi muito diferente. Pessoas escravizadas também recebiam nomes impostos e, após a abolição, muitas escolheram novos sobrenomes como forma de romper simbolicamente com a condição de propriedade. Alguns adotaram nomes como Freeman, homem livre. Outros simplesmente abandonaram o nome do antigo senhor. O nome, mais uma vez, aparecia como território de disputa entre dominação e liberdade.
O filme “Harriet”, estrelado por Cynthia Erivo, retrata bem essa dimensão. Harriet Tubman nasceu escravizada como Araminta Ross, fugiu e, ao conquistar a liberdade, escolheu seu próprio nome. Mais do que uma mudança formal, foi um gesto de autodeterminação. Depois disso, voltou diversas vezes para resgatar outras pessoas escravizadas, transformando o próprio nome em símbolo de liberdade. Nomear é reconhecer existência, importância e lugar no mundo. Quando o nome é negado, recusado ou substituído à força, como aconteceu com milhões de pessoas escravizadas que perderam nomes, histórias e famílias, o que se nega junto é o valor, a dignidade e a própria humanidade dessas pessoas.
Se observarmos o significado dos nomes, percebemos ainda melhor a perversidade daquele comentário. Meïve, ou Maeve, é um nome de origem irlandesa associado à alegria, ao encanto e à força feminina, historicamente ligado a figuras de liderança na mitologia celta.
E é aí que a pergunta implícita se torna ainda mais violenta. Desde quando uma menina negra e pobre não poderia carregar um nome associado à força, à beleza ou à dignidade? Desde quando o direito à delicadeza, ao cuidado e à grandiosidade simbólica deveria ser privilégio de classe ou de raça?
No fundo, o que aquele comentário revela é a tentativa histórica de limitar não apenas os corpos, mas também os horizontes simbólicos das pessoas negras. Como se até os sonhos precisassem caber dentro das fronteiras da desigualdade.
Dar a uma menina negra um nome que remete à força e à beleza também é um gesto político. É afirmar que ela tem direito ao amor, ao cuidado, à proteção e ao futuro. É recusar a velha lógica que tentou convencer este país de que certas pessoas nasceram apenas para sobreviver, nunca para florescer.
Primeiro tiraram os nomes.
Depois tentaram apagar as histórias.
Agora ainda incomoda quando alguém decide escrever novos significados.
Talvez por isso o incômodo não seja com o nome.
Talvez seja com a ideia de que quem sempre foi mandado ocupar pouco espaço agora também quer ocupar o direito de ser infinito.
Eu precisei ajustar o meu próprio nome. Resolvi retirar a parte dele que nunca me representou e manter aquela que meu pai escolheu para que eu fosse seu xará, João, já que ele se chama João Luís. Mantive também o sobrenome da família da minha mãe, Xavier. E decidi me dar um título que não veio da academia nem do cartório. Transformei o pronome de tratamento Seu em prenome.
Hoje sou Seu João Xavier.
Decidi isso aos 35 anos.
E pelo menos uma vez por semana encontro alguém que olha para mim e decide que não deveria me chamar assim. Mesmo em contextos formais. Mesmo com meu documento oficial com foto em mãos. Mesmo quando a informação está escrita de forma inequívoca.
Um colega de departamento, desses que se orgulham de ser velho de casa, certa vez me disse que me chamaria pelo nome que estava no meu diploma. Naquele momento entendi que o problema nunca foi o nome. Era o incômodo de ver um homem preto, considerado novo mesmo depois de oito anos de instituição, ocupando um espaço que algumas pessoas ainda acreditam ser propriedade simbólica delas.
Fiquei pensando se não é esse mesmo tipo de violência, travestida de convicção pessoal, que tantas pessoas trans enfrentam quando dizem quem são e ainda assim são chamadas por nomes ou pronomes que não lhes pertencem. Como se a identidade do outro fosse um território público onde qualquer um pudesse legislar.
Em outros contextos, minhas titulações como professor, mestre, doutor e agora doutorando em um segundo doutorado também parecem causar desconforto. Não raro elas são reduzidas. Às vezes viro apenas professor. Em outras ocasiões, apenas mestre. Curiosamente, muitas vezes estou nesses espaços exatamente por causa dessas credenciais.
Ainda assim, há sempre quem tente diminuir o tamanho da cadeira quando percebe quem está sentado nela.
Ter o nome negado, a presença questionada e as conquistas diminuídas mostra apenas como a violência social não desaparece.
Ela se adapta.
Se reorganiza.
Aprende novas formas de continuar dizendo quem pode e quem não pode existir plenamente.
Mas existe uma coisa que essas pequenas agressões ainda não aprenderam a fazer.
Elas não conseguem mais nos convencer.
Meu nome é Seu João Xavier. Foi escolha minha. É afirmação minha. É história minha.
E se durante séculos tentaram decidir como pessoas como eu deveriam se chamar, existir ou sonhar, talvez a maior desobediência possível hoje seja exatamente essa.
Dizer o próprio nome.
E não pedir autorização para existir dentro dele.
Talvez seja exatamente aí que more a mudança.
Porque, no fim das contas, a mesma estranheza ao ouvir um homem preto dizer que se chama Seu João Xavier é a mesma rejeição diante de uma menina preta e pobre que se chama Meïve.
No dia em que homens pretos decidem nomear a si mesmos e meninas pretas recebem nomes que significam força, a dignidade deixa de pedir licença.
Meu nome é Seu João Xavier.
E o nome dela é Meïve.
E nós dois existimos muito bem assim.
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Por Seu João Xavier, no Alma Preta Jornalismo.

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