15 de dezembro de 2025

A educação para as relações étnico-raciais só tem espaço nas escolas em novembro?

 

(FOTO | Reprodução | Brasil de Fato - CE).

No calendário escolar cearense, é comum encontrar eventos científicos e culturais relacionados à Semana da Consciência Negra em novembro. Durante essa semana, vê-se estudantes celebrando as artes, a religião, as personalidades, a história e a beleza do povo preto, temas esses que pavimentaram, e ainda pavimentam, as estruturas da nossa sociedade. Tal perspectiva de ensino ganhou espaço com a lei 10.639/03, que tornou obrigatório o ensino da história e da cultura afro-brasileira na educação básica, e desse modo, os temas relacionados à negritude têm chegado às escolas, apesar de um currículo ainda majoritariamente eurocentrado. Nesse contexto, cabe-nos uma pergunta: a escola está conseguindo dar conta de promover o letramento racial na sociedade brasileira?

Parafraseando Angela Davis, não basta que a escola não seja racista, o seu projeto político pedagógico precisa ser antirracista, emancipatório e engajado. Não adianta que a escola, ao abordar as relações étnico-raciais, foque apenas numa perspectiva histórica a partir do sequestro dos povos do continente africano, do processo de escravização e reificação desses indivíduos que até hoje sofrem as consequências sociais desse fato. A escola continua desumanizando os corpos racializados, somos objeto de conhecimento, mas não sujeitos ativos no processo de ensino-aprendizagem.

Para mudar essa realidade, é necessário enegrecer nosso referencial teórico e escutar as vivências da comunidade escolar, a fim de modificar a realidade e promover um letramento racial adequado aos nossos territórios. Quantos estudantes terminaram a sua escolarização sem saber que a matemática, a medicina e outras ciências nasceram negras? O que aprendemos sobre a história do povo preto antes da escravidão? Quantos intelectuais negros foram embranquecidos nos livros didáticos? Quais muros ainda precisam ser derrubados para enegrecer os espaços acadêmicos? Enquanto esses questionamentos persistirem, vemos que ainda estamos dando os primeiros passos rumo à reparação devida aos grupos étnico-raciais a quem sempre foi negada a oportunidade de contar seus feitos e fortalecer a sua memória coletiva.

Em Salvador, a professora e pesquisadora Bárbara Carine Pinheiro idealizou a escola Afro-brasileira Maria Firmina, espaço onde se promove uma educação decolonial e antirracista para famílias negras e não negras. Esse estabelecimento de ensino considera todos os membros de sua comunidade como educadores, assim sendo, da portaria à sala de aula, todos os profissionais são preparados para consolidar os princípios do projeto político, fortalecendo e empoderando os educandos. Segundo a educadora, uma das decisões centrais dos seus ideais pedagógicos está no fato de apontar toda a potência e o pioneirismo negro, “se nós viemos de uma ancestralidade altiva, potente e pioneira, não tem como sermos diferentes no presente nem como projetarmos isso no futuro a partir da emancipação da nossa comunidade negra”.

Nessa perspectiva, acreditamos numa abordagem transversal e interdisciplinar dos temas relacionados à educação para as relações étnico-raciais. Porém, essa concepção de ensino não pode continuar sendo pontual e a cargo da sensibilidade individual de professoras/es de determinadas disciplinas, ou ainda, de professoras/es negras/os que já passaram pela experiência de reconhecer-se negras/os em suas vidas escolares e buscam promover uma vivência menos dolorosa para jovens negras e negros em um país estruturalmente racista como o Brasil. Assim, solucionar os problemas gerados pelo racismo é missão de quem os potencializa: o Estado brasileiro. Esse mesmo estado que promove a necropolítica e o epistemicídio aos saberes tradicionais, que apaga há séculos a nossa história de luta e de resistência, é o responsável não apenas em implementar políticas públicas em prol de educação antirracista, mas precisa também promover e cobrar a fiscalização dessas ações, promovendo a descolonização do currículo escolar e a capacitação dos seus profissionais, fazendo com que o letramento racial chegue a todo o território nacional.

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Texto de Lorena Rodrigues; ela é professora da rede estadual do Ceará, Doutora em Linguística e militante do Movimento Brasil Popular.

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