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| (FOTO | Reprodução | Brasil de Fato - CE). |
No calendário escolar cearense, é comum encontrar eventos científicos e culturais relacionados à Semana da Consciência Negra em novembro. Durante essa semana, vê-se estudantes celebrando as artes, a religião, as personalidades, a história e a beleza do povo preto, temas esses que pavimentaram, e ainda pavimentam, as estruturas da nossa sociedade. Tal perspectiva de ensino ganhou espaço com a lei 10.639/03, que tornou obrigatório o ensino da história e da cultura afro-brasileira na educação básica, e desse modo, os temas relacionados à negritude têm chegado às escolas, apesar de um currículo ainda majoritariamente eurocentrado. Nesse contexto, cabe-nos uma pergunta: a escola está conseguindo dar conta de promover o letramento racial na sociedade brasileira?
Parafraseando
Angela Davis, não basta que a escola não seja racista, o seu projeto político
pedagógico precisa ser antirracista, emancipatório e engajado. Não adianta que
a escola, ao abordar as relações étnico-raciais, foque apenas numa perspectiva
histórica a partir do sequestro dos povos do continente africano, do processo
de escravização e reificação desses indivíduos que até hoje sofrem as
consequências sociais desse fato. A escola continua desumanizando os corpos
racializados, somos objeto de conhecimento, mas não sujeitos ativos no processo
de ensino-aprendizagem.
Para
mudar essa realidade, é necessário enegrecer nosso referencial teórico e
escutar as vivências da comunidade escolar, a fim de modificar a realidade e
promover um letramento racial adequado aos nossos territórios. Quantos
estudantes terminaram a sua escolarização sem saber que a matemática, a
medicina e outras ciências nasceram negras? O que aprendemos sobre a história
do povo preto antes da escravidão? Quantos intelectuais negros foram embranquecidos
nos livros didáticos? Quais muros ainda precisam ser derrubados para enegrecer
os espaços acadêmicos? Enquanto esses questionamentos persistirem, vemos que
ainda estamos dando os primeiros passos rumo à reparação devida aos grupos
étnico-raciais a quem sempre foi negada a oportunidade de contar seus feitos e
fortalecer a sua memória coletiva.
Em
Salvador, a professora e pesquisadora Bárbara Carine Pinheiro idealizou a
escola Afro-brasileira Maria Firmina, espaço onde se promove uma educação
decolonial e antirracista para famílias negras e não negras. Esse
estabelecimento de ensino considera todos os membros de sua comunidade como
educadores, assim sendo, da portaria à sala de aula, todos os profissionais são
preparados para consolidar os princípios do projeto político, fortalecendo e
empoderando os educandos. Segundo a educadora, uma das decisões centrais dos
seus ideais pedagógicos está no fato de apontar toda a potência e o pioneirismo
negro, “se nós viemos de uma ancestralidade altiva, potente e pioneira, não tem
como sermos diferentes no presente nem como projetarmos isso no futuro a partir
da emancipação da nossa comunidade negra”.
Nessa
perspectiva, acreditamos numa abordagem transversal e interdisciplinar dos
temas relacionados à educação para as relações étnico-raciais. Porém, essa
concepção de ensino não pode continuar sendo pontual e a cargo da sensibilidade
individual de professoras/es de determinadas disciplinas, ou ainda, de
professoras/es negras/os que já passaram pela experiência de reconhecer-se
negras/os em suas vidas escolares e buscam promover uma vivência menos dolorosa
para jovens negras e negros em um país estruturalmente racista como o Brasil.
Assim, solucionar os problemas gerados pelo racismo é missão de quem os potencializa:
o Estado brasileiro. Esse mesmo estado que promove a necropolítica e o
epistemicídio aos saberes tradicionais, que apaga há séculos a nossa história
de luta e de resistência, é o responsável não apenas em implementar políticas
públicas em prol de educação antirracista, mas precisa também promover e cobrar
a fiscalização dessas ações, promovendo a descolonização do currículo escolar e
a capacitação dos seus profissionais, fazendo com que o letramento racial
chegue a todo o território nacional.
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Texto de Lorena Rodrigues; ela é professora da rede estadual do Ceará, Doutora em Linguística e militante do Movimento Brasil Popular.

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