A
movimentação na vila dos Jogos Mundiais dos Povos Indígenas (JMPI) é intensa,
com turistas e moradores da região circulando o tempo todo nos espaços erguidos
para o evento. Tanto dentro quanto fora das feiras instaladas na área da vila,
o comércio de produtos artesanais é intenso e a pintura corporal atrai curiosos
e turistas.
![]() |
Por R$ 5 ou R$ 10, é possível exibir a arte indígena no rosto durante uma semana. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil |
Por
preços que giram entre R$ 5 e R$10, é possível ter arte indígena estampada no
corpo durante cerca de uma semana. E não faltam “homens brancos” ostentando
suas pinturas nesse período dos jogos em Palmas. A cultura indígena faz a moda
na capital tocantinense.
Jefferson
Manoki caminhava pela vila com um colega – ambos usando os paramentos típicos
de seu povo; cocar, pinturas e adereços nos braços e pernas – quando foi
abordado por uma turista com uma máquina fotográfica nas mãos. Simpático, o
jovem Manoki abraçou a moça e sorriu para o flash.
Para
ele, este momento é positivo para que os índios possam se mostrar para o mundo.
“Eu acho bom. Assim somos mais
reconhecidos, mais valorizados. E também para podermos mostrar mais nossa
cultura, a cultura do nosso povo. Mas o nosso orgulho é independente do
pensamento do homem branco”, afirmou Jefferson.
Para
o xavante Urias Tsumey'wa, a pintura corporal é mais do que uma moda: cada uma
tem um significado, cada uma traz a bagagem cultural de um povo. “A pintura representa alguma coisa, fala
alguma coisa. O meu povo se pinta totalmente para a guerra, a nossa pintura é
em preto e vermelho. Eu procuraria a pessoa e perguntaria por que ela está se
pintando. A pintura é uma manifestação e um meio de mostrar que aquele povo
existe e vive.”
![]() |
Perto da área dos jogos, indígenas etinias expõem o melhor de seu artesanato. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil. |
Legado pode ser pequeno
O
jovem estudante xavante, no entanto, diz que o legado dos Jogos Mundiais dos
Povos Indígenas será pouco significativo para os índios. “Essa pequena ação do governo federal não satisfaz a maioria. O Brasil
deve muito para o povo indígena, porque somos os primeiros povos. Não podemos
falar em satisfação, isso ainda é pouco. Isso não vai beneficiar nem o povo
indígena. Vai beneficiar o governo”, afirmou Urias.
Mesmo
assim, o estudante afirma que os povos que se reuniram em Palmas precisam
aproveitar os jogos para interagir com os “parentes”, como chamam indígenas de
outras etnias, e trocar experiências. “Este é o momento de celebrar,
confraternizar, conhecer outras culturas. Antigamente não havia essa
interlocução de culturas.”
Os
JMPI têm tido momentos de descontração, com muita festa e esporte, mas também
tem havido manifestações e protestos. Embora sem espaço reservado na
programação, representantes das mais diversas etnias têm encontrado formas de
criticar políticas consideradas opressoras, como a Proposta de Emenda à
Constituição (PEC) 215, que transfere a decisão sobre demarcação de terras
indígenas do Ministério da Justiça para o Congresso Nacional.
Ontem
(26), na Arena Verde, quatro indígenas mostraram ao público uma faixa contra a
PEC e contra a morte de índios no país. O tema é frequentemente abordado nos
debates que ocorrem no Fórum Social Indígena, na Oca da Sabedoria. São pequenos
espaços que os índios estão abrindo por conta própria para fazer suas
reivindicações. “Politicamente, nosso
objetivo é chamar a atenção para a questão indígena de forma geral. Tentaremos
aproximar o governo das questões políticas e diminuir o preconceito que existe
entre sociedade indígena e a não indígena”, disse Mainami Santana, da etnia
Xukuru Kariri.
O
líder dos Karajá Xambewá, Edmilson Moreira Karajá, também destaca que os povos
originários do país devem buscar avançar em suas pautas junto ao governo. “Estamos em busca dessa resposta quando
deparamos com um encontro deste [Jogos Mundiais dos Povos Indígenas]. A
expectativa é que nos fortaleçamos e possamos ser ouvidos, respeitados”,
afirmou.
A
partir do dia 1º de novembro, todos os povos voltarão para suas aldeias, os
turistas para suas casas e a mídia concentrada em Palmas se dispersará. Será o fim
dos JMPI. Mas Edmilson pede para que a situação de muitos dos índios no Brasil
não seja esquecida. “Peço para não haver
mais essas obras de hidrelétricas, de barragens nas nossas terras. Que não se
aprovem esses grandes projetos, que vêm destruindo nossa cultura viva, que é
nosso povo. As barragens alagam, acabam com nossas reservas”, apelou
Edmilson.
Ele
citou também a etnia Guarani-Kaiowá, de Mato Grosso do Sul, cujos líderes têm
sofrido ameaças e ataques. “É uma
calamidade o que está acontecendo com os nossos parentes Guarani-Kaiowá. Eles
estão pedindo socorro. Gostaria muito que o governo visse isso com carinho, que
nossos parentes saíssem tranquilos daqui, tendo uma certeza de que seriam mais
bem cuidados.”
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Ao comentar, você exerce seu papel de cidadão e contribui de forma efetiva na sua autodefinição enquanto ser pensante. Agradecemos a sua participação. Forte Abraço!!!